Quando olham para ele não se apercebem da sua condição. Todo ele é uma surpresa. Acham a sua posição nas fotografias de uma extrema fofura e só perante uma explicação se apercebem que ele é mesmo diferente. Toda esta admiração cabe num corpo pequeno de um cão que se cruzou na minha vida e se instalou nas minhas memórias.
A palavra “pequeno” apenas se refere ao seu tamanho físico, porque todo ele é um gigante por tudo aquilo que representa. Deram-lhe o nome de Bikini e os nossos caminhos cruzaram-se no abrigo do ANIMAL RESCUE ALGARVE, para onde foi. A sua mistura de Chihuahua e Pinscher não deixava ninguém indiferente, mas era a sua condição física que o tornava diferente.
Nascera assim: diferente. As patinhas de trás nasceram com uma deformação que as tornara únicas. O seu andar parecia comprometido, assemelhando-se a uma aranha, mas que não o incomodava. Deixava-se tocar, adorava carinhos e o seu jeito trapalhão arrancava sorrisos por onde passava.
É difícil não nos tentarmos colocar no seu lugar e tentar entender como será viver com aquela “diferença”, e acabamos por ficar confusos e inundados de perguntas: “Será que o incomoda?”, “Será que sente desconforto ou dor?” Mas, se olharmos para os seus olhos, vemos com clareza o que sentem. Ao olhar para Bikini a única coisa que sentia nele era o que sentem todos os cães daquela idade naquele local: curiosidade! A curiosidade de explorar aqueles espaços, conhecer aqueles novos odores, sentir o calor de cada uma daquelas mãos para melhor conhecer cada um daqueles humanos.
Era um cão muito sociável, e o que mais o fazia correr era a vontade de brincar. A sua condição causava alguns incómodos, como para “fazer xixi”, pois não conseguia fazer da mesma forma que os outros, o que podia causar alguns acidentes. Em tudo o resto, estava no mesmo patamar dos outros. As fotografias mostram bem o seu espírito aventureiro: cabeça sempre bem levantada, uma postura elegante e um olhar pleno de brilho. Questionei-me se haveria solução para a sua condição. O tratamento possível assemelhava-se muito aos dos humanos para corrigir ou “consertar” os seus membros, passando por um processo doloroso e dispendioso que só uma família com condições poderia abraçar.
O destino não deixou que Bikini esperasse muito por uma família que se apaixonasse por ele e depressa foi adotado. A triagem foi feita de forma muito meticulosa e todas as exigências e necessidades encontraram a resposta que ele necessitava para ir para uma família.
Na minha cabeça continuava a questão de recuperar ou não a sua condição. A família que o adotou decidiu que o iria deixar ficar como estava. Não fazia sentido submetê-lo a longos processos de cirurgia com longas recuperações quando ele sempre se conhecera assim, era assim que tinha crescido e não demonstrava qualquer desconforto. Veio-me à memória a frase “Nunca sentiremos falta daquilo que nunca tivemos”. Com ele era a mesma coisa: nascera assim e sempre conseguiu viver daquela forma: meio trapalhão, divertido e muito muito feliz. Não devemos mexer no que não está partido e não devemos consertar aquilo que nasceu como teve de ser. Devemos sim amar cada um destes seres como eles são porque somos e seremos sempre a pessoa mais importante nas suas vidas.
Sê muito feliz meu querido Bikini.
Carregue na galeria para conhecer o patudo que nasceu algo diferente.








