Animais

Allegra: Ela ensinou-me que existem problemas maiores do que os meus

Atropelada aos dois meses, viveu num espaço fechado até fazer um ano. Ficou com a coluna danificada e perdeu duas patas.
É muito feliz.

Queixamo-nos de tudo, reclamamos de tudo e, às vezes, coisas pequenas são os nossos maiores dramas. Se chove, é porque queremos sol. Se está calor, imploramos por chuva. O trânsito que não anda, a roupa que queríamos vestir e não secou e o telemóvel que não tem bateria. A minha mãe sempre me alertava que me queixava por tudo e por nada, que me queixava de barriga cheia. E não é que tinha razão?

Tenho aprendido a valorizar mais a vida desde que conheço todos os animais (im)perfeitos que se têm cruzado no meu caminho. Tenho aprendido a valorizar mais a vida, a relativizar os meus problemas, a ver que existem problemas maiores do que os meus e que não é por isso que deixamos de viver. A tempestade que cai hoje é apenas um aguaceiro amanhã e, mesmo assim, deixamo-nos ficar debaixo de chuva quando deveríamos procurar os raios de sol que vêm logo de seguida.

A Allegra apareceu na minha vida e fui automaticamente proibido de usar a palavra “coitadinha” com ela. Ouvira falar dela e sabia alguns detalhes, mas nada me preparou para o nosso encontro. É impossível não empregar aquele cliché do “Quando pensei que já tinha visto tudo…” porque realmente não tinha visto nada assim.

Se disser a alguém que ver uma cadela subir escadas me deixou de boca aberta a maioria pensará que enlouqueci. Tudo muda quando essa cadela tem apenas as duas patas dianteiras. O corpo em perfeito equilíbrio, a cabeça erguida e, pata a pata, subiu aquele conjunto de escadas mais rápido do que eu. Poderia uma cadela fazer-me repensar o livro de reclamações que vive no meu peito? Sem dúvida.

Com apenas dois meses de vida, a Allegra foi atropelada. A falta de condições da família e até, talvez, falta de consciência levaram a que fosse mantida num espaço pequeno e fechado até fazer um ano. Paro sempre nesta parte porque não consigo imaginar como terá sido viver assim durante tanto tempo e ser brindada com os primeiros meses de vida com uma situação destas.

A falta de mobilidade e espaço levaram a que o seu desenvolvimento não ocorresse de forma natural e a sua coluna ficou totalmente danificada. Só depois foi entregue aos cuidados de uma associação e sujeita a uma cirurgia que lhe retirou as patas traseiras e a sua cauda. Todo este procedimento tornou-a, igualmente, incontinente.

De uma associação passou para o abrigo Animal Rescue Algarve (ARA) onde ficou em família de acolhimento. A situação foi temporária porque a mesma família oficializou a adoção e deu-lhe uma família, um novo nome, um lar. Deixou para trás o nome Estrelinha mas continuou a brilhar como Allegra.

Muitos acreditam que é através da cauda que os cães comunicam. A falta dela não a impediu de comunicar com um sorriso contagiante que a caracteriza. A sua boa disposição constante faz parceria perfeita com a energia que tem e triplica quando chega ao seu local favorito: a praia.

Com cadeira ou sem ela, não existe caixa de velocidades suficiente para Allegra. Perco-me a olhar para ela correndo, cumprimentando tudo e todos e demonstrando ao mundo aquilo que tem gravado na sua cadeira como se de uma matrícula se tratasse: “Never Give Up” ou seja “Nunca Desistir!”.

Falei dela à minha mãe. Mostrei-lhe as fotos. Pedi-lhe desculpa pelos stresses que lhe causava quando fervia em pouca água e dei-lhe razão pelas lições que me tentava ensinar e foi preciso uma cadela para me mostrar como devemos valorizar o que temos, sorrir e agradecer pelo que nos é dado e viver a vida como a Allegra: com “Allegria”.

A seguir, carregue na galeria para conhecer a vida de Allegra.

AMIGOS PARA SEMPRE by Carlos Filipe é uma rubrica quinzenal da PiT, em que o fotógrafo Carlos Filipe, amante da causa animal, partilha com os nossos leitores o que viveu com os cães que fotografou. “Cães imperfeitos”, esquecidos pelo tempo e desprezados por quem quer adotar, por serem velhos ou doentes e exigirem cuidados.

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