Muitos animais são invisíveis grande parte da sua vida. Vivem em casas em que ninguém os vê. Vivem anos e anos sem que ninguém se preocupem com eles. Amália era assim.
Nas primeiras fotos e vídeos que vi dela não a conseguir ver. Apesar de ser uma cadela de porte grande, não a consegui ver. Nem eu nem ninguém. Talvez onde ela vivesse fosse igual. Era invisível. Era impossível vê-la por que dos seus 49 quilos de peso, 7 eram rastas que lhe cobriam o corpo. Algo assim não acontece de um dia para o outro e por baixo de tudo aquilo existia um ser. Uma cadela.
Amália deixou o passado para trás quando foi resgatada, e o futuro apresentou-se bem mais risonho. A primeira fase foi remover toda a carapaça que lhe envolvia o corpo e representava o passado. Cada pedaço que caía revelava uma nova cadela de pelagem branca e macia, sarapintada de manchinhas pretas que sorria perante o futuro que se apresentava à sua frente.Infelizmente, foram também descobertos tumores, e apesar de tudo ser feito para os remover, um deles é maligno, e Amália começou a ser tartada.
Os primeiros dias no abrigo não foram fáceis e a alegria dela parecia desvanecer-se. Não queria comer e andava sempre muito abatida. Esta condição não passou despercebida aos olhos de João, que tinha acompanhado o seu percurso desde o início e resolveu levá-la para casa para ver se a alegria voltava ao corpo de Amália.
A primeira noite foi a prova de que era ali que ela deveria ficar enquanto aguardava a chegada da sua nova família. A conexão com a matilha de João foi imediata e não faria sentido colocá-la no abrigo depois daquela demonstração de amor.
Conheci Amália já sem as rastas. O pelo ainda levantava em alguns sítios, como se tivesse saudades do peso que ali viveu durante anos. O olhar era brilhante e espalhava amor com quem se cruzava. Sempre achei que seria fácil para ela encontrar uma família. Enquanto isso, ela aguardava no meio de uma matilha que a recebeu como se sempre tivesse pertencesse ali. Fui acompanhando as suas aventuras na praia, os passeios, as noites em caminhas fofinhas com companhia ao seu lado e sempre soube que ela dificilmente iria sair dali.
Enquanto as publicações a identificavam como estando em família de acolhimento, eu via uma cadelinha que ali tinha encontrado o seu cantinho e não sairia dali. E não saiu. A notícia veio esta semana: Amália já não sairia daquela matilha onde a vida recomeçou. O cancro reside no seu corpo, ainda mas se há coisa que os animais nos ensinam é que não devemos parar de viver, mesmo quando temos situações para resolver no nosso corpo.
Amália deixou para trás as rastas e com elas o seu passado. No futuro apenas tem alegria, amor e a certeza que quando se adota um animal salvam-se três vidas: a do animal que se adota, a de um animal que poderá ir para o abrigo recuperar e a pessoa que o adotou. Sê feliz, querida Amália.
Carregue na galeria para conhecer a patuda.
AMIGOS PARA SEMPRE by Carlos Filipe é uma rubrica quinzenal da PiT, em que o fotógrafo Carlos Filipe, amante da causa animal, partilha com os nossos leitores o que viveu com os cães que fotografou e com quem privou. “Cães imperfeitos”, esquecidos pelo tempo e desprezados por quem quer adotar, por serem velhos ou doentes e exigirem cuidados.









