Animais

Bo superou o abandono e os maus tratos. Conheceu o amor já velhota

A patuda foi resgatada depois de sofrer às mãos dos antigos tutores, com medo e uma saúde comprometida.

O meu nome é Bo e, neste ano “velho” que acaba, peço-te uma coisa.

Imagina-me como uma pessoa. Uma mulher madura que chega a casa e se prepara para descansar. Sento-me em frente ao meu toucador e começo a retirar a minha maquilhagem. Colocaria uma música calma e ao lado teria um copo de vinho para bebericar enquanto retiro tudo.

Começo a retirar as camadas que me tapam a cara e revelam o que sou neste momento. Vês o meu pelo que reluz apesar da minha idade. Vês a roupa confortável que visto mesmo que seja pequena. Vês o cinzento que me adorna os olhos e sabes que sou já velhinha. O que não vês é aquilo que a maquilhagem e os adereços não conseguiram cobrir. O que sou. Chamo-me Bo.

Nem sempre tive este nome. Tive outro que não te sei dizer mas que pertence a outra vida. Em 2019 foi quando a minha vida mudou. Já tinha 11 anos de vida quando me descartaram. Já tinha mais de metade da minha vida vivida quando deixou de haver espaço para mim.

Poderão dizer que eu também não era grande, caberia em qualquer local. Ficariam surpreendidos com o que este pequeno corpo pode aguentar — foi muito o que passei e muito o que sofri. Pelo caminho fui perdendo tudo: o brilho do meu pelo, a saúde dos meus dentes, o cheiro a perfume que havia abandonado o meu corpo há muitos atrás e até a minha saúde. Tinha tumores mamários e um coração ensopado de medo.

Nunca me ensinaram o que deveria fazer, mas ensinaram-me o que me aconteceria quando fizesse algo errado, mesmo que não soubesse que estava a errar. Quando somos pequenos tudo parece grande. Quando somos e nos sentimos minúsculos todo o mundo parece ainda maior e mais aterrador.

Foi no dia que me descartaram que a Bo antiga morreu e renasci eu. Doente, mal cheirosa, sem dentes, sem qualquer réstia de perfume, e pronta para descobrir um novo mundo. Nesse mesmo dia descobri o que era um carinho e dormir numa cama confortável apesar do meu cheiro. Quem me acolheu pareceu não se importar e deitou-me bem coladinha ao peito dela. Há muitos anos que não dormia tão bem.

É isto a que vocês, humanos, chamam de descanso, não é? Agora entendo porque gostam tanto. Foi a minha primeira noite. Depois disso comecei a reconstruir-me. As rastas a que chamavam pêlo deram lugar ao que vêm agora. Os dentes foram embora mas a minha língua provou sabores que nem sabia que existiam.

Não vos mentirei a dizer que tudo foram rosas. Passei por duas cirurgias, passei por muita dor e sofrimento mas tinha sempre um colo quente e mãos suaves para me amparar depois de cada etapa. Ganhei uma família que me mostrou o quanto estava errada em relação ao mundo: deixei de levar pancadas e comecei a receber ensinamentos. Deixei de dormir numa caixa apertada e aprendi o que era dormir sem medo que algo acontecesse.

Fui recebida numa família de animais que me aceitaram como eu era sem me julgar. Descobri o que eram passeios. Descobri o que era ter amigos e que nem todos os humanos são maus. Nem todos nos afastam ou nos vêm como simples máquinas de fazer dinheiro. Descobri que passei 11 anos da minha vida sem viver realmente. Descobri que ainda ia a tempo de ser feliz.

Se fosse uma mulher, estaria neste momento desmaquilhada e livre de qualquer artifício, assim como o fiz agora perante vós. Não sou uma mulher, mas apenas uma cadela. Velhinha mas jovem de espírito. Somos diferentes em tudo menos numa coisa: ambas merecemos respeito e amor.

Neste ano que termina outro vai começar, para eles é igual. Fica para trás a vida antiga e começa uma nova. A Bo partiu o ano passado mas conheceu uma vida cheia de amor como nunca sentira antes. Neste novo ano que vai chegar que seja um novo ano para todos os que como a Bo precisam de um recomeço.

Adotem um sénior. Adotem um animal que espera por uma família há anos. Adotem.

Feliz Ano Novo.

Carregue na galeria para conhecer Bo.

AMIGOS PARA SEMPRE by Carlos Filipe é uma rubrica quinzenal da PiT, em que o fotógrafo Carlos Filipe, amante da causa animal, partilha com os nossos leitores o que viveu com os cães que fotografou e com quem privou. “Cães imperfeitos”, esquecidos pelo tempo e desprezados por quem quer adotar, por serem velhos ou doentes e exigirem cuidados.

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