Animais

Bruno Ferreira salva ouriço e fica rendido. “Dava-lhe leite de 3 em 3 horas”

“Enrolava-se na minha mão e deixava-se dormir”, diz o comediante, que se apaixonou pelo indefeso bichinho.
Bruno e o pequeno ouriço.

Bruno Ferreira é um homem multifacetado. Abraça a cultura e o meio artístico em muitas das suas vertentes e podemos vê-lo como comediante, ator, cronista, dobrador e escritor. Mas não só: também fazem parte do seu cartão de apresentação duas características que considera muito importantes: é bejense e sportinguista. Tem também um grande amor e respeito pelos animais – e esta semana conheceu uma espécie pela qual se apaixonou: o ouriço-cacheiro.

A voz de Bruno está acostumada a transformações, ou não fosse ele um imitador de vozes – quem não se lembra do “Contra Informação”, na RTP? Mas quando nos fala deste ouriço-cacheiro bebé, que resgatou do seu quintal em Beja, todo o seu timbre é um só: ternura. Pax – como o batizou –, e que afinal parece que é uma Júlia, esteve apenas uns dias com Bruno, mas foi o suficiente para o deixar apaixonado pelo bebé e pela espécie. Para o salvar, procurou aconselhamento especializado, conseguiu arrebitar o pequenote e ficou a saber muito mais sobre ouriços-cacheiros. E na hora de o entregar, para que seja libertado na natureza, o seu coração ficou bem apertado.

Bruno vive em Lisboa, mas não consegue deixar a sua cidade por muito tempo. “Vou com bastante frequência a Beja, aos fins de semana e para atividades que lá mantenho, em trabalhos com um aspeto cultural e cívico”, diz à PiT. E foi precisamente no passado fim de semana que conheceu um bichinho que o marcou.

A descoberta de um ouriço-cacheiro bebé

Andava a limpar as silvas do quintal, para uma maior segurança contra incêndios, quando tudo aconteceu. “Infelizmente, devo ter dado cabo da toca daquela família e, por milagre – é inexplicável –, no meio de tanta erva, galhos e silvas vejo aquela coisa minúscula. Nem emitia sons. Foi uma qualquer magnética que me fez olhar para trás, para aquele sítio”, conta-nos Bruno Ferreira.

Bruno Ferreira
Era ainda um bebé.

“Percebi que era um ouriço-cacheiro bebé, tirei fotos e fui às redes sociais pedir ajuda. Muitas pessoas diziam para contactar a Amigos Picudos, uma associação da Maia dedicada à proteção e preservação dos ouriços, e assim fiz. Liguei e falei com a Clarisse Rodrigues, que foi inexcedível. O trabalho dela e do marido Tiago é incrível. Tive uma grande ajuda”, explica. “Acharam que o bebé poderia estar em hipotermia, apesar de estar bastante calor, pois precisava do aconchego da mãe na barriga. Não tinha uma botija de água quente, mas agarrei numa garrafa e meti água aquecida, embrulhei num paninho e pus junto a ele para recuperar calor. Aprendi muito sobre o que fazer: água quente, açúcar e leite para gatos bebés”, acrescenta.

Toda a experiência foi arrebatadora. “Fiquei completamente rendido. São muito dóceis e ingénuos. Estou a falar de um bebé, claro, mas eles são muito ingénuos e não têm medo das pessoas – e por isso é que às vezes não lhes corre bem”, sublinha. “Dentro da infelicidade, espero que o resto da família tenha conseguido sobreviver. O que eu podia fazer era dispensar-lhe o máximo de carinho. E foi o que fiz”.

“Percebeu que eu era uma espécie de pai”

E esse afeto deu frutos. “Enrolava-se na minha mão e deixava-se dormir”, conta Bruno, com voz de quem está a reviver esses momentos. “Percebeu que eu era um protetor dele. Quando o apanhei, pôs por instinto os piquinhos de fora. Mas foi a única vez. Depois percebeu que eu era uma espécie de um pai. Houve um dia em que estava a escrever no PC só com a mão direita porque na esquerda estava ele a dormir (risos)”.

“Ficou mais saudável, com mais peso e abriu os olhos quanto ainda estava comigo”, afirma. “Primeiro começam a ouvir, quando abrem as orelhitas, e depois é que abrem os olhos. E só depois vêm os dentes”, acrescenta, mostrando ter sido um atento aluno no que diz respeito a esta espécie.

Bruno Ferreira
Uma despedida que custou.

Com tanta ternura e cumplicidade, o que mais apetecia era não o largar. Mas Bruno sabia que tinha de o deixar ir. E conta, com um misto de tristeza saudosa e certeza de que fez o que estava certo, que se despediu agora do seu amigo picudo. “Entreguei-o nesta terça-feira, 2 de julho, no LxCRAS – Centro de Recuperação de Animais Silvestres de Lisboa. Disseram-me que depois podia saber notícias dele. Já mandei email a perguntar e estou à espera. Queria despedir-me dele, saber o dia da libertação para o ir ver a seguir para a casa dele, que é a natureza”.

“O meu filho mais novo queria que ficássemos com ele. É possível, mas não deixa de ser contranatura. Foi o melhor, mas ainda me custa. Tinha de me levantar de três em três horas para lhe dar o biberão e mudar a água quentinha. Tenho muitas saudades e farto-me de pensar em como estará”, confessa Bruno.

Pax, se calhar… é uma Júlia

E Bruno descobriu entretanto que talvez o amigo seja… uma amiga. “Nos Amigos Picudos viram uma foto que lhes enviei, com ele a espreguiçar-se, de barriga para cima, e acham que é uma menina, porque não se deteta o prepúcio. Se assim for, será Júlia em vez de Pax”, diz-nos. Agora, o seu coração não sossega enquanto não souber se ele está bem. “Uma coisa que me deixa apreensivo é a quantidade de animais que chegam ao LxCRAS diariamente. No mesmo dia em que lá fui, deixaram também um ouriço ainda mais bebé, um morcego e um mocho. Tudo num dia”.

Para Bruno Ferreira, toda a experiência foi muito enriquecedora. “Foram uns dias de muito amor e carinho e ganhei um respeito gigantesco por esta espécie que eu não conhecia bem. São incríveis, porque não são domésticos mas parecem. E são excelentes jardineiros. Tratam da horta, dos jardins, dos quintais, e são ótimos companheiros para se ter por perto. Também aprendi que é sempre bom ter um bocadinho de água num pratinho, bem como algumas verduras e frutas. É a ajuda que podemos dar sem invadirmos o território deles”.

O apego ficou. E para sempre. “Vai deixar-me marcas. Apaixonei-me por um bichinho que estava ali tão indefeso. E tenho a certeza que ele também sentiu o meu amor, porque só estava bem na minha mão. Eles têm um bom olfato e ele reconhecia-me mal me aproximava”, conta.

Bruno Ferreira
27 de julho de 2023. “Dona Baga veio ao Sr. Doutor”.

Bruno Ferreira encantado com a gata Baguinha

Enquanto espera por notícias de Pax – ou Júlia –, Bruno vai-se deliciando também com Baguinha, a gata adotada pela sua mãe no CAGIA – Canil/Gatil Intermunicipal da Resialentejo quando esta era ainda uma bebé. “Era uma gatinha que andava perdida em Beja. A GNR encontrou-a e entregou-a no gatil. Era muito dada e é muito agradecida. A minha mãe, que vive aqui em Lisboa, mesmo ao lado de mim, adotou-a. Por isso estamos muito com ela. É da família”.

“Quando fez um ano – terá nascido em maio e pus como dia de nascimento o mesmo que o meu, dia 15 – levei-lhe uma prenda e ela percebe tudo e é muito agradecida. Cheira, rodeia, brinca, adora. Gosta muito de ir à caixa de brinquedos dela escolher”, conta Bruno, deliciado enquanto fala sobre a jovem felina. “Esteve muito doente quando a trouxemos, mas graças à equipa de veterinários conseguiu superar. Hoje em dia está cheia de saúde. Tem uma vivacidade incrível, já abre portas e tudo (risos)”..

Para Bruno, que apela a adoções conscientes, não há qualquer hesitação: há que ajudar os animais da forma que se puder. “Os animais são tantas vezes maltratados e ignorados. Se todos pudermos fazer nem que seja um bocadinho por um animal, é muito bom. Eles merecem, só querem ter a vida deles”, remata o comediante, que nos abriu o coração para falar de coisas sérias. Percorra a galeria e conheça melhor o Pax – ou será Júlia? – e a Baguinha, bem como o homem cujo coração se rende ao afeto de quem confia na sua bondade.

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