O Festival de Cannes voltou a premiar os animais que conquistam o grande ecrã. Este ano, os Palm Dog Awards — os já icónicos prémios não oficiais dedicados às melhores performances caninas do festival — ficaram marcados por uma coincidência simbólica: duas cadelas, protagonistas de filmes realizados por mulheres, conquistaram os principais galardões da edição.
A distinção foi anunciada na quinta-feira, 21 de maio, reforçando uma tradição já conhecida do festival francês: reconhecer o papel dos animais no cinema contemporâneo.
Uma história sobre afeto, solidão e maternidade
O principal Palm Dog foi atribuído a Yuri, a cadela protagonista de La Perra, da realizadora chilena Dominga Sotomayor, exibido na secção Directors’ Fortnight.
No filme, Yuri é uma cadela vadia que transforma a vida solitária de Silvia, uma mulher que vive numa ilha isolada na costa sul do Chile. A chegada do animal desencadeia uma profunda jornada de autodescoberta, levando a protagonista a confrontar traumas de infância e emoções reprimidas.
A obra é baseada no romance de Pilar Quintana e, segundo Sotomayor, um dos aspetos que mais a atraiu foi precisamente o facto de a história não romantizar a relação entre humanos e cães.
A realizadora explicou ainda que queria explorar “a tensão fascinante entre a domesticação e a natureza incontrolável do animal”.
Durante a cerimónia, Dominga Sotomayor recebeu pessoalmente a emblemática coleira em couro gravada que simboliza o prémio e afirmou ter procurado criar “uma personagem canina profunda, em busca de identidade e liberdade”.
Em Yuri, encontrou uma figura “inquieta, determinada e magnificamente ela própria”.
Da vida num abrigo ao palco de Cannes
Fora das câmaras, a história da cadela é igualmente emocionante. Antes de participar no filme, o animal vivia num abrigo e foi escolhido através de um processo colaborativo de adoção e treino desenvolvido para a produção.
Após as filmagens, acabou por ser adotada por uma nova família — um desfecho feliz que acabou por conquistar ainda mais o público e a crítica presentes em Cannes.
Lola emociona Cannes e vence o Prémio do Júri
O Prémio do Júri foi entregue a Lola, a cadela de I See Buildings Fall Like Lightning, realizado por Clio Barnard, também exibido na secção Directors’ Fortnight.
No filme, Lola pertence a Oli, um pequeno traficante e jovem desorientado interpretado por Jay Lycurgo, que começa a mudar de vida depois de a adotar. A relação entre ambos foi descrita por vários críticos como uma das mais emocionantes de todo o festival.
O drama acompanha cinco amigos da classe trabalhadora que cresceram juntos num bairro social em Birmingham e que, agora na casa dos 30 anos, enfrentam caminhos de vida muito diferentes e cada vez mais limitados pelas circunstâncias.
Como Lola não pôde estar presente na cerimónia, quem recebeu o prémio foi Soprano, a sua “dupla” no filme e uma impressionante sósia canina — numa tradição divertida mantida há anos pelos Palm Dog Awards.
De cão abandonado a estrela de Cannes
O momento mais emotivo da cerimónia surgiu quando Clio Barnard partilhou a história real de Lola.
Antes de integrar o elenco do filme, a cadela vivia abandonada nas ruas e acabou por ser resgatada por um abrigo, onde foi descoberta e escolhida para participar na produção.
A realizadora descreveu o percurso da cadela até Cannes como “uma verdadeira história de superação, dos trapos ao luxo”.
Um prémio já conquistado por outros cães famosos do cinema
O Palm Dog tornou-se, ao longo dos anos, um dos prémios paralelos mais acarinhados do Festival de Cannes.
Entre os vencedores de edições anteriores estão Messi, o cão de Anatomia de uma Queda, e Brandy, de Era Uma Vez em… Hollywood, ambos elogiados pelo impacto das suas interpretações nas respetivas produções.
Yuri e Lola juntam-se agora à lista dos animais mais memoráveis do cinema recente — e confirma que, em Cannes, o talento também pode vir de quatro patas.
Carregue na galeria para conhecer Indy, o cão-ator do filme Good Boy, que ganhou o prémio de melhor ator nos Astra Awards.









