Animais

Famosos juntos contra maus-tratos a animais. Porque o amor tem quatro patas

Clara de Sousa, João Baião, Fátima Lopes, Andreia Rodrigues, Ana Patrício Carvalho e Sérgio Rosado participam em campanha.
Clara de Sousa é uma das personalidades que participa na campanha.

Cookie foi encontrada, acabada de nascer, num caixote do lixo. Estava com os irmãos dentro de um saco de plástico, “ainda quente”. Tinha sido abandonada para morrer. Quis o destino que fosse parar às mãos da jornalista da SIC Ana Patrícia de Carvalho, que sofria com a perda de uma cadelinha, companheira de uma vida e “membro da família”. “Eu tinha dito que não queria mais nenhum animal”, conta à PiT. Mas a pivò da “Edição da Noite” da SIC Notícias não conseguiu ficar indiferente àquele “ratinho muito pequenino, que cabia na palma de uma mão”. Hoje, Cookie tem cinco anos e é uma Yorkshire Terrier feliz. Estreou-se nesta terça-feira, 19 de abril, como uma das protagonistas da campanha de sensibilização contra os maus-tratos a animais e os benefícios da sua presença para a saúde mental.

As imagens foram captadas pela Shots & Cuts nos estúdios da Big Ideia – Creative Hub, em Lisboa. A iniciativa, que conta com o apoio da Câmara Municipal desta cidade e tem coordenação de Mauro Paulino (psicólogo clínico e forense), Sandra Horta (jurista) e Pedro Emanuel Paiva (especialista em comportamento canino e o novo Provedor do Animal da CML), tem como mote o lançamento da obra “Animais e Pessoas: Maus-tratos a Animais, Link para a Violência Contra Pessoas e Intervenção Assistida”, da editora Pactor, e juntou quase uma dezena de figuras públicas e os seus animais de estimação.

A PiT esteve lá e assistiu às gravações, pautadas por muitas gargalhadas, fotografias e, claro, alguns xixis e cocós. Para Ana Patrícia de Carvalho, era impensável ter recusado o convite. “É sempre muito importante relembrarmos que os nossos animais têm direitos e que somos contra aquelas atrocidades que continuamos a ver, muitas vezes, em notícias que achamos impensáveis. Eu sou das pessoas que me custa muita quando tenho de noticiar maus-tratos a animais. Mexem muito comigo, até pela história da Cookie”, lamentou.

“Os animais já nascem a saber amar de forma incondicional”

Andreia Rodrigues também lá esteve e afina pelo mesmo diapasão. “Uma vez li que os animais já nascem a saber amar de forma incondicional e nós levamos uma vida inteira para conseguir fazê-lo. Eles, por norma, até por aqueles que lhes fazem mal — e a maior parte das vezes são os tutores que os maltratam —  têm uma devoção tal e um amor tal que acabam por se subjugar e permitir que essas atrocidades aconteçam”, lembra. A apresentadora do canal de Paço de Arcos e mulher de Daniel Oliveira, Diretor de Programas da mesma estação, trata Roma e Rio, os seus dois cães, por “filhos caninos”. “Eu não consigo imaginá-los a sofrer. Eu sou daquelas mães caninas que chama a veterinária a casa por qualquer coisa”, ri-se.

A cumplicidade entre a comunicadora e os seus dois patudos é bem visível neste momento carinhoso que a PiT captou nos bastidores da sessão.

Clara de Sousa vai mais longe e acredita que integrar estas iniciativas é uma “função social” que as figuras públicas também devem ter. É dela o prefácio de “Animais e Pessoas: Maus-tratos a Animais, Link para a Violência Contra Pessoas e Intervenção Assistida”. “Fiquei muito feliz quando o Mauro me convidou, porque sou muito ligada a animais desde criança”, afirma a pivô da SIC, que levou Mia e Kiko para a campanha. Em casa ficaram três gatos. Todos eles foram resgatados. “Os animais são nossos amigos se nós formos amigos dos animais e muitas vezes são nossos amigos mesmo quando são mal tratados. Espero, de alguma forma, que o nosso exemplo possa fazer perceber que a violência é completamente errada”, frisa à PiT.

A jornalista, de 54 anos, mantém a esperança nas gerações mais jovens e conta que a sua forma de ver os animais mudou. “Hoje, choca-me se vir um cão acorrentado. Quando eu era mais nova não me chocava. Fazia parte. Eu evoluiu nesse aspeto”, confessa. “Enquanto cá estiver, quero cumprir a minha parte”, termina.

Também João Baião se fez acompanhar de dois cães., Tânia e Tomás Na sua quinta em Alenquer ficaram outros 12. “Quando acham que a minha presença é fundamental para qualquer tipo de alerta relativamente ao mundo animal, eu aceito com todo o gosto”, assevera. Porque, prossegue, “apesar das constantes campanhas, ainda estamos aquém do respeito que devemos aos animais e do carinho que lhes devemos proporcionar”. “Temos de olhar para os animais como elementos da família“, reitera o apresentador e ator.

Fátima Lopes não podia estar mais de de acordo. A apresentadora levou Brownie, um cão de cinco anos que vive em sua casa há cerca de três e meio, e referiu que dar a cara por estas iniciativas é de “extrema importância, para que toda a gente perceba que os animais têm de ser tratados com o mesmo respeito e com o mesmo carinho com que se tratam as pessoas”. “Quem trata mal um animal nunca será uma boa pessoa. Aliás, nem lhes chamo pessoas, chamo-lhes criaturas”, diz, visivelmente incomodada. “Enquanto esta mensagem não chegar de forma clara a toda a gente, eu não me calarei”, atesta.

Fátima Lopes e o seu Brownie
Fátima Lopes e o seu Brownie

“Sei que os maus-tratos nunca vão ser erradicados”

Pedro Emanuel Paiva, um dos coordenadores da iniciativa — que contou ainda com os contributos de Sérgio Rosado, Iva Lamarão, Nuno Gama e Jani Gabriel —, apelida “esta ação como o culminar de mais de vinte anos de trabalho”. “Um dos grandes desafios da minha missão, como especialista em comportamento animal, tem sido sensibilizar para a importância da presença dos animais na vida dos seres humanos e a questão do mau trato”, alerta à PiT, explicando que o “mau trato pode ir além do físico”. “Existe o mau trato intelectual, emocional, que muitas vezes passa por instrumentalizar os animais em determinados contextos e este trabalho vem aprofundar isto”, continua.

“Animais e Pessoas: Maus-tratos a Animais, Link para a Violência Contra Pessoas e Intervenção Assistida” quer, através do contributo de especialistas em várias áreas, “mostrar a transversalidade que pode existir em torno do mau-trato”. “Depois, alguns dos especialistas que fazem parte deste trabalho têm projetos em que a presença de animais proporcionam benefícios, não só no âmbito da saúde mental mas também naquilo que é o desenvolvimento de competências em algumas patologias”, enumera. “Sei que os maus-tratos nunca vão ser erradicados, mas espero que o sonho me deixe continuar a tentar trabalhar nesse sentido”, deseja.

O livro “Animais e Pessoas: Maus-tratos a Animais, Link para a Violência Contra Pessoas e Intervenção Assistida”

O psicólogo clínico e forense Mauro Paulino deixa o alerta sobre os sinais que a violência contra os animais dão. “Esta violência alerta-nos sobre violência que é exercida sobre pessoas. Existem imensos estudos que concluem que os maus-tratos contra animais são uma bandeira vermelha de sinalização de que dentro daquele agregado familiar mais alguma coisa se pode passar, seja violência doméstica seja maus-tratos infantis“, exemplifica.

“Há um tópico muito referenciado, que é perceber que um animal tem um amor incondicional pela pessoa com a qual está a interagir, que não coloca condições em termos de apreciação física, e isso transmite confiança, em especial para as crianças”, lembra Mauro Paulino, sublinhando que este “amor incondicional” é utilizado, por exemplo, em contexto de Justiça, onde “a presença do animal transmite confiança”. “Quando uma criança está a afagar o animal, acaba por ter mais possibilidade de partilhar o que está a sentir. Quando uma criança está a falar de alguma questão familiar ou de um abuso de que foi vítima, a presença de um animal baixa os níveis de stress, apazigua e ajuda-a a dar um relato mais fidedigno”, garante.

O psicólogo termina com um desabafo: “Existem dezenas e dezenas de estudos sobre isto e eu não consigo conceber como é que, em Portugal, com este conhecimento internacional científico, não pensamos em como operacionalizar isto. Escrevemos na lei que vítimas de violência doméstica e outras não devem ter experiências de vitimização secundária, que no fundo é quando a própria Justiça as revitimiza. Então, porque é que não tiramos partido de todas estas ferramentas para tornar a experiência menos traumática?”.

Carregue na galeria e veja as fotos dos bastidores da campanha.

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