Superação. Charlie foi mutilado, mas viveu para conhecer o amor

O patudo passou pelo Animal Rescue Algarve depois de sofrer maus tratos, e foi adotado por uma família.

Existem animais que ficam gravados na nossa mente. Podem passar meses e até mesmo anos e nunca se irão apagar da nossa memória. Esta semana voltei ao abrigo do Animal Rescue Algarve e a primeira box do lado direito puxa sempre o meu olhar para ela. Ali reside um novo cão que trouxe uma história e aguarda pelo seu final feliz. Naquela box existe um número, mas para mim será sempre a box do Charlie Brown.

Em 2019, quando visitei o abrigo pela primeira vez, foi um dos que pude fotografar, e a imagem dele ficou para sempre gravada na minha memória. O seu nome era Charlie Brown, mas o que saltava à vista logo, quase de imediato, era a ausência de orelhas e de cauda, que haviam sido cortadas por maldade. A postura dele mostrava que também tinha conhecido maus tratos.

A forma arredondada do que restava das orelhas dava-lhe um ar de ursinho de peluche, e foi essa a alcunha que lhe dei naquele dia. Tornou-se uma das minhas visitas preferidas sempre que voltava ao abrigo. Perguntava sempre por ele, queria saber como estava, se já tinha surgido uma família. Os meses foram passando e ele ali continuava. O seu dia-a-dia era passado entre parques onde brincava, algumas visitas a eventos de adopção, e a sua rotina acabava por ser algo que não o parecia incomodar. Algumas das vezes apenas o cumprimentava e dizia-lhe “ Hoje não te vou aborrecer com fotografias. Já fizemos umas bem bonitas e sei que irás encontrar uma família”. E ele ali ficava.

Fui acompanhando a sua longa jornada de espera com esperança no coração de um dia receber a notícia de que o ursinho tinha sido adotado.

Numa das visitas procurei-o pelas boxes mas ele não estava. Pensei que tivesse sido mudado de sítio, que estivesse num dos parques ou até num evento. Não queria perguntar mas precisava de saber onde estava ele.

A resposta à minha pergunta veio através de um vídeo num telemóvel: Num cenário cheio de neve conseguia ver-se um cão a saltitar fazendo lembrar um coelho. Poderia ser um cão qualquer, mas as orelhas pequeninas e redondinhas não deixavam lugar para dúvida: o ursinho tinha sido adotado.

Soube que havia sido adotado e vivia no estrangeiro. Continuei a acompanhar a sua nova vida e cada foto e vídeo enchia o meu coração de alegria: os passeios em família, as sestas ao pé da lareira, as mantinhas que podia chamar suas e o sofá que o tinha acolhido tão bem. É muito gratificante ver cada um deles encontrar uma família mas em situações como as de Charlie, onde as mutilações e os traumas acabam por contaminar o amor deixando dúvidas, medos, e o sentimento de pena pode ser um entrave à adopção. O que nos vale é que cada vez mais as pessoas conseguem ultrapassar estes medos e dar uma oportunidade a animais que só conheceram dor e sofrimento em grande parte da sua vida.

Esta semana fui ao abrigo e parei em frente à box numero 1. A box de Charlie. Nele vive um novo cão que esperamos que seja adotado rapidamente. As boxes vão acolhendo vidas que trazem um passado e apenas se abrem para os entregar a um novo futuro. Aquela será sempre a box do meu Charlie.

O meu Charlie faleceu este mês. Terminou a sua caminhada que foi sendo polvilhada de dor mas também de muito amor. O meu ursinho descansou mas conheceu o amor. Visitem os abrigos e procurem ursinhos como o Charlie. Podem tirar-lhes as orelhas, o rabo, uma pata. Podem tentar tirar-lhes tudo mas nunca lhes tirarão o que têm de mais puro: a esperança e o amor. 

Carregue na galeria para conhecer Charlie.

AMIGOS PARA SEMPRE by Carlos Filipe é uma rubrica quinzenal da PiT, em que o fotógrafo Carlos Filipe, amante da causa animal, partilha com os nossos leitores o que viveu com os cães que fotografou e com quem privou. “Cães imperfeitos”, esquecidos pelo tempo e desprezados por quem quer adotar, por serem velhos ou doentes e exigirem cuidados.

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