O que fazemos depois de apenas conhecer o inferno? Infelizmente, nem todas as histórias conseguem ver a luz do dia e chegar às bocas do mundo como a recente história das centenas de cães resgatados em Amarante. Chloe é uma dessas sobreviventes.
Quando estas situações chegam aos media, é a melhor forma de mostrar uma realidade escondida e muitas vezes ignoradas por muitos. Ficamos com sentimentos de revolta e uma sede de justiça que esperamos ser célere e justa. Para mim, esta não é uma realidade nova. Conheci muitos sobreviventes destas situações desumanas, e a maior aprendizagem que me deixaram foi que o resgate é apenas o primeiro passo de uma longa recuperação em que o amor se mistura com a paciência e o tempo. Essa é a mensagem que todas as pessoas que acompanham estes casos devem saber logo desde início.
Durante anos, Chloe viveu sem sol, sem luz e sem esperança. Viveu num armazém com dezenas de animais tendo por companhia as moscas e as fezes que os rodeavam. Não se sabe quantos anos ali viveram nem quantos filhos terá tido. A única coisa que conseguíamos retirar dela era o vazio do olhar quando de lá a retiraram. Perante ela estava um mundo novo que necessitava de processar aos poucos porque o medo estava demasiado entranhado na pele.
Adotar um animal como ela requer paciência e muito tempo. Quando a conheci vi uma cadela cheia de medo de tudo, cuja única preocupação era encontrar um local para se esconder. Fotografá-la foi um processo moroso que levou algum tempo e muita paciência. Na vida que se apresentou à sua frente foi igualmente um desafio.
Receber Chloe na família foi um teste à paciência e ao verdadeiro amor, porque durante semanas não se deixou avistar. Percorria os espaços a medo e só quando o silêncio se instalava é que ela conseguia explorar um pouco do mundo novo que se apresentava à sua frente. Foram necessários meses para que se aproximasse da taça de comida e mais alguns para que se deixasse tocar. É difícil quebrar um medo que se instalou durante anos e foram necessários quase dois anos para que não tentasse fugir quando me aproximei dela.
Hoje, passados quase 8 anos, já não foge de mim, e embora não mostre muita vontade de se aproximar de mim, deixa-se tocar e fica ao meu lado. No meio da sua matilha é uma cadela perfeitamente normal que parece nunca ter passado pelo que passou. Perante novas pessoas o medo vem matar saudades e não permite grandes contactos.
O tempo deles é tão pouco que, depois tantos anos gastos naquele inferno, queremos que tenham a melhor vida dando-lhes tudo o que necessitam para serem felizes. Ter de esperar e fazer tudo a um ritmo mais lento pode ser um desafio mas é algo que quem queira dar uma oportunidade a um animal como Chloe deve saber.
Hoje, Chloe é uma menina muito feliz, já com a sua idade a tornar-se avançada, mas foram necessários anos para que voltasse a confiar. É isto que ela me ensinou e todos devem saber: Adotar um animal que venha de um inferno destes é aprender a amar aos poucos, dando espaço e tempo porque a nossa função acaba por parecer injusta: Teremos de colar os pedacinhos partidos do coração que alguém partiu e teremos de dar o nosso amor aos poucos para que saibam que nem todos somos monstros. Quem conseguir fazer isto terá ao seu lado aquilo que Chloe dá neste momento: um amor incondicional. Denunciem os criadores porque nenhum animal deve viver estes infernos que os “seres humanos” criam por simples amor ao dinheiro fácil.
Carregue na galeria para conhecer Chloe.
AMIGOS PARA SEMPRE by Carlos Filipe é uma rubrica quinzenal da PiT, em que o fotógrafo Carlos Filipe, amante da causa animal, partilha com os nossos leitores o que viveu com os cães que fotografou e com quem privou. “Cães imperfeitos”, esquecidos pelo tempo e desprezados por quem quer adotar, por serem velhos ou doentes e exigirem cuidados.







