A relação entre cães e humanos é frequentemente descrita como profunda e intuitiva — marcada por afeto, lealdade e uma sensibilidade difícil de explicar. Em alguns casos, essa ligação ultrapassa o campo emocional e pode até contribuir para decisões que salvam vidas. Foi o que aconteceu com a advogada norte-americana Chase JohnsonChase Johnson, de 36 anos, residente na Carolina do Norte, Estados Unidos, que descobriu um cancro de mama agressivo após notar uma mudança persistente no comportamento do seu Labrador, Ceto, noticia a revista brasileira Cães e Gatos.
Mudança de comportamento deu o alerta
Nas semanas que antecederam o diagnóstico, Chase começou a perceber que algo não estava normal. O cão, até então tranquilo, passou a demonstrar sinais de ansiedade e inquietação, choramingando sempre que se aproximava dela.
Chase Johnson estranhou o comportamento do cão e, com o passar dos dias, tornou-se impossível de ignorar.
O episódio decisivo ocorreu quando Ceto passou a tocar repetidamente no seio esquerdo da tutora com o focinho, de forma insistente e direcionada.
Foi esse gesto que levou Chase a prestar atenção à região. Ao examinar-se, identificou um nódulo e decidiu procurar avaliação médica.
Diagnóstico precoce foi determinante
Em 2021, veio a confirmação: cancro de mama triplo-negativo (CMTN), uma forma considerada agressiva da doença, caracterizada por um crescimento mais rápido e um menor número de opções terapêuticas direcionadas.
O tratamento foi extenso e exigente, incluindo: quimioterapia e radioterapia, mas, apesar da gravidade, o diagnóstico em estágio inicial foi crucial para o sucesso do tratamento. “Se Ceto não tivesse feito o que fez, eu não teria encontrado o nódulo”, afirmou Chase, ao destacar o papel decisivo do animal na descoberta precoce. Atualmente, ela está livre da doença.
Um histórico que reforçou a decisão
O episódio não foi um caso isolado nesta família. Anos antes, Ceto já tinha demonstrado um comportamento insistente em relação ao marido de Chase, Ben Byrn.
Na ocasião, a mudança de atitude do cão também motivou a procura por atendimento médico — e resultou no diagnóstico de cancro do cólon.
Essa experiência prévia foi determinante para que Chase levasse os sinais do animal a sério. “Se eu não tivesse o Ceto, e se eu não tivesse tido essa experiência anterior com meu marido, talvez eu não estivesse aqui”, declarou.
O que diz a ciência
Embora relatos como este sejam cada vez mais frequentes, especialistas sublinham que os cães não substituem exames clínicos ou diagnóstico médico.
Ainda assim, há estudos que investigam a capacidade desses animais de perceber alterações fisiológicas humanas. A hipótese mais aceite está relacionada com o olfato altamente desenvolvido dos cães, capaz de identificar compostos químicos libertados pelo organismo em determinadas condições de saúde.
O caso de Claire e da sua Labradora Daisy
Em 2009, psicóloga comportamental de animais Claire Guest descobriu as notáveis capacidades de deteção de cancro da sua Labradora, Daisy. Durante um passeio, Daisy apresentou um comportamento incomum ao insistir repetidamente em tocar o peito de Claire com o focinho, o que levou Claire a descobrir um nódulo cancerígeno em estágio inicial. Esta experiência pessoal confirmou a crença de Claire de que os cães poderiam detetar o cancro através do seu apurado sentido de olfato.
A investigação de Claire enfrentou inicialmente ceticismo, mas desde então ganhou reconhecimento. A sua organização, Medical Detection Dogs, treina atualmente cães para identificar cancro em amostras de urina e respiração com 93% de precisão. Este método está a ser considerado como uma ferramenta complementar para o rastreio do cancro, podendo reduzir a necessidade de exames invasivos e salvar vidas.
O sucesso de Daisy e de outros cães treinados destaca o potencial de integrar a deteção olfativa canina na prática médica, oferecendo um meio não invasivo e altamente preciso de deteção precoce do cancro.
A história de Daisy está documentada no livro “Daisy’s Gift: The remarkable cancer-detecting dog who saved my life”.
Gatos podem ser a chave para saber mais sobre o cancro nos humanos
Mas não são apenas os cães que podem ajudar no tratamento do cancro. Uma equipa de investigadores concluiu, recentemente, que o desenvolvimento da doença é mais parecido entre gatos e humanos do que se poderia pensar.
O estudo, divulgado a 19 de fevereiro na revista Science, analisou o primeiro mapa genético detalhado do cancro em gatos, revelando mais parecenças do que se esperava com a mesma doença nas pessoas. A descoberta pode significar o desenvolvimento de novas formas de a tratar em ambas as espécies.
Os pesquisadores do Instituto Wellcome Sanger em Cambridge, Reino Unido, analisaram o ADN de quase 500 gatos domésticos. Durante a análise, descobriram mutações genéticas chave sobre o desenvolvimento da doença.
“A genética do cancro dos gatos tem sido uma incógnita até agora”, fez notar Louise Van der Wayden, a líder do estudo, à BBC. “Quanto mais conseguirmos saber sobre o cancro em qualquer espécie mais benefícios temos para todos”.
A equipa internacional examinou cerca de 1000 genes ligados a 13 tipos diferentes de cancro em felinos. A principal conclusão foi que muitos destes genes são semelhantes aos encontrados nos seres humanos, sugerindo que as espécies têm processos biológicos essenciais em comum, que permitem que os tumores se desenvolvam.










