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Cuidadoras denunciam práticas ilegais no CROA de Palmela. Município abriu inquérito

Um grupo de responsáveis por colónias de gatos na região apontou a falta de condições, a realização de cirurgias com instrumentos não esterilizados e a morte de animais.

Falta de condições de higiene, cirurgias com instrumentos não esterilizados, orelhas gangrenadas e aplicação de supercola3 no corpo dos animais — são estas algumas das acusações levantadas contra o CROA de Palmela por um grupo de cuidadoras informais da região. O município reconhece que o número de animais abandonados excede a capacidade das instalações, e afirma ter sido aberto um processo para averiguar as denúncias realizadas.

O caso foi adiantado no domingo, 11 de janeiro, pelo Diário do Distrito, a quem duas responsáveis por colónias de gatos na zona expressaram as suas preocupações. Estas envolveram já queixas-crime e uma petição online, que dizem respeito às práticas realizadas pelo CROA, pelos funcionários e pelo veterinário municipal, Joaquim Manuel Neves Martins.

Esterilizações com supercola3 e falta de condições

Uma das responsáveis pelos felinos avançou saber que durante um ano o veterinário “fez esterilizações sozinho, e a sala de cirurgia não era limpa em condições, os instrumentos não eram devidamente esterilizados, e até as orelhas dos animais, que são cortadas após o procedimento, chegavam a gangrenar”.

A mesma acrescentou ter adotado uma gata esterilizada pelo profissional que, no corte de esterilização, “aplicou supercola3, em vez de cola cirúrgica”, e explicou que esta é uma prática previamente admitida pelo CROA, com base na alegação de que “a supercola3 tem o mesmo princípio ativo que a cola cirúrgica (cianoacrilato)”. O facto, diz a tutora, fez com que o corte cirúrgico abrisse, deixando os tecidos internos da gata expostos. “Foi horrível, tive de aplicar um curativo até conseguir levá-la a uma médica veterinária de urgência”, disse. 

A cuidadora adianta que esta felina teve mais sorte do que os restantes esterilizados pelo médico, que “foram para a colónia e eram silvestres”, por isso não foram capturados, e “acabaram por morrer”. A alegação, diz ainda, verificada sobretudo entre as colónias com menos visibilidade, “de onde chegam a desaparecer todas as gatas”. “Também já tivemos um caso de um gato que acabou por morrer porque o veterinário o esterilizou como se fosse fémea”, acusa.

Outra cuidadora diz que o canil conta com outra veterinária além de Joaquim Neves, mas que tem sido este a ocupar o lugar com maior frequência. “Está bem protegido”, comenta. 

A cuidadora informal conta que um dos gatos de uma das suas colónias foi capturado e esterilizado sem o seu conhecimento, tendo depois desaparecido durante “quatro ou cinco meses”. “Imagino onde é que o terão deixado, até ele encontrar outra vez o seu cantinho”, lamenta. 

As tratadoras expressam ainda existirem casos de animais esterilizados e devolvidos às colónias sem serem cumpridas as 24 horas de recobro, “alguns ainda sob o efeito da anestesia”. 

A falta de condições do espaço é igualmente denunciada, com a enumeração de casos como o da avaria da máquina de lavar roupa, que assim terá ficado durante dois meses, “o que levou a uma falta de mantas para aquecer os animais”. Além disso, os sacos de soro são colocados em pregos nas paredes, devido à falta de suportes, e “não há uma sala de cirurgia”.

É ainda mencionado o bullying sofrido por alguns funcionários, que desistiram dos trabalhos por “não aguentarem aquilo que viam passar-se ali com os animais”.

Elaboraram uma petição

Estas situações e outras situações levam as cuidadoras a expressar o receio que sentem ao recorrer aos serviços municipais para esterilizar os animais, lamentando não poderem pagar todos os procedimentos sozinhas. As denunciantes admitem ainda ter reportado estes casos, e contam ter reunido regularmente com Fernanda Pésinho, vereadora responsável pelo CROA, com propostas para melhorar as condições de vida dos animais de rua.

Em novembro de 2025, foi criada uma petição online, dirigida á Presidente da Câmara Municipal de Palmela, que denuncia as “más práticas realizadas pelo CROA Palmela que têm colocado em risco o bem-estar animal”, exigindo “a relocalização das suas instalações em local seguro e digno”.

Câmara Municipal de Palmela contesta acusações

Através de um documento, a autarquia afirmou que a petição recebeu a sua atenção e disse ter respondido a todas as dúvidas e denúncias levantadas, apontando, no entanto, “um conjunto informações e acusações que não correspondem à verdade”.

A entidade sublinhou que “a melhoria das condições de trabalho é um objetivo contínuo”, recordando que “o CROA foi construído de raiz e inaugurado em 2016, com o objetivo de melhorar a resposta municipal na área do bem-estar animal”. O aumento do número de animais abandonados, reconhecido pelo município, “tornou as instalações do CROA insuficientes para dar resposta às necessidades atuais”. Ainda assim, o município refere que as adoções têm vindo a aumentar, bem como as ações de sensibilização em escolas e com a comunidade.

A manifestação das acusações foi considerada “subjetiva” no comunicado, onde são apontados “os diversos elogios recebidos pelo empenho, profissionalismo e dedicação da equipa à causa animal”, e onde é garantido que “a atuação dos trabalhadores é permanentemente monitorizada”.

A entidade assegurou ainda que os dois médicos veterinários “dispõem da qualificação necessária para utilizar o equipamento de anestesia existente no CROA”, e que “não existe conhecimento de qualquer demissão ou pedido de mobilidade relacionado com situações de assédio”.

No que toca à utilização de supercola3 nos cortes cirúrgicos dos animais, o município disse que o produto “não foi utilizado como substituto de suturas”, admitindo, porém, ter sido usado anteriormente “para aproximar os bordos da sutura após sutura intradérmica, prática então considerada adequada, mas já descontinuada“.

Quando às restantes alegações sobre práticas veterinárias inadequadas ou negligentes, foi criado um processo de inquérito. “O município actuará em conformidade caso se confirmem”, é garantido.

De seguida, carregue na galeria para conhecer alguns dos animais para adoção no CROA de Palmela.

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