Depois de anos a integrar as forças de segurança, nem sempre os cães que desempenham funções exigentes têm a reforma que merecem. Numa tentativa de mudar esta realidade, surgiu o projeto Adota Cães Heróis, que depois de estabelecer uma parceria com a PSP, chegou também ao Exército Português.
O passo foi concretizado no final de janeiro, e anunciado pela corporação através das redes sociais. Online, os cães foram celebrados pelo trabalho que desempenham com “dedicação total, lealdade sem reservas e uma entrega que nunca pediu reconhecimento”.
O reconhecimento do valor que os patudos acrescentam às funções dos militares levou o Regimento de Paraquedistas a celebrar um memorando com o Adota Cães Heróis, “formalizando uma iniciativa que valoriza o contributo excecional destes cães de serviço público ao longo de anos de dedicação à comunidade e à Defesa Nacional”. Agora, os cães que se reformarem desta instituição — seja pela idade, por doença ou incapacidade — podem ser adotados através da plataforma.
Uma forma de honrar o valor destes animais
Primeiro chegou Giz, e depois veio Loba. Ao longo dos últimos anos, Ana Carla Almeida, 61 anos, e a filha Maria Silva, de 22, receberam dois patudos reformados da força policial, que as inspiraram a abraçar a missão de encontrar uma casa para os animais que, depois de uma vida de serviço, nem sempre recebem a reforma que merecem. Assim, nasceu o Adota Cães Heróis.
O projeto surgiu com dois propósitos: “dar visibilidade aos cães e ao serviço que cumprem”, contou à PiT Ana Carla, acrescentando que frequentemente “não lhes é dado esse relevo social”; e “tentar encontrar pessoas que lhes deem um fim de vida mais digno”.
A vontade de criar a plataforma surgiu da constatação de que, depois de saírem do ativo, a maior parte dos cães que integram estas entidades não têm uma família com que passar os últimos anos de vida. “As instituições tentam que fiquem com os tratadores, mas na maioria dos casos isto não é possível”, afirma Ana Carla, levantado impedimentos como a presença de outros cães nas casas dos agentes, a falta de condições físicas nas casas ou a “falta de fundos para cuidar deles”.
Assim, o Adota Cães Heróis “visa fazer uma gestão organizada dos cães que existem para adoção e das pessoas que podem ter interesse em adotar”. Isto é feito através da comunicação com as organizações, que fazem chegar às gestoras os animais que podem ser adotados, bem como as características e necessidades de cada animal. Estas tratam depois de os divulgar na plataforma, onde é também disponibilizado um formulário para ser preenchido pelos possíveis adotantes. A informação é então partilhada com as entidades, que gere depois os processos, as visitas e, assim se espera, conclui as adoções.
A história por trás do projeto
O emprego de Ana Carla como procuradora geral adjunta da Procuradoria Regional de Évora levou-a a fazer um julgamento com medidas de segurança especial, que a apresentou à unidade policial de Intervenção Pública e Ordem Tática da PSP, onde os cães desempenham funções indispensáveis.
Um convite para visitar a unidade onde funciona o Grupo Operacional Cinotécnico da força policial, em Belas, Lisboa, cimentou a sensibilização de Ana Carla face aos animais de trabalho, e deixou a vontade de fazer algo para melhorar a vida destes patudos.
Quando Ana Alberto, integrante do corpo de segurança da PSP com quem a procuradora travou amizade, comentou que “havia um cão velhote que já não estava em serviço”, a decisão de o adotar chegou sem esforço, sobretudo para Maria.
Durante a pandemia, ao longo de uma visita de máscara na cara, as almadenses foram apresentadas a Giz, “um cão-polícia multifacetado” que passou por várias áreas de atuação. O patudo tinha então 13 anos, que o tornavam no “cão mais velho da unidade”. Maria tinha 16, e conta ter sentido uma “cumplicidade grande” com o cão, sem encontrar na idade avançada do animal um impedimento à adoção. “O sentimento de fazer a diferença era maior do que o sofrimento que poderia vir a sentir com o seu falecimento”, diz a consultora.
O momento triste chegou inevitavelmente, mas apenas três anos depois — um facto que surpreendeu as tutoras que, ao conhecer Giz, interpretaram o seu estado fragilizado como um sinal de que não viveria este tempo. “Os cuidados que têm numa casa não são os mesmos que têm ali”, diz a família.
Loba, de 12 anos, passou os últimos três com as tutoras, depois de completar missões de busca e salvamento, e de ter deixado de trabalhar quando os treinadores “entenderam que não estava apta”.
Mãe e filha reconhecem que a integração de um cão-polícia na família tem as suas particularidades, sobretudo no que toca à obediência, que é cumprida por estes patudos com uma facilidade pouco habitual. Além disso, nem sempre a adaptação é fácil — Giz, por exemplo, levou algum tempo a habituar-se à vida numa casa. “Ele associava a casa ao trabalho nos primeiros meses. Entrava e andava à procura e não sossegava, e só dormia lá fora. Aos poucos lá se foi ambientando, e depois já não queria era ir para a rua”.
Carregue na galeria para conhecer Giz e Loba, os patudos que inspiraram o projeto Adota Cães Heróis.







