Animais

Animais

Devolvida à natureza águia-de-bonelli que sobreviveu a electrocussão

Águia-de-bonelli encontrada ferida devido a uma eletrocussão voltou, esta semana, a voar em liberdade.

Depois de vários meses de recuperação, uma águia-de-bonelli voltou finalmente a voar em liberdade, na zona da Lezíria Norte, em Vila Franca de Xira. Um regresso que representa muito mais do que a sobrevivência de uma ave: é um sinal de esperança para uma espécie ameaçada e um alerta para os perigos que continuam a existir.

Tudo começou quando a ave, recolhida em Santo Estevão, Benavente, foi encontrada ferida, vítima de eletrocussão — uma das principais causas de morte desta espécie. Desde então, passou por um longo processo de recuperação no Centro de Recuperação de Animais Silvestres de Lisboa, numa operação conjunta que envolveu várias entidades no âmbito do projeto LIFE LxAquila. Esta terça-feira, 24 de março, voltou ao seu habitat natural.

Um perigo invisível, mas real

A história desta águia não é um caso isolado. Pelo contrário — é um reflexo de um problema persistente. “A devolução desta águia à natureza é uma boa notícia, mas muitas outras não têm a mesma sorte. Enquanto existirem apoios elétricos perigosos no território, continuaremos a perder aves ameaçadas para uma causa que é conhecida e evitável”, alerta Rita Ferreira, Técnica Sénior de Conservação na SPEA BirdLife e Coordenadora do projeto LIFE LxAquila.

Na Península Ibérica, mais de metade das mortes conhecidas de águia-de-bonelli estão associadas à eletrocussão. Um número que mostra como uma ameaça evitável continua a ter consequências graves.

Uma vida acompanhada desde o início

Este macho subadulto nasceu em 2023, no Campo de Tiro de Alcochete, e desde cedo foi acompanhado pelo projeto LIFE LxAquila, estando equipado com um transmissor GPS.

Foi precisamente graças a esse dispositivo que a equipa percebeu que algo estava errado: a ave permanecia imóvel há mais de 24 horas.

Quando foi encontrada, apresentava sinais claros de lesão — uma asa descaída, sob uma linha elétrica de média tensão.

Seguiu-se um longo caminho de recuperação. Meses de cuidados, observação e dedicação que culminaram agora neste momento: o regresso à natureza.

Um regresso pensado ao detalhe

A libertação aconteceu numa zona estratégica da bacia do rio Tejo, escolhida pelas condições favoráveis à sobrevivência da espécie — abundância de alimento e espaço para dispersão.

Mas o desafio não termina aqui. “A mortalidade causada pelas inúmeras infraestruturas nas áreas de nidificação e dispersão de águia-de-bonelli continua a ser uma questão preocupante para a sobrevivência da espécie nesta região. Na semana antes do incidente, este macho estava a iniciar um novo casal com uma fêmea que havia perdido o seu companheiro. Nessa mesma área, já tinha ocorrido a morte de um adulto e de um juvenil, o qual, gravemente ferido, acabou por não sobreviver. Por isso, é importante garantir a compatibilização da construção destas infraestruturas nas áreas vitais das grandes rapinas, procurando alternativas viáveis e implementando medidas de minimização eficazes”, sublinha Manuela Nunes, bióloga do ICNF.

Quando a cooperação faz a diferença

Este final feliz só foi possível graças a um esforço conjunto entre várias entidades, mostrando como a colaboração pode mudar destinos. “A recuperação desta águia-de-bonelli simboliza o que podemos alcançar quando existe cooperação institucional e ciência ao serviço do interesse público. A Câmara Municipal de Lisboa continuará a defender medidas eficazes, nomeadamente a correção de infraestruturas perigosas, para assegurar que espécies ameaçadas possam prosperar num território mais seguro” diz Maria Luisa Aldim, Vereadora da Câmara Municipal de Lisboa.

Ainda há muito por fazer

Apesar dos avanços — como a correção de cerca de 100 apoios elétricos no âmbito do projeto — continuam a existir estruturas perigosas por todo o país.

E há um desafio adicional: a falta de legislação específica em Portugal que obrigue à correção sistemática destas infraestruturas. “Em Portugal continua a faltar legislação específica que obrigue a corrigir apoios e linhas comprovadamente perigosas, ao contrário do que já acontece em Espanha. Precisamos de um enquadramento legal que permita agir de forma sistemática para reduzir uma das principais causas de mortalidade de grandes aves de rapina” reforça Rita Ferreira.

Na fotogaleria, acompanhe as imagens do momento em que a águia-de-bonelli foi devolvida à natureza. 

ARTIGOS RECOMENDADOS