Animais

Drama sem fim. Abandono animal aumentou quase 10% em 2023

Adoção ganha terreno: no ano passado mais 24% de cães e gatos conseguiram uma nova família, dizem os dados oficiais.
Quase um milhão de animais abandonados.

O abandono continua a ser um dos maiores flagelos da causa animal em Portugal. E depois de nos últimos anos se ter observado alguma redução, em 2023 os números voltaram a disparar. No ano passado, os Centros de Recolha Oficial (CRO) de todo o país – continente e ilhas – receberam 45.162 animais retirados da rua, contra 41.994 em 2022. Os municípios onde houve mais recolhas foram os de Lisboa e Figueira da Foz.

A PiT analisou os dados do relatório anual de atividades dos centros de recolha oficial (CRO), divulgado pelo Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), e constatou que no ano passado o município de Lisboa liderou em número de animais recolhidos, com 1.451 (contra 1.166 um ano antes). Mas houve mais cinco a superarem a marca dos mil: Figueira da Foz (1.451, um forte aumento de abandono face aos 808 em 2022), Vila Nova de Famalicão (1.180), Évora (1.144),  Cascais (1.101) e Santo Tirso (1.052).

Outras câmaras registaram igualmente números elevados, como foi o caso de Sintra (952), Tomar (705), Viseu (689), Vila Nova de Gaia (660), Braga (621), Oeiras (579), Penafiel (571), Porto (554), Vila Real de Santo António (532), Coimbra (530), Almada (528), Guarda (526), Funchal (517), Palmela (508) e Loures (504). Todas elas recolheram, assim, mais de 500 animais no ano passado. Em trajetória decrescente estiveram municípios como Torres Vedras: depois de ter recolhido 877 animais em 2022, no ano passado esse número desceu para 220.

No entanto, estes números totais estão longe da realidade, já que muitos municípios não deram os seus dados ao ICNF. Além disso, segundo o Censo Nacional dos Animais Errantes realizado pelo Instituto e divulgado recentemente, Portugal tem mais de 930 mil animais nas ruas. Ou seja, o abandono de animais é uma realidade ainda mais dura.

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Há muitos animais errantes.

Depois de uma redução, abandono volta a subir

Os dados disponibilizados pelo ICNF dizem respeito ao número de cães e gatos recolhidos, adotados, esterilizados, eutanasiados, vacinados e identificados eletronicamente em 2023. Apesar da diminuição do abandono verificada entre 2020 e 2022, a tendência de recolha de animais errantes é crescente nos últimos cinco anos, tendo havido um aumento de 41,2 por cento na captura de animais.

No entanto, o ICNF sublinha que essa subida também pode refletir algum impacto das medidas de proteção e bem-estar dos animais. “Embora a tendência possa sugerir que o número de animais abandonados continua a crescer, deve considerar-se que este aumento poderá ser consequência do aumento da capacidade de resposta dos municípios, nomeadamente justificado pelo aumento no número de CRO ou do número de lugares nesses centros, o que naturalmente resulta no aumento da captura de animais errantes”, aponta o relatório.

Quanto ao número de animais adotados, o cenário é bem melhor. Em 2023 houve um aumento de 24% no número de cães e gatos que encontraram uma família. E isto possivelmente devido ao facto de a adoção em detrimento da compra ser um tema cada vez mais discutido pela sociedade civil, podendo ser e também justificada pela “grande sensibilização por parte dos municípios e associações zoófilas com feiras de adoção, divulgação de vídeos, campanhas publicitárias, entre outros”.

Mais de 2.100 animais abatidos

Já o número de animais eutanasiados nas instalações municipais diminuiu em 2023 face ao ano precedente. Foram 2.174 os animais abatidos nos CRO (2.046 dos quais no continente), contra um total de 2.378 em 2022. Não deixa de ser um número elevado, mas é uma inversão de tendência, já que em 2022 se tinha verificado um aumento depois de vários anos com o número de abates a descer.

Com efeito, em 2021 foram 2.188 os animais abatidos nos CRO, contra 2.281 em 2020. Em 2019, esse número tinha sido de 2.647, já a estabelecer uma grande distância face aos 6.350 eutanasiados em 2018. Ou seja, desde 2019 que o número de animais eutanasiados estava a diminuir mas em 2022 voltou a aumentar – e em 2023 regressou à tendência de redução de abates.

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Os dados referem-se a gatos e cães.

Para esta diminuição contribuiu a entrada em vigor, a 23 de setembro de 2018, da lei que proíbe o abate de animais como medida de controlo da população – lei essa que também aprovou medidas para a a criação de uma rede de centros de recolha oficial de animais. Em vigor desde 23 de setembro de 2016, a lei teve um período transitório de dois anos para adaptação. “No ano de 2023 verificou-se uma diminuição de 8,5 por cento de animais eutanasiados nos CRO, sendo uma tendência decrescente de 18 por cento verificada nos últimos cinco anos”, sublinha o ICNF.

Porto lidera eutanásia

E que municípios mais animais “puseram a dormir” no ano passado? Foi no Porto que mais animais foram eutanasiados: 106. Seguiram-se a Guarda (96), Tomar (87), Setúbal (58) e Ponta Delgada, Povoação e Vila Franca do Campo (55) – desde o ano passado que estão agregados como um único município açoriano. Loures (49), Fafe (48), Sátão (39), Funchal (38) e Viseu (35) estão entre outras das câmaras onde mais animais não tiveram um final feliz.

Já Lisboa abateu 29 animais em 2023 e deu para adoção 1.332. Tendo sido o município que acolheu mais cães e gatos, isso significa que, em proporção, está entre os que menos eutanásias praticou. Em 2002, tinha sido o município onde mais animais foram eutanasiados: 85. Em 2021, tinham sido abatidos 87 animais na capital.

Santo Tirso esteve também em destaque pela positiva. Em 2023 recolheu 1.052 animais, conseguiu dar para adoção 831 e abateu três – em 2021 tinha eutanasiado 18, apesar de ser a câmara com mais animais recolhidos nesse ano, e em 2022 tinha abatido 14. Já Torres Vedras tinha sido de longe, em 2021, o município onde mais animais foram eutanasiados: 229. Esse número foi de 46 em 2022, numa clara redução da tendência, e em 2023 voltou a diminuir – desta vez para 31.

De salientar ainda que em muitos municípios portugueses não houve qualquer animal abatido no ano passado. Azambuja, por exemplo recolheu 231 e não praticou eutanásias. Gondomar, que recolheu 292, também poupou todos os animais a seu cargo no CRO. O mesmo aconteceu em Odivelas, apesar de ter recolhido 248 animais. Mas o grande destaque vai para Salvaterra de Magos, que recolheu 487 e não procedeu a eutanásias. Na ilha da Madeira, Santa Cruz também deu o exemplo: não houve qualquer abate, apesar da recolha de 296 animais.

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São milhares à espera de uma casa.

Em que circunstâncias se abate animais?

Os casos previstos para um cão ou gato ser eutanasiado por um médico veterinário num CRO são os seguintes:

— Nos casos em que o animal tenha causado ofensas graves à integridade física de uma pessoa, devidamente comprovada por relatório médico;
—  Quando o animal apresente um comportamento agressivo ou assilvestrado que comprometa a sua socialização com pessoas ou outros animais e torne inviável o seu encaminhamento para cedência e adoção;
— Nos casos em que o animal seja portador de zoonoses ou de doenças infetocontagiosas, representando a sua permanência no CRO uma ameaça à saúde animal, ou constitua um perigo para a saúde pública, no âmbito ou na sequência de um surto de doença infetocontagiosa.

Chip e registo são obrigatórios

Em conclusão, o abandono animal continua a ser dramático: o número de animais recolhidos, adotados e esterilizados aumentou no ano passado, ao passo que o número de animais eutanasiados e vacinados diminuiu, aponta o relatório. O ICNF define como animal recolhido “aquele que, por ser errante ou vadio, abandonado, vítima de maus tratos ou agressor, por recolha compulsiva, é recolhido para um CRO”.

Se o seu animal se perder, é muito importante que esteja microchipado e registado para poder regressar mais depressa a casa. Pode estar acolhido num CRO e não haver forma de contactar a família pelo facto de não possuir identificação eletrónica.  Percorra a galeria para saber mais sobre os procedimentos a ter com o registo do seu animal de companhia, que é obrigatório – e olhe que a coima pela falta de chip pode chegar aos 45 mil euros.

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