Para um animal de companhia, a morte da pessoa com quem partilhava a vida pode significar uma mudança radical de um dia para o outro. As rotinas desaparecem, a voz deixa de se ouvir e aquela pessoa que fazia parte do quotidiano simplesmente não regressa. Em Puerto Real, na província espanhola de Cádis, decidiram criar uma resposta para essa situação. Desde 2025, existe o Protocolo Haru, uma iniciativa que permite que cães e gatos possam entrar, de forma controlada, em tanatórios ou cemitérios para terem um último contacto com o seu tutor falecido.
A iniciativa foi desenvolvida pelo Ayuntamiento de Puerto Real em parceria com a Cemabasa – Cementerio Mancomunado de la Bahía de Cádiz e começou a ser aplicada na prática em 2026. Em maio deste ano, o município confirmou que já tinham acontecido as primeiras despedidas.
Despedida de cerca de dez minutos em cemitérios e tanatórios
O protocolo não significa que os animais possam circular livremente pelas instalações funerárias.
A entrada é feita de forma controlada, com o animal acompanhado por uma pessoa responsável e sob supervisão dos funcionários dos cemitérios. A despedida acontece num espaço privado e durante um período limitado, preservando a intimidade da família e o normal funcionamento do tanatório.
Segundo o responsável da Cemabasa, José Luis Ferrer, nas experiências já realizadas o animal pode permanecer cerca de dez minutos junto do corpo do tutor, tendo oportunidade de o cheirar e investigar.
O olfato assume, neste contexto, uma importância particular. Para os cães, cheirar é uma das principais formas de recolher informação sobre o mundo que os rodeia.
A iniciativa abrange cães e gatos, embora os primeiros casos divulgados publicamente tenham sido sobretudo de cães.
A história de Haru
O nome do protocolo nasceu de uma história pessoal. Haru é um gato resgatado por Virginia Mena, responsável municipal por esta área em Puerto Real. O animal foi encontrado numa colónia e, depois de ser adotado, criou uma rotina muito particular: esperava habitualmente por Mena quando esta regressava a casa.
Foi precisamente essa relação que levou Mena a pensar no que aconteceria ao gato se um dia ela morresse. A preocupação era que Haru, tendo já passado por uma situação de abandono, pudesse interpretar a sua ausência definitiva como mais um abandono.
Dessa reflexão nasceu a ideia de criar um mecanismo que permitisse aos animais ter uma última oportunidade de contacto com a pessoa que morreu.
Que a ausência não seja simplesmente um desaparecimento
A ideia defendida pelos responsáveis do projeto é que uma morte pode ser particularmente difícil para um animal quando, de repente, a pessoa de referência deixa de aparecer.
Em vez de desaparecer simplesmente das suas rotinas, o animal pode ter a possibilidade de contactar com o corpo do tutor e depois regressar a casa com os restantes elementos da família.
Uma despedida que também pode ajudar quem fica
Quando uma pessoa morre, os animais de companhia fazem muitas vezes parte da própria família enlutada. Poder levá-los à despedida permite que participem num momento de luto que, tradicionalmente, lhes estava vedado.
Uma das experiências relatadas pela Cemabasa envolveu uma mulher que levou o seu animal para se despedir do companheiro. Segundo José Luis Ferrer, apesar da dor associada à situação, a possibilidade de partilhar aquele momento com o animal terá proporcionado algum conforto à tutora.
É uma mudança de perspetiva: o animal deixa de ser visto apenas como alguém que deve ficar em casa durante o funeral e passa a ser considerado também como parte da família que está a viver a perda, podendo despedir-se nos cemitérios do seu humano.








