Animais

Esta é a Preta, a gata que vive na rua há 20 anos e supera todas as expetativas

Vizinhos de Alvalade juntam-se para "apaparicar" a gata que vive na rua há duas décadas. Ração, peixe cozido e frango na ementa.
A gata Pretinha é alimentada por moradores do bairro de Alvalade, em Lisboa

Em 2002, o Euro começava a circular fisicamente em 12 Estados da União Europeia. Em Portugal ainda se pensava em escudos. Aqui e no resto do mundo, os atentados ao World Trade Center, nos Estados Unidos, no mês de setembro anterior, continuavam a dominar as conversas. Nesse mesmo ano, aparecia numa rua do bairro de Alvalade, em Lisboa, uma gata. Teve direito, quase de imediato, a uma casota para dormir, uma taça para comer e água fresca para beber. No Dia Mundial dos Animais de Rua, 4 de abril, contamos-lhe a história invulgar da Preta, nome que os moradores da zona lhe deram. Passaram-se 20 anos e ela ainda vive no mesmo sítio.

“É a nossa menina. Fui eu que comecei a dar-lhe ração e a tratar dela. Sim… Já lá vão 20 anos”, conta Beta, como gosta de ser tratada. Empregada num pequeno cabeleireiro local, explica que, desde então, já há uma comunidade de “amigos da Preta” que, quando Beta está ausente, garantem que a gata tem alimento. “Combinamos entre nós quem é que lhe dá a ração e muda a água das taças. Estamos sempre em sintonia. Como uma dessas pessoas costuma dizer, a Pretinha agradece”, diz-nos Ana, uma outra vizinha.

Dessa rotina diária fazem parte não só as rações enlatadas, sejam as duras ou as moles, como “peixe ou frango cozido”. “Todos os dias ela tem direito a este miminho. E se ela adora frango…”, confessa Beta. à PiT 

A gatinha Preta é alimentada por moradores do bairro de Alvalade.

Preta é o exemplo perfeito de que, com amor, tudo é possível. Até porque a esperança média de vida de uma gata doméstica pode chegar, no máximo, os 18 anos e, “sendo ela de rua, a esperança diminui bastante”. “Ela andar por aqui a alegrar a nossa vida há 20 é muito invulgar. Mas também é verdade que a tratamos muito bem”, ri-se Beta.

“Até nas minhas pernas ela de roça”, diz uma das cuidadoras

É esta quem, ao longo dos últimos anos, tem tratado da Pretinha quando é necessário recorrer a ajuda especializada. “Falo com a médica veterinária das gatas que tenho em casa e ela aconselha-me e receita-me o que é necessário. Também sou eu quem costuma comprar desparasitante. Claro que conseguir metê-lo na Preta é sempre uma aventura, mas tudo se consegue”, prossegue.

E porquê? Não que Preta seja medrosa mas, há uns 15 anos, Beta teve de apanhar a gata para a levar a ser esterilizada. “Ela já tinha sido mãe umas quatro vezes. Contactei uma associação da zona de Sintra e vieram cá comigo. Ao final de dois dias consegui levá-la para ser operada, mas desde esse momento que ela não se chega a mim. Acho que tem medo que eu a apanhe outra vez”, lamenta. “O que interessa é que ela ficou bem melhor e eu consegui dar todos os filhotes que ela tinha tido”, acrescenta.

O mimo é visível: Preta gosta de se roçar nas pernas de quem a alimenta diariamente.

Já com Ana e Manuela, outra das cuidadoras da Preta, a conversa é outra. “Até nas minhas pernas ela de roça. Quando uma de nós vem de manhã e ao fim da tarde dar-lhe as refeições e ela não está, costumamos chamá-la e ela aparece logo. Se passarem por esta zona e ouviram gritar ‘Ó pretinha…’, já sabem”, ri-se a segunda.

Pretinha até já tem um amigo, que apareceu por ali há cerca de um ano. Deram-lhe o nome de Charlot. Preto e branco, ainda se mantém à distância, “mas também já sabe as horas do almoço e do jantar e gosta de ficar sentado, à espera”, garante Ana.

O gato Charlot
No último ano, tem tido a companhia de um outro gato, a quem foi dado o nome de Charlot.

As taças com alimento e com água estão sempre cheias. E a casota, apesar de estar sempre ali, limpa e pronta a receber esta gata de rua, costuma estar vazia. “A verdade é que ela chegou a dormir lá dentro, mas uma vez tentaram levar a casota e ela estava lá dentro. Assustou-se e nunca mais lá voltou”, recorda Beta. Passaram-se mais de dez anos desde este episódio. Desde então, a única coisa que ninguém sabe é onde é que ela passa a noite.

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