Animais

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Este professor britânico não gosta de cães e isso está a arruinar a sua vida amorosa

Noah Gabriel Martin escreve que, actualmente "não gostar de animais é visto como um 'sinal de alerta'.

Num mundo onde os cães são cada vez mais membros da família, há uma realidade pouco falada: a de quem simplesmente não gosta deles. um deles.

Num artigo de opinião publicado no The Telegraph e intitulado “O meu ódio por cães está a arruinar a minha vida amorosa”, este professor escreve que a sua aversão a cães é o maior fator de rejeição nas apps de encontros”. 

Mais do que isso — não os suporto. No cenário atual dos encontros, não poderia haver maior fator de rejeição do que não gostar de cães e, admito, isso está a complicar a minha procura pelo amor”, admite

Durante muito tempo, isso não lhe pareceu relevante. Mas no atual cenário de encontros, rapidamente se tornou evidente que esta característica tinha mais peso do que imaginava.

Para muitas pessoas, o cão não é apenas um animal de estimação — é família, prioridade, extensão da própria identidade. E é precisamente aí que surge o desencontro.

“Potenciais pares românticos especificam frequentemente nos seus perfis que procuram ‘apenas dog lovers’ — uma chegou recentemente a dizer que o seu Springer Spaniel é a coisa mais importante do mundo para ela. ‘A sério?’, apeteceu-me perguntar. ‘Não há mesmo nada com que te importes tanto?'”, escreve o professor britânico.

aprendeu, com o tempo, a adiar a revelação. Não por falta de honestidade, mas pela reação que sabe que irá encontrar: surpresa, desconforto, por vezes até julgamento. Como se não gostar de cães fosse mais do que uma preferência — quase um traço de carácter.

“Sei que eventualmente tenho de admitir a minha aversão a cães, mas adio o máximo possível, temendo aquele olhar que conheço bem — uma mistura de pena com horror, um olhar que pergunta: ‘O que é que se passa contigo?'”

“Gostava de ter uma resposta. Gostava que houvesse uma história traumática para explicar esta aversão, mas nada disso. Nunca fui mordido, nunca fui atacado. Simplesmente nunca gostei deles.”

“é difícil chegar ao terceiro encontro sem que o assunto surja. Não só porque a pessoa menciona o seu cão, o cão de um amigo, o cão do ex ou o cão dos sonhos, mas porque não há locais seguros para encontros”.

“Não gostar de animais é visto como um ‘sinal de alerta'”

Mas o desafio de Noah não se limita às relações. Está também no quotidiano. Numa cidade como Londres onde os cães entram em cafés, restaurantes, parques e até ginásios, evitá-los é praticamente impossível.

Momentos simples — um encontro num café, um passeio ao ar livre, um piquenique num parque — tornam-se, por vezes, experiências marcadas por interrupções inesperadas: um cão sem trela que se aproxima, um espaço invadido, uma situação que, para muitos, é banal, mas que para este professor gera desconforto.

Mais do que os animais em si, é a falta de atenção de alguns tutores que intensifica essa sensação. A naturalidade com que certos comportamentos são ignorados cria um desequilíbrio num espaço que é, à partida, partilhado.

“Há poucos dias, levei um encontro ao Victoria Park, no leste de Londres”, conta Noah. “Era o primeiro dia quente do ano, por isso planeei um piquenique. Mal abrimos os corações de alcachofra do M&S, apareceu do nada um cãozinho irritante, aproximou-se e começou a cheirar a comida. Olhei à volta, ansioso, à procura do dono, esperando que fizesse alguma coisa.”

“Eventualmente, apareceu, calmíssimo, e ficou a conversar connosco enquanto eu segurava o chouriço e o húmus no ar. Parecia completamente indiferente ao facto de o cão andar a remexer e a sujar o meu cobertor com as patas lamacentas — mas, para ser justo, o meu par também não parecia muito incomodado. Apeteceu-me gritar, mas calei-me e esperei que aquele episódio horrível terminasse.”

Noah refere no seu artigo de opinião que, actualmente, “não gostar de animais é visto como um ‘sinal de alerta’, como se indicasse falta de empatia ou alguma psicopatia escondida, mas eu não sou um monstro. Gosto de pessoas — até gosto de bebés”.

“Seja como for, a paixão de Londres pelos seus cães não vai desaparecer, por isso, se quero encontrar paz — e talvez até amor — nesta cultura de cães soltos, vou ter de aprender a ser mais tolerante.”

O professor de filosofia revela que, ultimamente, tem tentado ajustar a sua reação. “Fazer festas aos cães que se aproximam de mim, em vez de me afastar.” E, ocasionalmente, surgem momentos inesperados. Um cão mais tranquilo. Um contacto menos invasivo. Um instante que não muda tudo, mas que suaviza a resistência.

“No outro dia, eu e a minha irmã passámos por uma quinta que vendia cachorros Labrador cor de chocolate. Para meu horror, ela parou para irmos brincar com eles. Fiz um discurso motivacional a mim próprio e peguei num para o abraçar. Tive de admitir que era bastante adorável. Com alívio, deixei-me acreditar que estava a melhorar. Talvez o meu coração pudesse abrir-se. Talvez conseguisse aprender a — se não amar — pelo menos viver em paz com os cães.”

“No dia seguinte, pisei um monte de fezes abandonadas. Receio que tenha voltado à estaca zero.”

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