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Fofinha: “Naquela noite morremos os dois, renascemos os dois”

Amar é deixar partir. Salva do inferno, a cadela-rebelde perdeu tudo. Mas sobreviveu para encontrar o amor e aproveitar o céu.
Querida Fofinha,

Faz hoje seis anos que morreste e eu morri também. Morremos os dois. Passados seis anos continuamos vivos. Há muito tempo que não falava contigo. Falo de ti a toda a gente e não falamos. Dizem que o tempo cura mas as saudades continuam aqui. Temos todos muitas saudades tuas e, apesar de dizerem que o tempo ajuda a esquecer ou a amenizar, consigo dizer-te palavra por palavra tudo o que falámos naquela noite.

Queria tatuar na minha mente tudo, para poder replicar, porque em cada palavra estava um pouco de ti. Tinha essa responsabilidade, fiz-te essa promessa. Abriste-me o teu coração, entre goladas de ar que tentavas inspirar, e nesse momento mudaste a minha vida. Confesso-te que eu era uma pessoa diferente que não fazia a mínima ideia que era possível suportar tanta dor e vencer. Aninhaste-te nos meus braços e contaste-me a tua história.

Naquelas duas horas viajámos os dois. Levaste-me ao céu e ao inferno com as palavras que ouvi, os meus pedidos de desculpa misturavam-se com as lágrimas que vertia sem poder controlar por cada pedaço de vida que me era desvendado. Tinha nos meus braços, a lutar pela vida, um livro cheio de sabedoria, dor e amor. Saímos daquela sala, mesmo sem dela sair, e levaste-me ao sítio onde foste encontrada. Mostraste-me onde renasceste.

Foram anos a dormir no alcatrão que o sol queima sem piedade, e a ser atacada pelos cães, com o dobro do teu tamanho, e que contigo partilhavam a vida de rua. Quantas ninhadas tiveste e que foram mortas de imediato? Quantas lágrimas de mãe choraste tu enquanto lutavas para sobreviver? Viver naquele sitio sem condições, sem amor, sem esperança. Não estava preparado para tanto.

Sei que foste difícil de capturar. O João contou-me como foi difícil. Como lutaste para não ser capturada. O medo ensopava-te os ossos. Não te censuro, apenas te compreendo. Disseram-me que eras uma rebelde. Gostavas de quebrar regras. Eras um espírito livre. Corrias com o vento de mão dada contigo e nem a doença te parou.

As quimioterapias, a leishmaniose, os internamentos, nada disso se comparava ao teu espírito. Sorria sempre que me contavam essas tuas peripécias.  As quimioterapias de açaime para não roeres os cabos e as fugas constantes para procurar comida. A menina rebelde que vivia em ti, mas que dormia abraçada à noite, que distribuía beijinhos quando a lua avisava que era hora de ir dormir.

A menina rebelde a quem foram dados seis meses de vida e que decidiu que as coisas seriam à sua maneira: não irias ao tapete sem lutar. Sei que te partiram o coração quando te visitaram para te conhecer e desistiram por inspirares cuidados. Sei que os teus olhos brilhavam quando vias uma família a chegar mas que se afastavam por inspirares cuidados, mas o destino que te parecia castigar apenas te guardava para a melhor família que poderias ter tido. E ganhaste uma — a melhor que podias ter.

Não foi só a tua vida que mudou

A Mary confidenciou-me que não foi só a tua vida que mudou. A dela nunca mais foi igual. As aventuras que viveram juntas continuam vivas na memória, impermeáveis ao tempo. O tempo pode ser um padrasto impiedoso e decidiu roubar-te uma das tuas janelas, um dos teus olhos. Olhaste para mim a pedir-me para não chorar nem ter pena porque passarias todas as cores para o outro e continuaste a fazer aquilo que melhor fazias: viver.

Fechei os olhos contigo e mostraste-me todos as praias que visitaste, os trilhos que desbravaste com as tuas pequeninas patas e as montanhas que viram em ti uma adversária e que mostraste o contrário. Os meses tornaram-se anos mas as feridas voltaram. Os internamentos tornaram-se parentes próximos, mas tu continuavas uma rebelde.

Mesmo quando perdeste o outro olho, decidiste que irias continuar a apreciar o azul do céu, o branco das nuvens, sentirias o vento a percorrer-te o corpo como se tivesses apenas os olhos fechados, continuarias a apreciar o verde da erva pelas patas, o azul da água pelo seu sabor e o doce do beijo pelo teu abraço.

Os meses tornaram-se anos, as dúvidas tornaram-se certezas, o corpo começou a ceder e venceste todas as batalhas que a vida te colocou na frente. O caminho começava a ser mais duro. Abri os olhos. Voltámos à sala. A tua respiração acalmou e aninhaste-te no meu colo. Havia silêncio. Dei-te um beijo na testa e coloquei-te no colo da tua melhor amiga.

Não falámos, sabes? Apenas nos olhámos e disse-te até já. Saberia que te voltaria a ver mesmo sabendo que não. O corredor do hall frio abraçou-me o corpo, querendo que tremesse mas estava vidrado em ti. Entraste no elevador e as portas foram fechando. Vi-te a desaparecer no meio de duas portas metálicas com o meu cérebro a dizer-me “Nunca mais a verás” e o meu coração a puxar-me pelo ombro a dizer “Vais continuar a vê-la”.

Recebi uma mensagem passado uma hora a dizer que tinhas descansado, partiste em casa, rodeada de amigos e família. Chorei a noite toda, chorei a semana toda e choro enquanto te escrevo estas palavras. Tenho saudades tuas, todos temos. Naquela noite morremos os dois. Morreste tu e morri eu. Renascemos os dois. Tu continuas viva porque continuo a falar em ti a toda gente.

Partilho a tua história e fotografias por onde vou. Encho o peito de orgulho a falar de ti. Morri eu porque vivia num mundo de ilusão e acordei naquela noite. Despertei de um sono profundo e abracei a realidade que vocês passam. Os horrores que vocês vivem. A força com que vocês os ultrapassam e o tanto que deveríamos aprender com vocês. Despeço-me de ti com um até já porque continuas viva, mas quero apenas dizer-te que a maior lição que me ensinaste foi-me dita depois de partires e de me questionar mil vezes o porquê de teres de partir. Não entendia porque tinhas de partir.

A resposta foi curta e a maior lição que aprendi nesta nova vida que ganhei no dia que te conheci: “Sabemos que iremos sofrer… mas amar é deixar partir”.

Carregue na galeria para recordar a vida de Fofinha.

 

AMIGOS PARA SEMPRE by Carlos Filipe é uma rubrica quinzenal da PiT, em que o fotógrafo Carlos Filipe, amante da causa animal, partilha com os nossos leitores o que viveu com os cães que fotografou. “Cães imperfeitos”, esquecidos pelo tempo e desprezados por quem quer adotar, por serem velhos ou doentes e exigirem cuidados.

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