Animais

Foi assim a maior manifestação de sempre pelos animais: “Amem-me, porra”

O IRA diz que cerca de 70 mil pessoas protestaram este sábado na capital. A PiT acompanhou o rio feito de humanos e animais.
Tomás Pires discursa.

Há vários dias que muitos portugueses antecipavam este dia, mas ninguém esperava que fosse tão impactante. Um mar de gente invadiu o Marquês de Pombal em Lisboa, a partir das 15 horas deste sábado, 21 de janeiro. A multidão ocupou toda a rotunda no centro da cidade e prolongou-se até aos jardins do Parque Eduardo VII. Tudo em nome da defesa dos direitos dos animais.

O protesto nacional, organizado pelo grupo Intervenção e Resgate Animal (IRA), levou milhares até à capital, com autocarros saídos do Porto, Leiria, Coimbra, Alcácer do Sal, Aljustrel, Évora, Beja, Faro e muitos mais locais do País. Em causa está a possibilidade de a lei que criminaliza os maus-tratos aos animais, em vigor desde 2014, poder vir a ser abolida. Esse receio tornou-se mais real quando, na quarta-feira, o Ministério Público pediu ao Tribunal Constitucional para declarar a inconstitucionalidade da lei. Perante este risco de retrocesso na defesa dos animais, a petição pública entretanto criada – para que a lei existente seja discutida no Parlamento – ganhou força e conta já com perto de 78 mil assinaturas, quando bastavam 7.500 para ser apreciada em plenário da Assembleia da República.

E o que também ganhou força crescente foi esta manifestação organizada pelo IRA, que fez questão de sublinhar por duas vezes que o protesto não tinha cor política, nem nome de organizações, ou de particulares. Na página do evento havia quatro mil confirmações de presença e perto de 11 mil pessoas mostraram-se “interessadas em ir” nas últimas semanas.

“Vieram 70 mil pessoas”, disse à PiT o presidente do IRA, Tomás Pires. “Estou felicíssimo”. Porém, a PSP, mais cautelosa, apressou-se a atenuar o entusiasmo do dirigente e garantiu que havia pouco mais de 10 mil manifestantes.

Números à parte, certo é que entre as 15 e as 16 horas, milhares de ativistas começaram a encher a Praça Marquês de Pombal, enquanto ouviam o discurso de Tomás Pires, no alto do autocarro da organização, de onde por vezes saía fumo negro – o que aumentava o volume dos aplausos por parte de quem se sente de luto pelos animais.

“Salvar Portugal está, também, nas mãos dos portugueses”, gritou, num desafio aceite por todos os que ali marcavam presença. Nessa altura, as viaturas do IRA e o cortejo motard – camião, carros de apoio, ambulâncias dos Bombeiros Voluntários de Camarate e motas – deram uma volta completa de protesto à praça para entusiasmar ainda mais a plateia.

Devidamente empolgada, a marcha seguiu depois pela Rua Braancamp, sempre ao som de apitos, buzinas, megafones e tambores, por entre muitas palavras de ordem. “Inconstitucional é maltratar um animal” ou “Mais amor, por favor” foram o lema por entre vozes que se expressaram até à rouquidão.

O protesto continuou pela Rua Alexandre Herculano, Rua da Escola Politécnica e Rua do Século – onde foi feita uma paragem, em frente ao Tribunal Constitucional, para que todos gritassem em uníssono a mesma palavra vezes sem conta: “Justiça”.

À medida que os manifestantes passavam, as portas dos cafés e as janelas de muitas casas enchiam-se de pessoas curiosas, que queriam perceber o que se estava a passar. Outras já tinham antecipado esta corrente humana. Numa janela da Rua do Século, por exemplo, uma mulher sorridente empunhava um papel onde se podia ler “Justiça”. Houve mesmo quem levasse os seus cães para a janela, enquanto acenavam para os desconhecidos que se tinham tornado amigos instantâneos.

“Amem-me, porra!”

Apesar de o IRA ter pedido para os manifestantes não levarem animais, devido ao barulho e à possibilidade de serem pisados, a PiT passou por alguns cães, que seguiam mais à frente com os donos para não estarem no meio da maior confusão. Na dianteira seguia um casal que não quis deixar de levar o seu Leãozinho, um pequeno Shih Tzu que mais parecia um peluche. O cão viajou, aparentemente confortável, numa mochila de transporte às costas do seu tutor. Na mochila, um cartaz apelava: “Amem-me, porra!”.

manifestação
O pequeno Leãozinho

Os manifestantes prosseguiram pela Calçada do Combro, Largo Camões, Rua Garrett e Rua do Carmo, até chegarem ao Rossio. A praça ficou cheia rapidamente. Os primeiros protestantes chegaram pelas 18h15, mas quinze minutos mais tarde o presidente do IRA declarou com orgulho que os últimos manifestantes estavam ainda a passar junto do Tribunal Constitucional, como sendo a prova inequívoca de que o evento era um sucesso.

Apesar do rio de pessoas e animais, muitos dos autocarros que chegaram de várias cidades tinham de partir em breve. Por isso, Tomás Pires começou o discurso de agradecimento perto das 19 horas, no Rossio. Numa voz animada, o presidente do IRA agradeceu a todos pela presença “na maior manifestação de sempre de defesa animal em Portugal”, destacando que havia manifestantes vindos de Frankfurt, Londres e Amesterdão. “Só me apetece chorar”, disse, perante o mar de gente que enchia a Praça Dom Pedro IV.

Pouco depois, no cimo do autocarro do IRA, estacionado em frente ao teatro D. Maria II, Tomás Pires voltou à carga, menos emocionado. “Façam barulho, mostrem os cartazes”. E muito barulho se fez, e muitos cartazes se levantaram, por entre aplausos, apitos e buzinas.

A luta pode continuar já em agosto

“Os animais não têm voz, mas têm-nos a nós”, repetiu Tomás Pires no discurso final. “Se a nossa voz de hoje não mudar o dia de amanhã, a seguir vamos para o aeroporto, vamos visitar o Papa também, e pode ser que estejamos presentes noutros eventos da Comissão Europeia”.

E prosseguiu. “Esta manifestação é de todas as pessoas que estão aqui hoje e daquelas que não puderam vir. Se isto não for suficiente para abanar o que houver para abanar…”. A frase deveria continuar, mas o presidente do IRA preferiu levantar os braços, apelando aos manifestantes para que a terminassem: “A luta continua”.

Se esta manifestação não tiver o efeito pretendido, o IRA promete mesmo continuar, tendo aludido à possibilidade de realizar outro grande protesto na primeira semana de agosto, altura em que o Papa Francisco estará em Portugal, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude.

Tomás Pires fez um agradecimento especial a três manifestantes que marcaram presença em cadeira de rodas, que receberam uma grande ovação por entre muitos saltos de uma multidão entusiasmada com o discurso. Nessa imensidão de gente estava Rute Rodrigues, uma ativista da causa animal de 57 anos, que tem seis gatos e uma cadela, todos eles resgatados da rua.

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O brilho final no Rossio.

“Vim de Torres Vedras. Estou aqui porque tenho de lutar pela causa animal, pois acho que é vergonhoso este retrocesso”, explicou à PiT. “Se a lei é inconstitucional, então altere-se a Constituição”, afirmou, deixando ainda uma pergunta: “Haverá possibilidade de se apresentar uma queixa no Tribunal Europeu?”.

A PiT ouviu ainda Rita Teles Soares, de 52 anos, que vive em Lisboa. “Estou aqui porque já testemunhei na primeira pessoa o sofrimento, violência psicológica e física, bem como as marcas que os maus-tratos deixam nos animais”. Rita é, há perto de dois anos, família de acolhimento temporário (FAT) de animais resgatados pelo IRA e só tem bem a dizer desta organização de defesa animal.

“No IRA têm sido fantásticos em termos de apoio, fornecendo sempre os alimentos e cuidados médicos dos animais, tirando dúvidas que tenhamos e dando sugestões para que tudo corra pelo melhor”, sublinha, acrescentando que a organização auxilia também famílias com carências económicas que não têm como alimentar os seus animais, ajudando igualmente as vítimas de violência doméstica que têm animais e não os querem deixar para trás na fuga para uma vida melhor e mais digna.

Antes do caos calmo que invadiu a cidade, Marcelo Rebelo de Sousa, que fora criticado pelo IRA por estar calado em relação a este assunto, pronunciou-se mesmo este sábado de manhã. O Presidente da República sublinhou a importância do bem-estar animal e que esta causa era “indiscutível”.

Tomás Pires aproveitou a boleia para reforçar a nobreza desta causa. “Creio que isto seja um bom indício e que esta manifestação seja propícia a que sejamos ouvidos por quem de direito”. As ruas de Lisboa concordaram.

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