Quinze anos depois de um dos maiores desastres da história recente, há histórias que continuam a acontecer longe dos holofotes.
A 11 de março de 2011, o Japão foi abalado por um terramoto de magnitude 9, seguido de um tsunami devastador que desencadeou o acidente nuclear na central de Fukushima Daiichi. Em poucas horas, cerca de 160 mil pessoas foram evacuadas e grande parte da região ficou deserta.
Mas, no meio do caos, milhares de animais ficaram para trás. Cães presos a correntes, gatos fechados em casas abandonadas, explorações inteiras deixadas ao abandono. Muitos tutores foram obrigados a fugir sem possibilidade de regressar — e os seus animais ficaram numa situação limite, à espera de um regresso que nunca aconteceu.
Os cuidadores invisíveis de Fukushima
Apesar do abandono massivo, houve quem não virasse costas.
É o caso de Toru Akama, antigo trabalhador da central nuclear, que regressa periodicamente à zona evacuada para alimentar animais sobreviventes. A sua ação, longe da mediatização de outros casos, tornou-se essencial para manter vivas colónias inteiras de cães e gatos.
Estes cuidadores improvisam verdadeiras rotas de alimentação em cidades fantasmas, onde a presença humana continua reduzida ao mínimo. São iniciativas individuais que, na prática, substituem um sistema de proteção que nunca chegou a existir.
“O homem que não abandonou os gatos”
Entre todas as histórias, uma tornou-se símbolo: a de Sakae Kato. Antigo empresário, decidiu permanecer na zona interditada para cuidar dos gatos abandonados. Chegou a ter mais de 40 gatos sob a sua responsabilidade e, ao longo dos anos, enterrou muitos que não resistiram.
A sua rotina é extrema: vive sem água corrente e depende de donativos. Chegou a gastar cerca de 7.000 dólares mensais em alimentação e cuidados.
Além dos gatos, também alimenta animais selvagens — como javalis — num ecossistema profundamente alterado pela ausência humana.
O “último homem de Fukushima”
Outro nome incontornável é Naoto Matsumura, conhecido como “o último homem de Fukushima”. Depois da evacuação, regressou à sua terra para cuidar dos animais abandonados: vacas, cães, gatos — e até avestruzes. Durante anos, foi o único residente humano em zonas altamente contaminadas.
A sua decisão tornou-se um símbolo global de resistência e de compromisso com os animais.
Um problema que não terminou
Quinze anos depois, a crise animal em Fukushima está longe de estar resolvida. Algumas áreas foram reabertas, mas a população humana regressou apenas parcialmente. Muitos animais continuam a depender de voluntários para sobreviver — e novas gerações nasceram já nesse contexto de abandono.
Ao mesmo tempo, o ecossistema mudou profundamente. A ausência de humanos levou ao aumento da fauna selvagem e à transformação do equilíbrio natural da região.
O que dizem os especialistas
Organizações como a American Veterinary Medical Association alertam que a ausência de planos de evacuação que incluam animais é um dos principais problemas em situações de desastre.
Já os Centers for Disease Control and Prevention reforçam que as famílias devem incluir os animais nos seus planos de emergência — com transporte, abrigo e provisões garantidas.
A realidade é clara: muitos tutores não evacuam sem os seus animais — ou acabam forçados a abandoná-los.
Uma lição que continua atual
Fukushima não é apenas uma tragédia ambiental ou humana. É também um alerta sobre o lugar dos animais em situações extremas.
As histórias de Akama, Kato e Matsumura mostram que o abandono não termina quando as notícias desaparecem — e que, muitas vezes, o destino dos animais depende exclusivamente da coragem individual.
Mais do que comover, Fukushima obriga a repensar: numa emergência, os animais fazem — ou não — parte do plano?








