Animais

Há 65 anos, Laika foi enviada ao espaço. Fez história, mas nunca mais regressou

Entrou em órbita em 1957, com uma refeição e sete dias de oxigénio. A história não é feliz, mas a cadela deve ser lembrada.
Laika tinha três anos.

Laika entrou para a história. Resgatada das ruas de Moscovo, na Rússia, a mix de Husky com Spitz de três anos tornou-se a primeira criatura viva a orbitar a Terra, a 3 de novembro de 1957. Neste dia, a cadela partiu numa missão suicida com apenas uma refeição e um suprimento de oxigénio de sete dias. Foi enviada 3.200 quilómetros acima das ruas da capital russa que conhecia.

A sua nave, Sputnik 2, havia sido construída às pressas, sob pedido do primeiro-ministro Nikita Khrushchev, que havia solicitado um voo para coincidir com a data 7 de novembro, o 40º aniversário da Revolução Bolchevique da Rússia. Na manhã do dia 3, pouco depois das cinco da manhã, deu-se início a viagem (que foi tudo menos calma). Os altos ruídos e as pressões do voo, aterrorizaram Laika, o seu batimento cardíaco triplicou e a sua respiração quadruplicou.

Apesar dos números elevados, manteve-se viva. O esperado era que a cadela morresse após uma semana por falta de oxigénio (uma morte indolor, em 15 segundos). Contudo, morreu logo após o lançamento. A patuda chegou a atingir o espaço e a circular a Terra num período de 103 minutos. Porém, a perda do escudo térmico da nave fez a temperatura na cápsula subir inesperadamente e Laika foi vítima do superaquecimento.

“A temperatura dentro da Sputnik 2 após a quarta órbita registou mais de 90 graus”, disse à revista Smithsonian Cathleen Lewis, curadora do Museu Nacional do Ar e do Espaço, onde alguns pertences da cadela estão expostos. “Não há realmente nenhuma expectativa de que ela tenha ultrapassado uma ou duas órbitas depois disso”.

No entanto, apesar de Laika ter morrido poucas horas depois do lançamento, os documentos que constavam o seu óbito na altura foram falsificados. Durante e após o voo, a União Soviética manteve a mentira que a cadela estava viva. Embora os direitos dos animais fosse um tema pouco debatido na época, houve associações no Reino Unido que opuseram-se a missão, e o jornal New York Times escreveu vários artigos sobre um suposto resgate.

A Sputnik 2 continuou em órbita durante cinco meses e em abril de 1956, colidiu com a atmosfera da Terra. Apesar da viagem ter chegado ao fim, foi só em 2002 que a verdadeira causa de morte de Laika veio a tona. O cientista russo Dimitri Malashenkov revelou que os relatos anteriores de sua morte eram falsos, e provou que a cadela havia morrido entre cinco a sete horas depois do lançamento.

Teve uma alegria antes de morrer

Laika não era a única cadela da estação espacial. Na altura eram muitos os experimentos feitos com cães vadios, nomeadamente as fêmeas por serem mais dóceis e pequenas. Para a missão da Sputnik 2, foram escolhidos as cadelas Kudryavka, como cosmonauta canino, e Albina, sua reserva. A dupla foi apresentada na rádio e quando Kudryavka ladrou, passou a ser conhecida como Laika (“ladradora”, em russo).

Apesar de Albina ter tido melhores resultados nos testes, acredita-se que a equipa acabou por afeiçoar-se pela cadela, que recentemente havia dado à luz a vários filhotes. Como resultado, Laika foi a escolhida para a missão. Contudo, ambas foram submetidas a cirurgias, sendo implantados dispositivos médicos em seus corpos para monitorar os impulsos cardíacos, taxas de respiração, tensão arterial e movimento físico.

Embora Laika tenha sido a escolhida para a morte, nem todos os seus tratadores foram insensíveis face ao seu destino. Vladimir Yazdovsky, um cirurgião, resolveu levá-la para casa poucas horas antes do voo. “Queria fazer algo fixe para ela”, recordou numa entrevista dada na altura.

Depois de Laika, outros cães realizarem viagens semelhantes. De acordo com o “Animals In Space”, entre 1951 e 1966, cerca de 71 cães foram enviados para o espaço pela União Soviética, 17 deles não resistiram. Em 1960, os cães Strelka e Belka foram protagonistas de um voo em conjunto e ambos regressam com vida. Mais tarde, Strelka deu à luz a filhotes, e um deles foi dado como prenda ao ex-presidente norte-americano John F. Kennedy.

Hoje, Laika é lembrada por todos e é protagonista de canções, poemas, nomes de bandas, filmes, histórias infantis, entre outros. Em 2015, a Rússia revelou uma nova estátua memorial da cadela no topo de um foguete num centro de pesquisa militar em Moscovo. Durante a missão “Mars Exploration Rover Opportunity”, em março de 2005, a NASA nomeou, não oficialmente, um local dentro de uma cratera marciana de “Laika”.

Percorra a galeria para relembrar a primeira cadela a ir para o espaço.

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