A delegada Lisandrea Salvariejo assite todas as noites a jogos, chats e redes sociais onde crianças e adolescentes participam de desafios violentos e onde a tortura e o assassinato de animais acontecem diariamente transmitidos ao vivo.
Entrevistada pela BBC Brasil sobre o caso do cão Orelha, a delegada revela que este não é um episódio isolado. Há noites em que Lisandrea chega a assistir a 20 animais, principalmente cães e gatos, torturados e mortos. Esta realidade é confirmada pela juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro. A tortura de animais, afirma a responsável, não é um episódio isolado. É prática recorrente nas comunidades online. “As pessoas estão divorciadas da realidade. Elas não têm ideia de que o que aconteceu com o cão Orelha acontece todas as noites em muitas casas do Brasil”.
Desde 16 de janeiro, dia em que Orelha foi espancado por um grupo de adolescentes, já foram conhecidos outros casos de cães mal tratados, torturados e assassinados. A 27 de janeiro, o cão comunitário Abacate foi morte a tiro em Toledo, no estado do Paraná, Brasil.
Mais, recentemente, a 12 de fevereiro, três adolescentes foram detidos por terem agredido um cão em Itajaí, no estado de Santa Catarina. “Segundo relatos de testemunhas, quatro adolescentes arremessaram o animal ao rio e, posteriormente, levaram-no para o alto de um prédio abandonado e atiraram-no”, noticiou a imprensa brasileira. O cão acabou por morrer devido às lesões.
Outro caso ocorreu na região de São Paulo, quando uma mulher foi filmada a arrastar um cão enquanto conduzia uma mota. O animal ficou com lesões nas patas e a mulher de 18 anos foi indiciada por maus tratos.
A tortura e os maus tratos a animais são muito frequentes, alerta a juíza Vanessa Cavalieri. “As pessoas não têm ideia do que está a acontecer”, lamenta a magistrada. Para a delegada Lisandrea Salvariejo, o que motiva estas pessoas “é a violência pela violência“. Estes casos só valem “se o animal sofrer muito para morrer”, acrescenta.
Nada disto é novo para Vanessa Cavalieri e Lisandrea Salvariejo, que já alertaram muitas vezes para a radicalização online e para o facto de a tortura e os maus tratos a animais em ambiente digital serem muito frequentes. “Esta escalada de violência não surgiu do dia para a noite.”
“Como uma criança que é inocente, que nunca fez maldade, em quatro anos se torna um adolescente que faz isso? Isso não surge do nada. As crianças e adolescentes estão a ser expostos a conteúdos de extrema violência, e isso causa um fenômeno psíquico-neurológico chamado dessensibilização da violência. Pessoas que começam a olhar para a violência com muita frequência — sejam cenas, imagens, fotos, vídeos —, depois de um tempo de exposição rotineira, perdem a sensibilidade. Começam a não achar aquilo tão asqueroso, tão revoltante. Já não causa a mesma repulsa”, explica a juíza brasileira à BBC Brasil.
De acordo com Vanessa Cavalieri há dois tipos de pessoas envolvidas nestes casos de maus tratos a animais: as que têm um transtorno psiquiátrico ou de personalidade, e as que querem pertencer ao grupo. “Fazem isso por influência do grupo. São pessoas que, sozinhas, escondidas, talvez não o fizessem mas que têm a necessidade de pertença e de aceitação. Nestas comunidades, eles encontram a possibilidade de torturar um gato, um cão ou um pássaro para ganhar notoriedade, visibilidade e status dentro do grupo.”
Cavalieri acredita que as pessoas que maltrataram o cão Orelha se inserem neste segundo grupo. “Não ficaria surpreendida se estes adolescentes estivessem a fazer isto “para transmitir ao vivo, colocar nas redes sociais ou cumprir um desafio”.
“Eu não duvido que isso tenha acontecido. Sei, pelo que acompanhei nas notícias que a polícia apreendeu equipamentos electrónicos por ordem judicial. Eu teria zero surpresa se, depois da perícia, se concluísse que isso não foi apenas a ação de cinco meninos isolados, mas parte de uma comunidade maior, com liderança, incentivo e busca por status”, afirma.
Redes internacionais de tortura
Em agosto de 2025, uma investigação realizada pela BBC revelou a existência de uma rede internacional que partilhava — e alegadamente vendia — vídeos de tortura de gatos e gatinhos através de aplicações de mensagens encriptadas.
De acordo com denúncias de ativistas e com a própria investigação jornalística do canal britânico, acredita-se que a rede tenha milhares de membros, responsáveis por publicar, trocar e comercializar imagens explícitas de animais a serem feridos e mortos.
A investigação teve início após dois adolescentes — uma jovem de 16 anos e um rapaz de 17 — terem admitido ter torturado e matado dois gatinhos num parque na cidade de Ruislip, a oeste de Londres, em maio de 2025.
A jovem foi condenada a nove meses de prisão e o rapaz a 12 meses, mas as autoridades admitiram, na altura, que este caso poderia ter ligações a uma rede mais ampla organizada online. Grande parte do conteúdo analisado pela BBC foi descrito, na altura, como demasiado perturbador para ser divulgado publicamente.
Segundo a reportagem, estes grupos terão começado na China, mas atualmente contam com membros ativos em vários países, incluindo o Reino Unido.
A dimensão do fenómeno foi também documentada pelo grupo de defesa animal Feline Guardians, que afirma que, entre maio de 2023 e maio de 2024, era publicado em média um novo vídeo a cada 14 horas mostrando a tortura e morte de um gato ou gatinho.
Investigação continua
No Brasil, a morte do Orelha continua a ser investigada. No dia 9 de fevereiro, o Ministério Público de Santa Catarina solicitou a exumação do corpo do cão Orelha (que ocorreu no dia 12 de fevereiro) para que sejam realizadas novas perícias. O MP vai ainda realizar novas diligências no inquérito principal deste caso e analisar a conduta do director geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, durante o inquérito.
O Ministério Público terá recebido diversas queixas sobre a comportamento de Ulisses Gabriel durante as investigações, e quer agora saber se houve abuso de autoridade e violação de sigilo funcional por parte do director geral da polícia.
A Polícia Civil recebeu um prazo de 20 dias para complementar as investigações sobre “uma discussão ocorrida na portaria de um condomínio na Praia Brava, em Florianópolis. O episódio envolve três adultos indiciados por coacção e ameaça no curso do processo.” Segundo a Polícia Civil, durante esta discussão foram mencionadas agressões e a morte de um cão.
Carregue na galeria para conhecer Orelha e Abacate, mortos no Brasil em janeiro.








