Imagens perturbadoras estão a gerar indignação global ao, alegadamente, mostrarem cães a serem capturados de forma violenta em Marrocos, num contexto que ativistas associam à preparação do país para o Campeonato do Mundo de Futebol de 2030, que será coorganizado com Espanha e Portugal.
O vídeo, filmado em março de 2026 em Marraquexe durante uma operação de “limpeza” antes de uma visita de inspeção da FIFA, mostra trabalhadores municipais a utilizarem dispositivos semelhantes a pinças para imobilizar cães aterrorizados, arrastando-os e atirando-os para carrinhas enquanto os animais uivam de dor. Outras imagens mostram a utilização de laços de captura colocados no pescoço dos cães antes de serem forçados a entrar nos veículos.
Segundo organizações de defesa animal, estas práticas refletem uma realidade mais ampla e preocupante. Desde que Marrocos foi confirmado como país anfitrião, em dezembro de 2024, os ativistas alegam que os abates aumentaram significativamente, estimando-se que cerca de 500 mil cães sejam mortos anualmente.
A situação torna-se ainda mais alarmante com as denúncias de que até três milhões de cães — de rua e até animais com dono — poderão ser abatidos, envenenados ou capturados e mortos antes do torneio.
A International Animal Welfare Protection Coalition (IAWPC), que representa mais de 80 organizações, considera que as garantias de tratamento humanitário são uma “farsa”. A coligação aponta para imagens recolhidas em instalações que descreve como “estações de morte”.
Além disso, os ativistas acusam Marrocos de violar normas internacionais de bem-estar animal e de expor crianças a níveis extremos de violência, o que poderá constituir uma infração à Convenção sobre os Direitos da Criança.
Pressão internacional aumenta sobre a FIFA
As imagens foram conhecidas dias antes do 76.º Congresso da FIFA em Vancouver. A reunião, destinada a definir o futuro do futebol global, ficou marcada pelas críticas crescentes e acusações de inação.
A IAWPC afirma que os compromissos assumidos durante o processo de candidatura — incluindo a alegada proibição de abates desde agosto de 2024 — podem ter sido violados.
Les Ward MBE, presidente da organização, não poupa críticas: “É claro que a atribuição do Mundial de 2030 a Marrocos, apesar dos avisos que fizemos, foi uma decisão política tomada ao mais alto nível da FIFA. Avisámos a FIFA, já em 2023, que atribuir o Mundial sem condições rigorosas levaria a um cenário de pesadelo — e é exatamente isso que aconteceu.”
“O que estamos agora a ver é um aumento das mortes, trauma em crianças, adultos e animais, intimidação e ameaças. A realidade no terreno em Marrocos é um pesadelo vivo para os cães, mas também para as pessoas, incluindo crianças, que são forçadas a assistir a isto todos os dias”, afirma Les Ward MBE.
Versão oficial contradiz denúncias
As autoridades marroquinas rejeitam as acusações, afirmando que os cães de rua são recolhidos, esterilizados, vacinados e posteriormente libertados. A embaixada de Marrocos em Londres já negou anteriormente a existência de qualquer campanha de abate, sublinhando o compromisso do país com uma gestão “humana e sustentável” da população animal.
Um porta-voz declarou: É totalmente falso que Marrocos esteja a planear abater cães de rua antes do Mundial de 2030.”
O governo refere ainda a implementação, desde 2019, de um programa Trap-Neuter-Vaccinate-Release (capturar, esterilizar, vacinar e libertar), bem como investimentos em clínicas veterinárias e serviços municipais.
Contudo, documentos citados pelo The Athletic indicam que autoridades locais terão encomendado mil munições em setembro de 2025 para lidar com cães errantes, o que levanta novas dúvidas sobre as práticas no terreno.
Reações globais e apelos à ação
Também a PETA tem denunciado a situação. A porta-voz Catie Cryar afirmou: “Marrocos não tentou esconder que os cães estão a ser envenenados, baleados e queimados vivos para ‘limpar’ o país para o Mundial de 2030. A FIFA precisa de impedir que cães sejam abatidos em seu nome, começando por financiar programas de esterilização.”
A polémica já chegou também ao mundo do entretenimento. O ator Mark Ruffalo manifestou-se publicamente: “Matar milhões de cães para preparar um evento desportivo global não é progresso, é uma falha moral. O Mundial deveria unir o mundo, não ser construído sobre sofrimento que acontece à porta fechada. Existem soluções humanas, e escolher a compaixão em vez da violência é uma responsabilidade de todos nós.”
Num momento em que o futebol procura afirmar-se como uma força global de união, este caso levanta questões profundas sobre ética, responsabilidade e o verdadeiro custo — invisível — dos grandes eventos internacionais.










