Animais

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Jack não teve medo de recomeçar. Encontrou uma família já cego e idoso

O patudo encontrou na nova casa segurança para mostrar a verdadeira personalidade.

Pode um cão recomeçar a vida aos 13 anos? Ainda existirá força? Ainda existirá esperança? Se me fizessem esta pergunta há mais de 8 anos atrás não saberia responder. Graças a Jack, hoje respondo rapidamente que sim. É possível e é incrível.

A história que corrobora esta teoria vem na forma de um cãozinho preto, com os pelinhos brancos a misturar-se com o preto que ainda resiste à passagem da idade. O corpo ainda se movimenta bem, embora uma das patas esteja um pouco comprometida devido a uma artrose que nela se alojou. Os olhos não resistiram e agora apenas servem de decoração, com um prateado que não deixa ninguém indiferente sendo o mundo apresentado através dos outros sentidos.

Jack foi resgatado pelo abrigo Coração100Dono e colocado para adopção. No abrigo, pelo que sei, sempre fora muito ativo, com o ladrar sempre apurado e a energia que enganava quem esperasse ver ali um cãozinho velhinho e parado.

Quando Maria o adotou, levou para casa um cão totalmente diferente. Para quem não conhece o comportamento dos cães nos abrigos, este pode mudar drasticamente quando vão para uma família, sendo nesse berço que mostram como realmente são. A atenção é mais centrada neles, o mimo torna-se exclusivo e o seu verdadeiro eu vem à tona.

O ladrar ficou para trás e Jack revelou-se um cão totalmente diferente. Quando o conheci já ele tinha dominado toda a casa e escolhera todos os seus cantos favoritos: o sofá da varanda, para o sol quente lhe aquecer os ossinhos, o canto da sala para refrescar, a caminha no quarto para as noites e a caminha na sala para as sestas da tarde.

Os primeiros dias foram de adaptação assim, como são para todos eles. Quando são animais invisuais é necessário mais tempo para que consigam na mente a casa que se apresenta à sua frente através dos outros sentidos.

A experiência de Maria com animais séniores dava-lhe a confiança para saber que eles precisam de tempo. O que ela nunca conseguiu decifrar foi a forma como eles encontram soluções para os desafios que iriam encontrando. Sempre que sentia a chegada de Maria, ele tentava encontrá-la para lhe subir para o colo. O truque seria seguir o olfato e assim que encontrasse o apoio, bastava subir para pedir colo fazendo festinhas com as patinhas para que ela o segurasse ao colo.

Um dos dias perdeu a orientação, e ao encontrar o apoio que pensou serem as pernas de Maria subiu para fazer as festinhas e pedir colo. Quando Maria se apercebeu deu com ele debruçado contra a parede fazendo festas contra a mesma e olhando para cima. Aquela situação roubou-lhe um sorriso ao mesmo tempo que lhe dava um sentimento de tristeza.

Jack faz a sua vida de uma forma normal e aproveita cada dia para explorar este mundo novo que tem para explorar. Quando fizemos as suas fotos, deu-me os maiores sorrisos e a alegria que é característica de todos os animais adotados, mas que nos idosos tem um brilho ainda mais forte pela gratidão que sentem.

Jack representa tudo aquilo que os animais séniores têm para oferecer e que muitas pessoas não entendem pelo medo que têm de os perder precocemente: a sua personalidade já está formada. Ao contrário de um cachorro ou gatinho, um sénior já mostra claramente se é calmo, brincalhão, independente, carinhoso, sociável, etc. São eternamente gratos, normalmente não precisam da mesma quantidade de estímulo, exercício e atenção constante que um animal jovem, adoram simplesmente estar perto da pessoa, dormir ao seu lado e fazer parte da rotina familiar e aproveitam cada dia como se fosse o último.

Foi tudo isto que o Jack me mostrou naqueles momentos que ali estivemos e reforçou ainda mais a minha dedicação a todos eles para que consigam terminar as suas vidas no berço de uma família porque nunca nos devemos esquecer que adotar um sénior não é dar-lhe os últimos anos da sua vida. É dar-lhe, finalmente, os melhores anos que ainda pode viver.

Carregue na galeria para conhecer Jack.

AMIGOS PARA SEMPRE by Carlos Filipe é uma rubrica quinzenal da PiT, em que o fotógrafo Carlos Filipe, amante da causa animal, partilha com os nossos leitores o que viveu com os cães que fotografou e com quem privou. “Cães imperfeitos”, esquecidos pelo tempo e desprezados por quem quer adotar, por serem velhos ou doentes e exigirem cuidados.

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