Animais

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Joseph foi parar a um abrigo depois da morte do tutor. O velhote precisa de uma casa

A companheira e a filha do patudo foram já adotadas, mas Joseph ficou para trás. Está com uma FAT.

Numa casa durante muitos anos viveu uma família. Era uma família como tantas outras, onde os pelos dos cães conviviam com os móveis sem haver discussão.

Pela casa viam-se tacinhas de comida e água quase a fazer parte da decoração. Nessa casa celebrava-se o Natal e todos recebiam presentes. Todos recebiam carinho e todos tinham um nome que era sempre substituído por adjetivos fofinhos que ajudavam a perceber como havia ali muito amor. Nas prateleiras existiam molduras com fotografias que ajudavam a contar a passagem do tempo. Nelas viviam eternamente as memórias dos passeios, os Natais, as visitas dos familiares, o crescimento dos netos e a memória dos que já haviam partidos.

Naquela casa, no entanto, nem todas memórias da passagem do tempo viviam enclausuradas em molduras de madeira. Muitas delas viviam em três cães que ali viviam. O Joseph, a Jura e a Joya eram o melhor álbum de memórias que ali existia. O tempo também passara para eles, embora no Joseph fosse mais visível por ser o mais velho.

Aqueles três corpos peludos guardavam neles memórias que era impossível registar em fotografias. Os seus pelinhos decoravam aquela casa e enchiam de alegria aquelas paredes onde o amor vivia sem pagar renda. A linha do tempo, infelizmente, nem sempre é contínua e por vezes quebra. Naquela casa foi isso que aconteceu, e o dono dos três morreu. O tempo parou naqueles corredores e o que parecia certo tornou-se incerto. O amanhã deixou de ser tão real e transformou-se numa incógnita. De repente, viram-se os três num abrigo onde se viram numa nova realidade.

As noites e os dias tornaram-se diferentes: começaram a ser partilhadas com outros cães. A comida continuava saborosa mas tinha outro sabor. As portas tornaram-se portões, os caminhos ganharam árvores e flores e no dia-a-dia dos três começaram a surgir novos amigos que partilhavam com eles o abrigo.

Para Joseph tudo foi uma grande mudança que o seu corpo velhinho não esperava, mas tentou adaptar-se da melhor forma que conseguia. Passado algum tempo, despediu-se da sua companheira e da sua filha, Joya e Jura, que foram adotadas ficando ele para trás. Com ele ficaram apenas as dores típicas da idade e as saudades das conversas que tinha com as suas meninas. Embora estivesse feliz por saber que elas estavam bem não conseguia disfarçar as saudades que viviam no seu coração. Restou-lhe apenas esperar que a sua vez de encontrar uma família chegasse.

Quando os animais séniores perdem o seu lar a adaptação é sempre mais difícil porque não entendem o porquê de estarem ali. Dentro deles apenas vivem as memórias do passado, os hábitos que têm de saber estar numa casa e a esperança de voltarem a ter uma caminha só sua e um par de mãos que lhes dê amor e carinho quase em regime de exclusividade.

À medida que o seu pelinho branco começou a ganhar terreno no seu corpo surgiu a preocupação, por parte dos membros do abrigo, de lhe dar um conforto maior para que o seu corpinho sénior dormisse de uma forma mais confortável. Despediu-se da box que o acolheu e foi aceite numa familia em regime de familia de acolhimento para que recebesse a sua medicação, tivesse companhia constantemente e matasse saudades de ter um teto sobre a sua cabeça.

A vida de Joseph mudou completamente porque começou a ser uma presença assídua nas feiras de adopção e nos eventos procurando incessantemente os colos que lhe ofereciam e distribuía carinhos na esperança de que, num deles, estivesse a família definitiva que lhe ofereceria o final de vida que tanto anseia.

A vida do Joseph é a vida que muitos séniores ganham no abrigo. Por não se mexerem tanto acabam por ficar mais tempo nos seus cantinhos e passam despercebidos aos olhos de quem os visita. Outros olham para eles com pena mas receiam o seu curto tempo de vida, os custos da medicação e acabam por optar por animais mais novos, desconhecendo a magia que é poder acolher um animal sénior na sua vida e experienciar a entrega e gratidão que vivem em cada um destes corpinhos que vida tenta curvar, mas que eles combatem com os seus olhinhos já meio espelhados, o seu pelo mais áspero, e as patinhas que já entram em conflito por não saberem se preferem uma boa tarde no sofá ou um passeio pela natureza.

Enquanto vos escrevo estas linhas, o Joseph continua no abrigo a aguardar o dia em que receberá a sua família definitiva. Provavelmente está deitado na relva apanhado sol para aquecer os seus ossinhos doridos, dormitando entre refeições e atento a todos os que passam, interrogando-se se será aquela a família que dirá o seu nome bem alto decorado com a frase “Queremos adotar o Joseph”.

Entretanto ele continua à espera no ANIMAL RESCUE ALGARVE por aquilo que todos os velhinhos esperam no final de vida: o seu final feliz.

Carregue na galeria para conhecer Joseph, que espera uma família definitiva para passar os últimos anos de vida.

AMIGOS PARA SEMPRE by Carlos Filipe é uma rubrica quinzenal da PiT, em que o fotógrafo Carlos Filipe, amante da causa animal, partilha com os nossos leitores o que viveu com os cães que fotografou e com quem privou. “Cães imperfeitos”, esquecidos pelo tempo e desprezados por quem quer adotar, por serem velhos ou doentes e exigirem cuidados.

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