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Julinho, seis meses depois. Do limiar da morte aos passeios na praia para ver o mar

Amarrado, sem comida e sem água, este cão foi ao inferno e voltou. O patudo de Torres Novas agora sabe o que é ser feliz.

Foi a 19 de setembro do ano passado. Nesse dia, a associação APA Torres Novas teve conhecimento de um cão no limite das suas forças, acorrentado sem comer nem beber. Era preciso agir rapidamente, pois poderia morrer a qualquer momento. Era esse o destino que lhe estava traçado, como a tantos outros patudos por este país fora. Mas esse destino foi fintado.

Assim que a APA Torres Novas recebeu o telefonema de uma voluntária da associação que se tinha deparado com o animal e que chorava em desespero, apressou-se a denunciar a situação. Era, verdadeiramente, uma situação de vida ou de morte.

O Julinho – nome que lhe deram – estava preso nas traseiras de uma habitação, num terreno onde ninguém ia além dos donos. Ou seja, não fosse um acaso do destino e o Julinho teria morrido à fome e à sede sem ninguém saber, acusou a associação. “Felizmente, o seu destino cruzou-se com a nossa voluntária, que o resgatou sem pensar duas vezes”.

À PiT, essa mesma voluntária – que pediu para não ser identificada – contou que quando o viu ficou transtornada. “Resgatei-o e levei-o ao veterinário, onde ficou três noites. O diagnóstico é o que se podia esperar: está cego de um olho, provavelmente devido a alguma pancada, e tem cataratas no outro; tem febre da carraça, pois tinha o corpo coberto delas; tem leishmaniose e terá de tomar medicação para o resto da vida; tem anemia devido à desnutrição; tem marcas no corpo que nunca irão sarar. O estado frágil em que se encontra levará a longos meses de recuperação”, relatou então.

Foi resgatado num estado lastimável.

Assim que teve alta, Julinho foi recebido numa família de acolhimento temporário (FAT). É ali que permanece, mais feliz do que nunca. E no passado domingo, dia em que se cumpriram seis meses do seu resgate, foi dar um passeio especial pela protetora que o resgatou.

Houve alturas em que todos pensaram que o Julinho não iria resistir. “Durante os primeiros dois meses, pensámos que não iria sobreviver. Ia duas a três vezes por semana ao veterinário para fazer soro, pois deixava de comer. Só comia frango, que não lhe fazia bem nessa altura”, explica a protetora que o salvou da morte.

A determinada altura, tinha que se tomar uma decisão. Ou continuavam com aquele processo, ou davam-lhe frango, consciencializados de que teria pouco tempo de vida e que pelo menos comeria o que gostava e não estaria sempre no vet. Decidiram-se pelo frango.

Inexplicavelmente, Julinho foi buscar forças, não se sabe bem onde, e nunca mais teve de ir ao veterinário. “Começou a recuperar e a ter apetite. Neste momento come ração sem problemas”, diz a voluntária com um sorriso feliz.

É um cão que vai fazer 9 anos, mas nem parece ter tanta idade. “Quem o vê e não sabe aquilo por que ele passou, nem imagina”, sublinha. Para ele, não poderia estar a correr melhor. “A FAT é amorosa, não podia estar mais bem entregue. É uma pessoa muito dedicada. Ele ficou com ela, com todos os cuidados, e tem outros cães com quem brincar e socializar”.

“No dia 19 de março fez seis meses do resgate. Se morresse amanhã, teria valido a pena por causa destes seis meses tão bons que viveu. Mas tenho esperança que ele viva muito mais”, aponta. “Ele está muito feliz. Ficou cego do olho esquerdo e lacrimeja, mas está a fazer um tratamento para ver se melhora. Do olho direito não vê a 100 por cento. Ainda assim, faz uma vida perfeitamente normal”.

Para comemorar em grande os seis meses de uma nova vida, a sua protetora e a mãe – de quem o Julinho também gosta muito – levaram-no a dar uma bela volta. “Fomos à praia Paredes de Vitória, que tem uma espécie de lago no areal. Gostou muito e até mergulhou”, conta a voluntária da APA Torres Novas.

Agora adora cada novo cheiro.

“O que me tocou muito foi vê-lo ali sentado comigo, de olhos fechados e a levar com o vento na cara, e a movimentar o nariz como se estivesse a cheirar tudo. Foi comovente”. Mas não ficaram por ali. Depois rumaram ao Pinhal da Nazaré, onde o Julinho cheirou tudo e correu imenso. “A seguir ainda fomos à Lagoa de Alvados e também adorou”.

A sua protetora e a mãe visitam Julinho pelo menos uma vez por mês. E ele não se esquece nunca de quem lhe fez tanto bem. “A FAT diz que é impressionante, pois ele reconhece-nos perfeitamente. Quando estamos a chegar, ele vai logo para o portão e salta imediatamente para cima da minha mãe. Quando vamos embora, fica junto à rede a despedir-se”, diz a protetora, com voz emocionada.

Para esta voluntária, a mensagem é simples: “vale sempre a pena, mesmo que eles tenham problemas e pouco tempo de vida. O Julinho é um animal muito feliz neste momento, com uma vida muito digna”.

Percorra a galeria para ver o antes e o depois da vida de Julinho, que só começou verdadeiramente no dia 19 de setembro de 2022.

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