O caso de Júnior chocou o país. O Labrador idoso e paraplégico foi resgatado pela associação Ajuda a Alimentar Cães de Rua, da Madeira, depois de o dono o agredir na cabeça com um pé de cabra. Com amor e dedicação, o patudo recuperou, e encontrou a sua família para sempre com Sofia, que conta à PiT como foi recebê-lo.
O cão chegou aos braços da nova tutora a 7 de maio, depois de esta decidir que o adotaria. A dona adianta ter-se deparado com o caso através das redes sociais, que a deixou sem palavras. “Olhar para o Júnior e imaginar aquilo que passou. Não compreendo como é que alguém é capaz de tamanha monstruosidade”, diz.
Sofia admite que o desejo que o acolher foi imediato, mas exigiu “uma decisão ponderada”. “Durante vários dias estive em contacto com a associação, para compreender o histórico do Junior, rotina, tive acesso a exames, falei com médicos, pedi opiniões. Queria acima de tudo perceber as reais necessidades do Júnior e se eu seria a pessoa certa para ele”, explica.
Com a candidatura aceite, foi preciso preparar a viagem de Júnior até ao continente, para se encontrar com a tutora em Lisboa. “Tudo se alinhou”, garante. Passadas três semanas da chegada, a rotina está ainda a ser criada, e a cuidadora reconhece que as suas necessidades exigem atenções extra. “Não vou romantizar, é duro. É exigente, mas o facto de o ver feliz e de saber que ele está protegido, compensa tudo”.
Além do carinho que recebe da própria tutora, Júnior foi integrado numa comunidade, uma vez que “já conhece vários vizinhos, de duas e quatro patas”. “Tem sido tão, mas tão acarinhado por todos, que me enche o coração”.
Em casa, é “filho” único, mas não o primeiro. Sofia conta já ter tido “uma casa cheia” de patudos que, com o tempo, “foram partindo”. A experiência de lidar com um animal com mobilidade reduzida também não é uma estreia para a tutora, que passou por contextos semelhantes com Scar e Bia, dois dos seus cães, que “nas suas retas finais perderam mobilidade”. “Tive que me adaptar. Desistir nunca foi uma hipótese. Mais estivesse ao meu alcance fazer e mais eu faria. No fundo acho que foram eles que abriram a porta para a adopção do Júnior”, confessa.
“Muito sangue, o animal a ganir com sofrimento intenso”
O caso do cão chegou ao conhecimento do público através de imagens com um aviso por poderem chocar, e um pedido aos mais sensíveis para que não as vissem. Ainda assim, foi incluído o reconhecimento da necessidade de as testemunhar para compreender a gravidade da situação, que decorreu no Caniçal.
O Labrador sénior paraplégico “foi violentamente espancado com um pé de cabra” depois de ter ladrado.
Mariana Nóbrega explicou à PiT ter chegado ao caso depois de uma denúncia nas das redes sociais. Antes mesmo de responder, percebeu que a PSP “já se encontrava no local”. Antes da chegada das autoridades, “o agressor tentou apagar os vestígios do crime. Foi buscar uma mangueira e tentou lavar o sangue”.
A par da Polícia de Segurança Pública e da Ajuda a Alimentar Cães, esteve no local o Abrigo Municipal de Manchico, possibilitando a estabilização e o resgate de Júnior. Depois de dois dias internado, ficou ao cuidado da associação. “E não estamos dispostos a deixá-lo ir”, pode ler-se nas redes sociais.
Mariana adianta que o perpetrador do crime não mostrou resistência perante as autoridades. Estava “alcoolizado, mas calmo e consciente do que tinha feito”, afirma, acrescentando ter admitido as agressões, que eram também do conhecimento da família.
A ativista dos direitos dos animais descreveu o cenário “gravíssimo” com que se deparou no local: “muito sangue, o animal a ganir com sofrimento intenso e vários cortes profundos na cabeça”.
A organização reiterou ainda que “agredir um animal é crime, punível com pena de prisão”, e garante que procurará resolver a situação com a Justiça. “Não vamos desistir. Desta vez, vamos dar luta”. A equipa apresentou queixa-crime com o apoio de uma advogada familiarizada com a causa animal, que aceitou lidar com o caso pro bono, deslocando-se do Continente à ilha da Madeira. “Pela primeira vez temos expectativas reais e elevadas de que será feita justiça”, disse Mariana, mencionado as “testemunhas, provas materiais e factos claros” deste caso.
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