Animais

Ladrão, o cão vadio mais famoso de Almada, está a espera de uma cadeira de rodas

Agora é conhecido como Dão e já não vive nas ruas. Perdeu o movimento das patas traseiras mas em breve vai voltar a andar.
Dão em 2013.

É difícil encontrar um almadense que não conheça Dão. O cão vadio mais conhecido da Margem Sul coleciona apreciadores. “Ladrão”, como era conhecido, foi acolhido por alguns residentes da região, mas sempre voltava para as ruas. Nelas, era recebido com amor por todos aqueles que o viam. Hoje, a vida que leva é diferente: tem chip, uma casa da qual já não foge e uma tutora que cuida dos problemas de saúde que vieram com os mais de dez anos que carrega nas costas.

Diagnosticado com osteoartrite, o “cão de todos” tem perdido a locomoção das patas traseiras nos últimos anos. “Já andava a coxear há algum tempo e a fazer condroprotetores para as articulações, receitado pelo veterinário”, começa a explicar à PiT a tutora Elsa Ribeiro. “Tinha problemas já numa pata e chegou a fazer um tratamento mais forte, tendo melhorado. Entretanto, começou a coxear mesmo e a raspar com as patas traseiras no chão e foi aí que foi diagnosticado com osteoartrite e também com demência, mas já não tem sintomas”.

Atualmente, Dão toma uma mão cheio de medicamentos três vezes por dia. Após o diagnóstico da doença crónica que danifica a cartilagem, os comprimidos aumentaram e com o tempo, Elsa começou a procurar alternativas para ajudá-lo a andar. “Ele adora andar na rua, sempre fez isso”, realça. Contudo, a tutora não consegue suportar os valores sozinha. Mas como apreciadores do cão não faltam, o problema foi rapidamente resolvido. 

Na passada quarta-feira, 14 de setembro, os tutores do Pó d’Arroz e da Broa de Mel, a família lisboeta que conquistou milhares de seguidores em Portugal e no mundo, realizaram uma angariação de fundos para ajudar a cobrir os custos de uma cadeira de rodas, consultas e medicações. No mesmo dia, conseguiram o valor necessário (cerca de mil euros). Após dois dias, Dão já estava na consulta com a Dog Locomotion e daqui um mês, já vai ter a cadeira pronta.

Na consulta.

O ícone de Almada

São muitas as histórias que envolvem Dão, o “Ladrão” de Almada. “Ele ficou com esse nome primeiro porque andava com os pescadores no Ginjal”, conta  Elsa Ribeiro. “Depois, os relatos diferem. Ele tinha tutores e eles dizem que ele fugiu, eram tendeiros em Cacilhas. O Sr. Espanta Lobos é o patriarca da família. Pelo que sei, nunca mais quiseram saber dele. A partir daí, o Dão teve que se fazer à vida“. E assim ele fez.

Quando não recebia comida das dezenas de pessoas que o conheciam, Dão roubava para poder comer. “Há uma casa de frangos que lhe dava frango assado e desossado sempre que ele aparecia e tinham um balde com água lá fora para ele beber mesmo à noite. Também me contaram que ele roubava carne dos grelhadores dos restaurantes de Cacilhas”, recorda a tutora.

Na altura dos relatos que Elsa partilha, a tutora morava em Inglaterra e não conhecia o patudo. Em 2018, voltou a Portugal e encontrou um cão vadio abandonado. Este, porém, ainda não era Dão, era Charlie. “Comecei a passeá-lo no relvado e o Dão vinha lá ter sempre à nossa hora para brincar e depois seguia-nos para casa”, conta.

A partir daí, Elsa deixava Dão entrar em casa e no começo até lhe deu um tapete para dormir. “Isto porque ele chegou a dormir 12 horas seguidas de início“, partilha. Acostumado com a vida que tinha na rua, o cão não tinha interesse na ração de Charlie, só “bebia água e comia umas bolachas”. No entanto, as visitas de Dão tornarem-se rotina e ele começou a passar mais tempo em casa. Com o tempo, foi desparasitado e por um mês, passou por um tratamento para as otites. “Tinha que enfiar um tubo com bisnaga nas orelhas e depois massajar. Ele nunca se virou contra mim”, frisa.

A adoção controversa

Em 2018, com as visitas diárias de Dão e os cuidados que Elsa Ribeiro já prestava, o que bastava era tornar oficial. Mas não foi fácil. “Resolvi finalmente adotá-lo e muita gente ficou contra mim”, recorda. “Diziam que ele era um cão livre e feliz… Enfim, coisas piores que nem vale a pena referir”.

Dão, no entanto, continuou a viver em regime livre. Mesmo após ter recebido o chip, tinha a liberdade para fazer o que queria. “Comia e dormia em casa e aparecia quando queria”, diz Elsa. “Bastava ladrar uma vez e eu abria a porta do prédio e a de casa”. Mesmo assim, os “ataques” não pararam. “As pessoas que estavam contra a sua adoção roubaram-lhe quatro coleiras e dois peitorais. O último até tinha um cadeado”. 

Com a chegada do frio e da chuva, a tutora tomou a decisão de não deixá-lo mais sair sozinho. Dão foi então castrado e desde então, é um cão doméstico. E a adaptação à nova vida não podia ter corrido melhor. Só para Charlie, o “mano” de quatro patas, que não foi fácil. No começo tinha ciúmes, mas agora já são como irmãos de sangue. “Os dois, a meio da refeição, trocam de taça, apesar de ser a mesma ração”, conta Elsa, entre risos.

Apesar de a vida ter mudado, Dão continuou o mesmo. No começo, estragou uma almofada da tutora, dois pares de chinelo e os peluches do irmão, mas logo deixou de o fazer. “Ainda adora passear e brincar com os seus brinquedos e a sua bola favorita, mesmo agora. É um guloso, se fazemos ou mandarmos vir frango assado, vai salivar para a mesa a fazer olhinhos, acho que deve ter mestrado nisso”, brinca.

Para além de Elsa, a celebridade de quatro patas ainda conta com milhares de apreciadores. Agora que perdeu o movimento das patas traseiras, precisa de ajuda para fazer o que mais gosta: passear. Elsa, por vezes, não consegue auxiliá-lo, tendo em conta que também sofre de problemas de saúde e não o aguenta. Mas Joana Alexandra, fundadora da PetsLover1991, um projeto de petsitting e dogwalker, prontificou-se a ajudar.

No Instagram, partilhou o momento que levou Dão ao parque, a segurar um suporte para as patas traseiras. “Ele é um cão muito calmo e querido e dá-se bem com os outros patudos e até connosco. No dia em que o levei a passear, ele estava imensamente grato por isso, via-se no olhar dele e na felicidade”, contou à PiT Joana. Eles são felizes com tão pouco, é algo que acho extraordinário nestes seres. Por isso os amo tanto”, concluiu.

Além de uma conta no Facebook, diversas associações nacionais e residentes de Almada partilham fotografias do cão mais famoso da região. Em 2017, até apareceu num vídeo do humorista Diogo Batáguas, sendo referido como “o animal de estimação de Almada”.

Com a medicação que toma, alguns dias são melhores do que outros e Dão consegue “andar melhor sem raspar as patas e não precisa de ajuda”, diz Elsa. Em breve, a tutora pretende encomendar biscoitos de CBD, substância extraída da canábis, para aliviar as dores do cão. Dentro de um mês, a tão esperada cadeira de rodas chega e Dão poderá voltar a fazer o que mais ama sem precisar de ajuda. Mas desta vez, sempre acompanhado da tutora e dos milhares que o seguem. 

Percorra a galeria para conhecer o ícone português de quatro patas.

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