Animais

Leão: o cão que viveu 10 anos acorrentado e me ensinou a ter coragem

O gigante vivia num terreno rodeado de nada e um grupo de jovens atirou-lhe ácido para cara como uma "brincadeira".
A coragem de um Leão.

Arthur Schopenhauer disse um dia “O homem fez da Terra um inferno para os animais”. Encontrei, sem pensar, um animal que adoraria apresentar-lhe para poder ilustrar a sua frase tão cheia de verdade. Será que o tempo passa da mesma forma quando se vive acorrentado durante dez anos como tu, Leão? Que memórias ou experiências se levam da vida quando esta se resume a poucos metros de ferro?

Fiquei com os olhos secos de tanto chorar porque tinha de chorar por dois: por mim e por ele. Eu porque não conseguia parar e ele porque simplesmente não podia.

O nome Leão ganhou um lugar no meu coração desde que o conheci. Nele tem a vida que nunca teve enquanto esteve no nosso mundo: livre, cheia de carinho e conforto, sem correntes nem prisões. Durante dez anos a vida do Leão foi fácil de descrever sem precisar de grandes descrições nem usar a imaginação de tão limitada que foi.

Durante os seus primeiros 3652 dias de vida viveu-os no mesmo local. Um terreno rodeado de nada e uma companhia que partilhava consigo a vida e a corrente. Quando pensamos que foi duro para ele sem ter a mínima noção e achando que não poderia ser pior, o Leão conheceu a falta de limites da maldade humana para juntar à crueldade que já lhe oferecera a maior parte da sua vida naquela condição quando lhe deitaram, apenas porque sim, ácido para a cara.

“Uma brincadeira estúpida de jovens” foi o nome que lhe deram. Um sofrimento atroz seria uma descrição mais realista. Aos dez anos de corrente juntamos-lhe um ano de sofrimento com ácido sem qualquer assistência médica.

A história tornou-se uma denúncia e essa denúncia transformou-se num resgate. O resgate partiu-lhe para sempre a corrente e tirou-o daquele pequeno quadrado de terra a que sempre chamou mundo para lhe mostrar que existia mais do que aquilo.

O que são quatro meses de internamento quando se está habituado a esperar anos por algo que não se sabe o que será? As janelas que lhe mostrariam o novo mundo não estavam fechadas totalmente pois as cicatrizes cobriram o pouco que restou mas a sua visão nunca mais seria a mesma e, a determinada altura, teria de começar a “ver” com os outros sentidos.

Os apelos por uma família de acolhimento cavalgaram mais depressa que o vento e soube o que era uma casa pelas mãos de uma menina chamada Alexandra. Foi a mão dela e a sua paciência que lhe mostraram, aos poucos, o que era um abraço, a que sabia um carinho, como era reconfortante uma carícia no pelo.

No seu mundo, em constante mudança, surgiram novas personagens. Deixou de viver num monólogo para descobrir como era bom partilhar o palco da vida com outros. Aprendeu, pela primeira vez, o que era brincar. Descobriu, como se fosse uma criança, que existiam outros locais para além do terreno onde viveu como praias e trilhos rodeados de árvores.

Da sua vida passada apenas trouxe consigo o desconforto, que sentiria toda a sua vida, nos olhos para o qual encontrou uma forma muito própria de aliviar coçando-os contra a sua barriga num ato digno de ginástica acrobática e o medo e desconfiança perante pessoas estranhas.

Os dias tornaram-se semanas e os meses vieram logo de seguida, dando-lhe o primeiro ano de liberdade e um novo mundo que tentava beber com o que os seus olhos lhe conseguiam transmitir. A recuperação foi-se acomodando ao seu lado mas os desafios nunca deixaram de o querer abraçar.

Quando se preparava para remover os seus olhos o seu corpo revelou um linfoma, em estado avançado,  que deitou por terra as esperanças de longos anos de vida. Um abraço longo de Alexandra, depois da terrível revelação, deu-lhe a força que necessitava para continuar a explorar o mundo novo que havia conhecido tão recentemente.

Os seus dias foram brindados com a rotina que nunca seria monótona nem aborrecida: brincar com os seus amigos, continuar a encher o carro de Alexandra de pelos nos longos passeios que deram e as longas sestas no seu sofá preferido e exclusivo que ocupava na totalidade sem más intenções. Chorei por nós quando me despedi de ti. Pedi-te desculpa, em nome de todos os seres humanos, pelo que te fizeram.

Sei que os anos que viveste até te resgatarem foram duros e continuo a dizer que fomos nós, humanos, que tornaram o mundo num inferno para vocês. Desde que partiste muitos animais foram resgatados. Muitos encontraram famílias. Muitos acabaram por perder as batalhas. E nós? Nós continuamos sem salvação, alguns continuam a resgatar como fizeram contigo a amamentar os que ninguém quer, a dar beijos aos que nunca conheceram um carinho. Os outros? Os criminosos? Os monstros como os que te destruíram a vida continuam ai a cometer crimes sem castigos, a ficar impunes e todos os dias surgem mais “Leões” como tu a sofrer, a aguentar até que alguém os salve… a tentar manter a esperança que a justiça seja dura.

A eles dizemos para nunca perderem a coragem e esperança como tu tiveste, que consigam aguentar como aguentaste para que um dia sorriam como tu sorriste. A ti apenas digo que tenho saudades tuas, que me sinto grato por te ter conhecido e que a tua mensagem irá sempre prevalecer para que todos os que sejam acorrentados e mutilados como tu encontrem aquilo que nunca te faltou: Coragem. Coragem de Leão.

Percorra a galeria para conhecer Leão.

AMIGOS PARA SEMPRE by Carlos Filipe é uma rubrica quinzenal da PiT, em que o fotógrafo Carlos Filipe, amante da causa animal, partilha com os nossos leitores o que viveu com os cães que fotografou e com quem privou. “Cães imperfeitos”, esquecidos pelo tempo e desprezados por quem quer adotar, por serem velhos ou doentes e exigirem cuidados.

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