Animais

Lília tem vários gatos a seu cargo. Deixou tudo para trás para lhes criar um refúgio

Vive em Santa Maria da Feira e não tem qualquer ajuda. Lida ainda com insultos dos vizinhos que não concordam com o que faz.
Dedica-se aos animais há mais de 20 anos.

Em março de 2021, tudo mudou para Lília Lima, de 53 anos. A pedido de um veterinário municipal e do vereador de Santa Maria da Feira, no distrito de Aveiro, a cuidadora de idosos e amante dos animais acolheu 13 gatos provenientes de uma situação de maus tratos. “Vinham pequeninos e sem esterilizar. Tinha mães e filhos e via-se que era ninhadas entre eles”, começa por contar à PiT. “Estavam assustados e agressivos, não se sabe o que a antiga dona fazia com eles”. 

Lília é fundadora da Caudas & Bigodes, um associação sem fins lucrativos que visa “esterilizar e cuidar dos animais de rua” em especial os gatos. Na altura em que acolheu os 13 animais, três deles foram “muito bem adotados” por pessoas que conhecia.

Já os restantes dez, até hoje estão sob os seus cuidados juntamente com outros mais velhos. “As pessoas só querem os pequeninos porque os adultos nós conhecemos o temperamento. Os gatos têm uma personalidade forte”, partilha.

Apesar de não saber ao certo o que os felinos passaram, a fundadora frisa que os curar do trauma dos maus tratos foi fácil. “Fui levada ao hospital e deixei de trabalhar porque dois deles furaram as minhas mãos. Fiquei com as mãos ligadas com buracos”, recorda. Lília, porém, não desistiu. E hoje, diz com orgulho que conseguiu “deixá-los meigos”. 

Por outro lado, este não foi o único problema que enfrentou. A fundadora diz ter tido poucas ajudas do veterinário e vereador da região, que enviaram os felinos para a associação.

Eles falaram que não iam esquecer-se de mim, até hoje prometeram fazer um protocolo comigo para ajustar as contas e nada. Nem perguntaram se eles estão vivos. Só ajudam outras associações da região”, confessa. “Estou a destruir tudo o que tenho em termos de valores económicos porque tudo que tenho eu dou para eles. Não tenho qualquer ajuda”. 

O espaço que construiu.

Já chegou a ser agredida

Num dos resgates para acolher uma gata e uma cria num terreno na Rua de Ordonhe, na Vergada, Lília Lima foi surpreendida por duas das proprietárias. A fundadora da Caudas & Bigodes tinha a autorização de um tio da família para resgatar a felina pertence a uma colónia de gatos da região. Mas não foi suficiente.

“Tinha de a apanhar para a esterilização, era a única que não estava castrada da colónia que eu cuidava”, recorda. “Estava a colocar comida e a armadilha quando a mãe e filha aparecerem e mandaram-me contra a parede. Tive os braços e a parte esquerda do rosto agredidos”. 

No local, Lília chamou a Guarda Nacional Republicana (GNR) e apresentou queixa. Em seguida, foi assistida no hospital da região.O acontecimento, porém, não foi único.

Diariamente, Lília lida com os insultos dos vizinhos que não concordam com os resgates que faz. “Sempre que vou por o lixo sou insultada. Também andam com paus na mão para assustar-me”, confessa. “Só não sai daqui pelo dinheiro que investi nos animais”. 

No momento, Lília também está sem acesso a conta do Facebook da associação. A fundadora contestou uma publicação de um homem que, sem dinheiro para tratar de um filhote de gato, resolveu entrar em contacto com uma veterinária e recorrer à eutanásia.

“Eu disse que era um crime porque o animal não tinha uma doença terminal que obrigasse a eutanásia”, sublinha. “Estou bloqueada por 29 dias porque não podemos defender os animais dizendo aquilo que pensamos”.

Qualquer ajuda é bem-vinda

Atualmente, Lília Lima tem procurado ajudas como pode. Sem acesso a conta do Facebook por cerca de um mês, não é fácil partilhar os apelos. Apesar de contar com a ajuda do filho de 28 anos e do parceiro, as despesas continuam altas.

Se não fosse a ajuda deles, os animais passavam fome e eu também”, confessa à PiT. “Já tenho a minha casa alugada mas não chega, e o meu salário é pouco. Gasto 500€ de ração da marca Advance porque não dou de marca branca, dou de qualidade”. 

Além das compras de rações e areia, também gasta com medicamentos e consultas veterinárias. Rosinha, uma das gatas, sofre de insuficiência renal. Já outra felina sénior, teve recentemente de arrancar os dentes. É também tutora de quatro cães. “Esta aldeia é um atraso de vida, ninguém tem respeito pelos animais cá”, sublinha. “Já pedi ajuda ao presidente da junta de Argoncilhe, mas ele disse que não ajuda animais”. 

Apesar das dificuldades financeiras e dos insultos que diariamente recebe, não pretende desistir. “Os gatos são muito bem tratados. Construí uma casa e vivo com eles, trato como se fossem meus. Estou sempre com eles, 24 horas sobre 24 horas”, diz. “Há muitos anos que não sei o que é ir de ferias. Não há voluntários, os miúdos vem e tiram selfies porque acham bonito mas não vêm mais”.

Para ajudar com doações, pode contactar Lília através do telemóvel 917 120 929, que é também número de MBWay.

Carregue na galeria para conhecer Lília e a Caudas & Bigodes, o espaço que criou para eles.

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