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Luna: o que a surdez canina nos ensina sobre o amor

A cadela nasceu surda e foi adotada por uma família que escolheu deixar de lado qualquer preconceito.

Se, num dos vossos passeios, se depararem com uma bola gigante de pelo, com olhos que nos fazem derreter com a sua doçura, e se sentirem quase obrigados a aproximar-se para a encher de festinhas, é possível que tenham encontrado Luna. No meio de todo aquele pelo e doçura encontrarão uma etiqueta a dizer “Olá! Sou surda!”.

Este detalhe muitas vezes o que define o destino de um animal. Mas é apenas isso: um detalhe. Poderíamos ir pela parte dramática da tristeza, mas é impossível ficar triste ao pé de uma força da natureza como Luna.

Nos seus ouvidos nunca entrou nenhum som. Nasceu assim. Recebeu um nome que nunca saberá qual é. Nunca reconhecerá vozes, barulhos da natureza ou palavras bonitas. Talvez saiba de outra forma. Tenho dificuldade em interiorizar isso, porque a vejo como um cão sem qualquer limitação e insisto em enchê-la de elogios, chamá-la pelo nome e esquecer que não me ouve.

O sorriso e a alegria de Luna parecem ser contagiantes, já que a família que a acolheu não para de sorrir e de a acarinhar insistentemente. O medo inicial foi rapidamente superado pela vontade de aprender a comunicar com ela. Existe ainda muito preconceito em relação a cães surdos. Muitas pessoas acreditam que são mais difíceis de educar ou que têm menos qualidade de vida, mas Luna mostrou exatamente o contrário. Ela aprende, adapta-se e ama com a mesma intensidade — talvez até mais.

Temos tendência para estranhar o que não conhecemos, mas sabendo o que fazer tudo se torna fácil.  Em vez de palavras, usamos gestos, inspirados na Língua Gestual, expressões e contacto visual. Num lar que recebe um cão surdo cria-se  uma linguagem própria, onde um simples olhar diz tudo. 

Luna e todos os que não ouvem ensinam-nos a importância da atenção e da presença. Como não ouvem, precisam de nos ver, e é isso que propicía a criação de uma ligação muito forte entre ela e a família. A partir daí, a receita é simples: basta adaptar o nosso dia-a-dia para os mantermos seguros. Não pode ser solta em qualquer local, a trela será sempre como uma mão que a segura e a ajuda a entender que está protegida e os sons transformam-se em gestos simples. É necessário respeitar o seu espaço e principalmente evitar sustos. Os sons são substituídos por gestos calmos, toques suaves e muito amor para que percebam que chegámos e não os assustarmos.

Ter um cão surdo como Luna é um convite à criatividade e a criação de uma nova forma de comunicar. Assim como devemos fazer com qualquer animal que acolhemos, porque também eles merecem uma preparação da nossa parte, com reforços positivos, comandos básicos e muito, mas muito amor.

Mais do que um desafio, Luna trouxe aprendizagens à sua família: transformou as dúvidas em certezas, ensinou-os a comunicar de outra forma e a dizer amo-te de outras formas que não necessitem de palavras. Luna é um exemplo de como um cão surdo pode aprender facilmente como qualquer outro para que outros que aguardam por uma família consigam encontrar o lar que tanto precisam cheio de amor, carinho, paciência e muita felicidade sem que, para isso, seja necessário dizer uma única palavra.

Carregue na galeria para conhecer Luna.

AMIGOS PARA SEMPRE by Carlos Filipe é uma rubrica quinzenal da PiT, em que o fotógrafo Carlos Filipe, amante da causa animal, partilha com os nossos leitores o que viveu com os cães que fotografou e com quem privou. “Cães imperfeitos”, esquecidos pelo tempo e desprezados por quem quer adotar, por serem velhos ou doentes e exigirem cuidados.

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