Animais

Mário Ferreira — o homem que dá refúgio aos animais de ninguém

Vive no Cartaxo, onde acolhe centenas animais, e é veterinário. É mais um português inspirador que a PiT dá a conhecer.
Amor e liberdade.

Mário Filipe Ferreira é um nome incontornável na causa animal em Portugal. E foi por isso que a PiT foi conhecê-lo melhor: para lhe contar a sua história, que é uma inspiração para todos nós.

“O Mário do Refúgio”. Basta dizer isto e já sabe de quem se está a falar. A maioria conhece o Refúgio Animal Angels, situado no Cartaxo, bem como o homem por detrás das centenas de animais que ali vivem, mas o que talvez muitos não saibam é que Mário é veterinário.

Comecemos pelo princípio. Hoje com 37 anos, Mário foi sempre um menino diferente dos outros. Sempre teve uma relação mais próxima com os animais do que com a maioria das pessoas, e desde muito cedo. “Diz a minha mãe que bem antes de falar ‘língua humana’ já eu falava língua animal – ladrava etc.”, conta à PiT com um sorriso rasgado.

Mário não se ficava pelos sons. “Desde que me lembro, e isso será desde os meus 4-5 anos, que trato de animais de rua, abandonados. Todos os dias chegava da escola e ia alimentar os gatinhos e cães de rua”, diz. “Antigamente eram muitos e lembro-me da afinidade que tinha com eles”.

Recorda-se também que muita gente lhes fazia mal. “Apesar de muito pequeno – deveria ter uns seis anos –, recordo-me bem de um vizinho estar a matar gatinhos, a afogá-los, e a dizer-me que aquilo era normal. E eu aos gritos e a chorar”. Ainda hoje lhe custa falar sobre isso. São imagens que não se esquecem.

Afinidade com os animais moldou-o como pessoa

Mário cresceu e a afinidade com os animais cresceu ainda mais. “Isso tornou-me na pessoa que hoje sou”, afirma.

Quando lhe perguntamos quando é que começou a sentir este “chamamento”, este amor pelos animais, não tem dúvidas: “Desde que me lembro. Tenho a certeza que nasceu comigo”. “Tenho mil e uma histórias com animais desde muito pequeno. Acho que este tipo de ligação nasce connosco e comigo foi assim”.

Sobre se a medicina veterinária era o caminho que sempre quis seguir ou se foi algo que surgiu depois do seu contacto mais estreito com os animais, Mário conta que foi o que sempre desejou. “Se em pequeno me perguntassem o que queria ser, respondia logo: médico veterinário. Porque sempre quis poder ajudar os animais de outra forma, ‘curando-os’”, conta.

E é essa busca pela “cura”, esse seu desejo de ir onde for preciso para apoiar os mais necessitados, sem barreiras nem fronteiras, que o leva a sair por vezes de Portugal para ajudar em cenários e contextos difíceis. “Já tive a oportunidade de estar fora do país em situações de guerra e catástrofe. Não diria privilégio, porque todas as situações de catástrofe são tristes”, aponta Mário.

O médico veterinário já andou por países como a Síria e o Líbano, “onde a crise económica e o pós-guerra afetam tudo”. “Onde a vida humana vive presa por um fio, por isso imaginem a vida de outros animais”.

“Tive o privilégio de conhecer pessoas fantásticas, organizações que com quase nada fazem muito. Vi destruição, vi pobreza, vi fome, mas também vi amor. Amor que muitas vezes nos sítios mais civilizados não existe. E com amor muito se faz. São marcas que ficam para sempre e volto regularmente para ajudar”, afirma o profissional do Centro Médico Veterinário de São Nicolau, no Cartaxo.

O Refúgio de todos os animais

E como surgiu o Refúgio Animal Angels? “Não foi algo pensado”, explica. “Surgiu porque apareciam cada vez mais animais a precisar de ajuda. E não falo apenas de cães e gatos, mas também de cavalos, porcos, cabras, ovelhas, vacas, aves, que necessitavam de ajuda e de um sítio seguro para viver, muitos deles para sempre”.

É isso mesmo. Para sempre. Porque um animal que entra no Refúgio de Mário só sai com a certeza de que é uma família excelente que o leva consigo. “Há muitos que simplesmente não estão para adoção, por questões legais e sanitárias, como vacas e ruminantes. No entanto, entre cães e gatos, os de mais difícil adoção diria que são os seniores. E quanto maior o porte, pior”, lamenta à PiT.

Sobre adoções, Mário tem conselhos a dar. “Diria que, antes de mais, devem pensar muito bem antes de tomar essa decisão. Mal comparado, é como ter um filho: não basta ter, há que saber cuidar e ter forma de prestar todos os cuidados médico-veterinários necessários”.

Por essa razão, “diria que só o amor não chega, se bem que sou da opinião de que famílias com menos poder económico têm muito mais vontade de fazer mais pelos seus animais”, salienta.

Ajudas. precisam-se

O Refúgio é um verdadeiro paraíso para os animais que lá vivem, mas todos os dias é uma luta para que nada lhes falte. “Infelizmente não existe qualquer apoio estatal para o Refúgio. Vai sobrevivendo das poucas ajudas particulares que existem”. Para piorar, “as ajudas no pós-covid, com a crise, estão a ser cada vez menos – o que me preocupa muito, porque apenas os nossos ordenados não conseguem suportar todos os custos familiares e dos animais”, lamenta Mário.

As maiores necessidades, para quem possa ajudar, são essencialmente alimentação e apoio financeiro para pagamento de situações médicas, obras e tudo o que vai surgindo com faturas pelo meio. Porque os animais precisam de comer todos os dias e de serem bem cuidados para continuarem a ter vidas longas – como a Margarida, o animal mais antigo do Refúgio, que é uma porca com 18 anos.

Pelo Refúgio já passaram milhares de animais. “Milhares mesmo. E fico sempre tocado pelos mais fracos. Os cegos, os idosos, os amputados, os que têm alguma deficiência”, diz o cuidador e veterinário – profissão que abraça há mais de 10 anos.

“Toca-me especialmente quando um animal destes, especial, encontra uma família especial que tem o altruísmo de mudar aquela vida. Tocam-me pessoas que tenham empatia por animais mais tímidos, difíceis de conquistar, mas que mais tarde darão amor a triplicar”.

Olhando para trás, Mário diz que faria tudo igual. “Sinceramente, não mudaria nada do que fiz ou sou. Gostava de ter mais mãos e ajudas para poder fazer mais e esse é o meu objetivo. Até porque não sou eterno e aflige-me muito pensar num futuro em que algo me aconteça e não saber o que será dos animais que protegemos”.

E como se vê daqui a 10 anos? “Vejo-me mais cansado. Careca não, porque já o sou (risos)”. A verdade é que se vê a fazer o mesmo, “porque com o passar dos anos não tenho visto nenhuma mudança positiva em termos de abandono, maus tratos e bem-estar”.

“Foram implementadas muitas leis mas continuamos a viver, em muitos locais de Portugal, com mentes do século passado. E precisamos de mais mentes boas para mudar o que está mal”, remata.

Mário é uma dessas mentes boas. Percorra a galeria para conhecer o seu Refúgio e alguns dos animais que ali habitam.

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