Animais

Marisa tem uma missão com os animais — ajudou mais de 300 num ano

A protetora em Estarreja faz o impossível para ajudar cães, gatos, suínos e qualquer outra espécie que se cruza no seu caminho.
Tem 48 anos.

Marisa Lopes cresceu a ouvir ralhetes. Ainda miúda, saltava para o curral de uma porca que os seus pais criavam na altura para lhe fazer “mimos na barriga”. Não importava quantas vezes ouvia a mãe dizer que a suína iria mordê-la, a jovem continuava a fazer aquilo que mais gostava — estar ao pé dos animais. E a verdade é que nunca foi atacada.

“O que é certo é que a porca adorava os mimos e nunca fez por me morder”, garante à PiT a protetora de 48 anos. Se não bastassem as discussões sobre a companheira, sempre que chegava da escola, também soltava os cães da família que ficavam presos a cadeado. “Muitas vezes, o entusiasmo era tanto que estragavam os cultivos do quintal. Já nessa altura, não achava justo viverem aprisionados, a cumprir uma prisão de algo que não fizeram”, recorda.

Hoje, não é uma surpresa que a vida tenha acabado por levá-la pelo caminho da causa animal — conta com 15 anos de experiência. Embora trabalhe na área da saúde humana para pagar as contas diárias, no tempo restante dedica-se àqueles que mais precisam através da Faça Acontecer Associação CÃOamor, fundada em 2015 no concelho de Estarreja, onde vive com o marido, o filho de 24 anos, um cão e cinco gatos.

No início, chegou a juntar 11 pessoas só para conseguir constituir a associação, mas todo o trabalho inerente era orientado apenas pela fundadora. Mais tarde, começou a contar com a ajuda de duas amigas, que acolhiam cães e gatos que precisavam como família de acolhimento temporário (FAT).

No ano de 2023, conta-nos que mais de 300 animais passaram pela associação, entre ninhadas, animais adultos, de matilhas e colónias. E o número converte-se em despesas que ultrapassaram os 13 mil euros. “Sou uma pessoa que gosta de transparência e achei por bem criar uma associação para que pudesse pedir donativos e conseguir ajudar todos os animais que me surgiam no caminho e aqueles que me pediam ajuda”, partilha. 

Com Lobita, a primeira cadela que salvou, em 2010.

O primeiro resgate foi uma família inteira

A causa animal é repleta de momentos dramáticos que partem o coração dos mais sensíveis, e no primeiro resgate de Marisa Lopes, quando ainda nem pensava em constituir uma associação, não foi diferente. A protetora recorda-se ainda hoje da história de Lobita, uma cadela de porte médio abandonada num pinhal, onde teve duas ninhadas — a primeira foi morta e a segunda, teve a sorte de cruzar o caminho da voluntária.

“Alguém me alertou para a situação e pediu ajuda para resgatar esta família”, recorda à PiT. Naquele dia, foi para casa com a cadela e as suas oito crias. “Felizmente consegui resgatá-los e consegui boas famílias para todos os cachorros. A mãe foi acolhida na altura na associação onde fazia voluntariado, fiz peditório de donativos entre amigos para a esterilizar e depois consegui através de uma amiga adoção na Alemanha”.

As alegrias e os finais felizes, no entanto, não são uma constante. Ao longo de mais de uma década e meia a resgatar aqueles que mais precisam, a protetora confessa que são muitas as histórias que não consegue esquecer. Gatos com cancro e com partes do corpo desfeitas, cães resgatados com coleiras cravadas de baixo da pele, gatos-bebés com as patas cortadas após as queimarem nos motores de carro, animais completamente esqueléticos e mais uns tantos casos que não chegam ao fim.

Entre estes, há aqueles mais traumáticos, como é o caso de Lobito, um cão de matilha que Marisa acompanhava há mais de dez anos. O patudo contraiu sarna e durante muito tempo, não se deixou apanhar para receber o tratamento. Quando foi finalmente capturado, já não havia nada que se podia fazer para o ajudar.

“Já tinha a sarna num estado muito avançado, quase não tinha pelo, feridas abertas de sangue por todo o corpo, patas muito inchadas e a sangrar, tinha os rins a entrar em falência e um tumor na boca”, aponta. “Tive que tomar a decisão juntamente com o nosso veterinário de o eutanasiar. O olhar aterrorizado e o cheiro a sarna e sangue guardo ainda hoje comigo”. 

Lobito quando foi capturado.

Pelas mãos de Marisa, não passam só cães e gatos. Há dez anos, a protetora salvou Santiago, um porco vietnamita, da morte. “Ele viveu livre e feliz em minha casa, foi criado com muito amor e carinho, passeava à trela como um cão e agia como tal”, diz. “Sempre que os cães iam ladrar ao portão, lá ia o porco atrás a roncar”.

Mais nova, também ajudava as vitelas criadas pela mãe. “Era eu que ia para o curral com o balde cheio de ‘bobileite’ dar-lhes de mamar”, partilha. “Metia o dedo na boca delas e elas mamavam o leitinho todo”, recorda. Também teve um cabrito bebé, que era tratado como um animal de companhia e até andava à trela.

“Desde que me conheço como gente, tenho um carinho muito especial por animais, independentemente da sua espécie”, frisa. “Cheguei também a ter uma coelha branca. Era adolescente e numa festa andava um rapaz bêbedo, com ela amarrada por um fio, como um cão. Ela já tinha uma ferida enorme de sangue por ser arrastada. Acabei por convencer ele a vender-me e ela viveu imensos anos connosco. Foi muito feliz”.

O contacto com a causa animal começou quando em 2008 decidiu fazer voluntariado numa associação perto de onde morava. Na altura, fazia passeios com cães e limpava boxes. Mais tarde, começou ainda a ajudar nos tratamentos de animais doentes e feridos. Dois anos mais tarde, em 2010, avançou com os resgates a título particular.

Hoje, o que mais a preocupa são os abandonos, que estão “cada vez mais elevados”. À lista, acrescenta também a falta de pôr em prática a legislação que envolve os animais. “Ninguém controla se o animal tem microchip, vacina da raiva…”, lamenta. “Havia de haver uma lei que obrigasse a esterilização de todos os animais que não fossem para procriar. Para os que fossem, deviam ser cobradas taxas por cada animal e por cada ninhada, como acontece noutros países”.

Já para os animais errantes, como vários outros na área animal, a voluntária gostaria que fosse permitido o CED (Captura, Esterilização e Devolução) nas matilhas de cães — a intervenção só é autorizada por lei nas colónias de gatos.

Mesmo com todos os desafios que a causa ainda tem para ultrapassar, Marisa tem orgulho do trabalho que faz lado a lado daqueles que mais precisam.  A associação que fundou vive de donativos, sócios, vendas em feiras e através da Internet, artigos doados, sorteios e um subsidio que conseguiu há poucos anos da Câmara Municipal de Estarreja.

Para ajudar a missão que Marisa assumiu com os animais, pode fazer donativos à Faça Acontecer Associação CÃOamor através do Nib (0045 3040 40273243963 97) ou IBAN (PT50-0045 3040 4027 3243 9639 7).

A seguir, carregue na galeria para ver alguns das centenas de animais já ajudados pela protetora. Pode acompanhar o seu trabalho na sua página de Facebook.

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