Matilde trabalhou no campo durante 30 anos. Foi salva, mas os maus-tratos ficaram

A mula vive no santuário Save and Care, em Palmela, onde aprendeu a confiar em humanos depois de ser maltratada.

O passado de Matilde não é conhecido com detalhes — a certeza que existe, porém, é que durante três décadas foi utilizada para trabalhar e sofreu maus tratos. A vida desta mula mudou quando foi acolhida por um santuário, e depois recebida pelo Save and Care, onde viverá o tempo que lhe resta com promessas de amor e respeito, graças às quais já aprendeu a confiar em humanos.

Alice Basílico, responsável pelo espaço em Palmela, Setúbal, explica à PiT a urgência em expor histórias como a de Matilde, num momento em que o papel dos animais de trabalho é tão discutido. “Todos eles têm vidas muito sofridas”, lamenta.

Matilde vive com a equipa do Save and Care há quatro anos, tendo chegado de outro santuário pouco antes de este fechar. Antes disso, conta Alice, não se sabe ao certo por onde andou, apesar de a cuidadora acreditar que tenha vivido na zona de Palmela. “A pessoa que a salvou contou que ela viveu sempre no campo para trabalho, e ficou com pena do estado em que ela estava. Pediu ao explorador para a comprar e como ela já era velhota e já não devia prestar grande serviço, ele vendeu-a”, adianta.

A ativista dos direitos dos animais conta que a mula chegou “com muitos traumas”, evidenciados tanto pelo comportamento como pelo estado do corpo, que “não absorve bem a comida”. “Mesmo que ela coma muito não engorda, por isso pensamos que tenha tido falta de alimento”, avança.

Quando Matilde chegou ao santuário “tinha muito medo de homens”. “Via-os à distância e fugia logo”, comenta Alice. Além disso, “tinha muito medo de estar fechada. Mesmo no inverno, preferia estar à chuva torrencial do que abrigada”. Quatro anos depois, o trauma deu lugar à confiança, e a equídea “já procura o espaço dela e já não foge de homens”, mas mantém um dos reflexos com que chegou, desviando a cabeça sempre que é tocada acima dos olhos. “Levou muita pancada na cabeça, certamente”, afirma a tratadora.

Alice comenta que a personalidade da mula floresceu. Depois de 30 anos de trauma, relaciona-se bem com outros animais, é muito carinhosa e “adora crianças”. Contudo, existe uma “tristeza que fica sempre”. “Por mais que lhe demos, ela tem sempre um ar como se carregasse o mundo às costas”.

Com a idade avançada, Matilde “já está a precisar de suplementos e terapias especializadas”, para as quais o grupo procura especialistas, uma vez que “nem todos têm os conhecimentos necessários”. Este inverno, a híbrida receberá ainda novas capas e proteções para ficar mais quentinha durante os dias frios, graças à ajuda que os apoiantes do santuário enviaram.

Carregue na galeria para conhecer a Matilde.

ARTIGOS RECOMENDADOS