Animais

Miguel Sousa Tavares arrasado por dizer que cavalo deitado “está doente ou morto”

O comentador da TVI desdenhou da Provedora do Animal, por Laurentina Pedroso defender direitos dos cavalos, e acabou arrasado.
São muito inteligentes.

As declarações jocosas de Miguel Sousa Tavares sobre cavalos, proferidas quinta-feira à noite na TVI, estão a gerar uma onda de indignação e de crítica por parte dos defensores da causa animal. O jornalista é acusado de ser “isensível” e o PAN chega mesma a dizer que o comentador “nem calado era um poeta”.

Em causa estão as declarações de Miguel Sousa Tavares sobre os cavalos, feitas na sequência de uma entrevista à SIC da Provedora do Animal, em que Laurentina Pedroso defende a necessidade de proibir carruagens de cavalos de atrelagem em atividades turísticas nos meios urbanos.

“Nunca vi um cavalo sentado. E cavalos deitados estão mortos ou estão doentes”. São estas as palavras de Miguel Sousa Tavares – ditas no seu espaço de análise “5.ª Coluna”, na última quinta-feira, no “Jornal Nacional” da TVI – que estão a revoltar a causa animal e a gerar muitas críticas ao comentador.

MST proferiu estas declarações depois de desdenhar da Provedora do Animal, que voltou a realçar a não existência de regulamentação que proteja os animais, e a necessidade de proibir carruagens de cavalos de atrelagem em atividades turísticas nos meios urbanos. “Talvez porque ninguém se lembra que ela existe, teve de fazer prova de vida”, disse Miguel Sousa Tavares sobre Laurentina Pedroso.

As reações não se fizeram esperar e o comentador televisivo – que é também cronista do “Expresso” e do “Record”, bem como autor de vários livros – tem muitos dedos apontados por parte de ativistas e amantes dos animais.

“Nem calado era um poeta”, diz o PAN

“Das touradas, à caça ou aos passeios turísticos, a insensibilidade de Miguel Sousa Tavares para com o bem-estar animal já é mais do que conhecida. Na passada legislatura o @partido_pan propôs a reconversão do uso de animais como os cavalos como tração e a substituição por veículos elétricos. Não desistimos, nem nos demovemos e vamos apresentar uma nova iniciativa nesse mesmo sentido. Mas mais uma vez é caso para dizer que nem calado era poeta”, escreveu a porta-voz do Partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN), Inês Sousa Real, na sua conta de Instagram.

Miguel Sousa Tavares
Os cavalos são naturalmente curiosos.

O próprio PAN fez também uma publicação a este propósito. “Em direto, na TVI, Miguel Sousa Tavares diz que ‘cavalos deitados, ou estão mortos, ou estão doentes’, e ridiculariza a proposta para o fim das charretes puxadas por cavalos. Toda a gente sabe que os cavalos também dormem deitados”. E continua: “Toda a gente sabe o esforço a que estes animais são submetidos diariamente, incluindo em dias de forte calor. Toda a gente menos Miguel Sousa Tavares”.

“Miguel Sousa Tavares não sabe o que é o bem-estar animal, mas estamos cá para o relembrar. O PAN apresentou já várias iniciativas para a reconversão desta atividade e vamos voltar a levar o tema à Assembleia da República. Contamos contigo para apoiares esta causa e dares força a esta iniciativa, os animais precisam de ti”, remata.

No Facebook, Bebiana Cunha – ex-líder parlamentar do PAN e que faz parte da comissão política nacional do partido – preferiu reagir com a partilha de um vídeo onde se vê um cavalo satisfeito a rebolar-se na terra, como os cães, e a optar depois por se manter deitado.

IRA também se insurge e José Alberto Carvalho não fica de fora

O grupo Intervenção e Resgate Animal (IRA) também não ficou alheio às declarações de Miguel Sousa Tavares e fez uma publicação – assinada pelo próprio presidente, Tomás Pires – sobre a polémica do momento na causa animal. “(…) Semelhante à verborreia proferida anteriormente, em que dizia que os Dobermann só servem para atacar, ontem afirmou que um cavalo quando está deitado é porque está morto ou doente”, aponta.

“Os cavalos também dormem deitados quando sentem que estão seguros. Os cavalos que dormem de pé estão preparados para a fuga na eventualidade de alguma ameaça, caro MST. E a preocupação com o bem-estar dos animais não deve ser motivo de gargalhada entre si e o José [Alberto] Carvalho em horário nobre no telejornal, como se de dois burgessos sentados na tasca se tratasse. Principalmente quando existem casos graves de animais que sucumbem ao calor e exaustão, ou quando se ferem por desorientação no meio do trânsito de uma cidade intensa para entretenimento turístico”, sublinha Tomás Pires.

O “pivot” José Alberto Carvalho, que foi quem esteve à conversa com Miguel Sousa Tavares neste espaço de análise da TVI e que se riu várias vezes com os comentários proferidos, tem também sido alvo de críticas por isso mesmo.

A publicação do presidente do IRA prossegue: “A zoofilia existe em Portugal, sabia? O que se calhar o MST não sabe é que a zoofilia não é crime, exceto quando é provado que causa sofrimento ou ferimentos ao animal vítima do ato sexual pelo humano. Pois….se calhar isto não interessa que a população saiba”. “O que se calhar o MST também não sabe é que o aprisionamento dos animais está sujeito a normas, sendo que em 90% dos casos de animais acorrentados essas normas não são cumpridas”.

Miguel Sousa Tavares
Nunca se esquecem de quem lhes faz bem.

“Fique a saber que há pessoas que dão a vida pelos seus animais”

“Antes de tentar ridicularizar e minimizar o tema do bem-estar animal, comparando-o à imigração e saúde no país, fique a saber que há pessoas que dão a vida pelos seus animais. Portanto, Miguel e José, se querem fazer humor com alguma notícia, peguem naquela em que o Estado gastou 75.000€ a transformar o logótipo da República portuguesa num ovo estrelado, em vez de os doar a uma associação zoófila que diariamente substitui o Estado nas suas (in)competências e que dariam para umas largas centenas de salvamentos ou tratamentos veterinários, ou para ajudar famílias carenciadas”, remata a publicação.

Na sua intervenção, Miguel Sousa Tavares ridicularizou algumas propostas de Laurentina Pedroso para o bem-estar dos cavalos de trabalho. “Fala em quatro semanas de ferias para os cavalos e um dia de folga por semana e não falou com o sindicato dos cavalos. Acho que a seguir vai propor a mesma medida para os carros de bois. Isto vai generalizar-se”, disse.

O comentador apontou também baterias contra o PAN. “Não contente com isto, também temos uma proposta do PAN (…), que, segundo o Conselho Superior de Magistratura [CSM], é igualzinha. Propõe penalizar de seis meses a dois anos pessoas que façam coisas a animais de companhia e não só. O CSM diz que isto é igualíssimo à penalização para as pessoas que façam mal umas às outras”.

“Liberdade para os periquitos?”, questiona MST em tom jocoso

“Propõe o PAN, por exemplo, penalizar ofensas ao corpo ou à saúde dos animais, privação total da liberdade e ofensas sexuais aos animais. Diz o CSM, e com razão: já não se pode fechar um cão num canil, uma galinha num galinheiro, um coelho numa coelheira? E eu acrescento: liberdade para os periquitos? Soltem as ovelhas? E sobre as ofensas sexuais, pergunta o CSM: ‘estamos a falar de zoofilia ou estamos a propor proibir o acasalamento para reprodução dos animais?’ Acho que entrámos  no domínio da paranóia”, acrescenta Miguel Sousa Tavares.

O jornalista deixa ainda uma pergunta no ar, voltando a falar em paranóia com os animais. “E eu pergunto: para que é que precisamos de um Provedor do Animal? Porque é que não temos um provedor para os trabalhadores imigrantes, para os contribuintes, para os doentes? Estamos a entrar numa tal paranóia do politicamente correto que os animais têm mais direitos do que as pessoas”, rematou.

Recorde-se que Laurentina Pedroso, a propósito do uso de cavalos em atividades turísticas nas cidades, elaborou com um grupo de especialistas um Código de Boas Práticas para a Proteção do Bem-Estar e Saúde destes animais que se pretende que seja implementado de imediato pelos municípios e se mantenha durante o período de transição. O Código limita o número de horas de trabalho diário e semanal, o número de passageiros permitidos na carruagem, cria períodos de descanso obrigatórios, impede o trabalho com temperaturas superiores a 35 graus e alerta laranja de poluição/qualidade de ar nas cidades, entre muitas outras.

São vários os casos, nos últimos anos, de cavalos que ficam feridos ou morrem no decurso de atividades em que são usados para entretenimento turístico ou no cumprimento de tradições cruéis.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA PiT