Animais

Morreu a protetora animal Zulmira Marinho. “Até sempre, incrível Miró”

Criou a primeira associação de proteção animal do Alto Minho. Uma voz incansável que se apagou quinta-feira. Tinha 73 anos
Miró fundou a ALAAR.

Na causa animal, como em qualquer outro quadrante da sociedade, também há desavenças e disputas, pontos de vista diferentes e acesos debates sobre as mais variadas questões. Mas há algo que une todos numa só voz, sem desacordos ou ressentimentos: a morte de um protetor. Quando um protetor da causa animal parte, por momentos termina o ruído de qualquer discórdia e faz-se silêncio em honra de uma pessoa boa. Foi assim que associações e cuidadores se fizeram presentes nesta quinta-feira, 7 de março, após o anúncio da morte de Zulmira Marinho, presidente da Associação Limiana dos Amigos dos Animais de Rua – ALAAR.

Zulmira – carinhosamente tratada por Miró pelos seus mais próximos, e cuja história demos a conhecer em janeiro do ano passado – era uma figura incontornável na defesa dos animais. Quando deu a entrevista à PiT, com 72 anos e já aposentada, continuava a abraçar a causa animal com a mesma determinação com que tinha criado, 20 anos antes, a ALAAR. E nem uma doença grave a impedia de prosseguir, porque era precisamente no meio de caudas e bigodes que lavava a alma e se sentia mais feliz. Partiu agora, um ano depois, deixando muitas saudades e um legado que não será esquecido.

“Temos o aviso mais triste a ser feito: a partida da nossa espantosa Zulmira Marinho, dedicada Miró para muitos, presidente desta casa bonita, o primeiro (e grande) sopro da ALAAR”, comunicou a associação limiana numa publicação com o título “até na morte o amor floresce”.

O post prossegue: “Estamos ainda de coração turvo, mas também tão certos da enormidade que terá sido viver e celebrar todas as vitórias e superar tantos desafios com a coragem, generosidade e determinação da sempre Miró. Teremos no seu amor pela vida a nossa inspiração e, com todos os braços dos voluntários preciosos, tentaremos dar continuidade a um sonho que, entre avanços e milagres, tanto se ampliou. O que veio a ser feito pelos direitos dos animais é um campo florido em chão de pedra – tanta a beleza da bravura e dos mais pequenos triunfos”.

“A tristeza é inevitável. Mas também a certeza de que até na morte o amor floresce. Não é adeus, incrível Miró. É até sempre. Porque continuará entre nós”, remata a publicação, que estende o seu abraço de conforto “a todos os que têm feito parte deste caminho”.

Multiplicam-se as homenagens a Zulmira

Nas redes sociais sucedem-se as homenagens a Zulmira Marinho, entre muitos admiradores do seu trabalho, protetores e associações de todas as zonas do país. “Foi uma grande Senhora, que o seu legado seja uma inspiração a todos nós”, escreveu Nelson Silva. “A causa animal ficou mais pobre. Fica o legado”, sublinhou Manuela Coelho Torres.

“Merece um lugar no céu, onde estará, se o houver. Todos os animais que se atravessaram no seu caminho foram ajudados até encontrarem quem os merecesse. Sempre praticou o bem em prol dos animais. É um ser humano inesquecível e se Ponte de Lima é um marco na proteção animal deve-o a ela, que sempre lutou contra tudo e todos para os defender. Fica para sempre no meu coração”, realçou, por seu lado, Paula Venâncio. “Será sepultada no dia que mais a define. Que seja um dia com muita luz. Obrigada, D. Zulmira”, afirmou ainda Conceição Brandão, aludindo ao facto de o seu funeral se realizar no Dia Internacional da Mulher.

O Giara – Grupo de intervenção, adoção e resgate animal – também deixou o seu tributo a esta protetora de quem todos gostavam. “Reconhecemos o seu compromisso incansável com a causa animal, que transformou mentalidades e inspirou comunidades inteiras. Como protetora da causa animal, sempre tão visionária, empenhada e apaixonada, ela deixou um legado de compaixão e dedicação que continuará a orientar as nossas próprias missões em prol dos animais. Que a sua memória seja uma fonte de inspiração e força, e que possamos honrar o seu legado através do nosso contínuo trabalho em defesa dos que não têm voz. Saiba que o seu legado e dedicação incansável serão lembrado com gratidão e carinho”.

Zulmira Marinho inspirou muitas pessoas. “A senhora que me colocou o ‘bixinho’ dos animais há 24 anos partiu. Um exemplo de dedicação à causa. Mais um anjo a olhar por eles, onde quer que esteja”, publicou um dos responsáveis da associação Resgate Adoção Viana (RAV), de Viana do Castelo, num post no Facebook.

“A causa animal ficou mais pobre. Precisávamos de mais pessoas assim e não de perder os poucos que restam. Os nossos sentimentos à família humana e não humana. Até sempre, D. Zulmira”, escreveu a Streetdogs – Associação de Proteção Animal, sediada em Barcelos.

Zulmira
Em 2015. na apresentação do livro “Anda, vamos salvar os animais de rua!”

O amor de Zulmira Marinho pelos animais

Desde sempre apaixonada por animais, Zulmira compadecia-se por todos os que encontrava na rua. E quando ainda trabalhava, como técnica superior na Escola Superior Agrária, costumava ajudar os patudos que por lá surgiam. “Apareciam por lá muitos cães, sobretudo abandonados por caçadores, e eu e outro rapaz que lá estudava ajudávamo-los”, contou à PiT. Mas sentia que precisava de algo mais.

Alguns anos depois, Zulmira percebeu o que lhe faltava: uma dedicação a tempo inteiro aos animais. “Reformei-me aos 52 anos, mas sabia que não poderia ficar metida em casa, não aguentaria estar parada. E queria fazer algo de que gostasse muito. Andava a pensar no que gostaria de fazer, quando vi uma série de cães atrás de uma cadela com cio e pensei: ‘tenho de criar uma associação para ajudar os animais’”, relatou então.

Zulmira mexeu-se de imediato. “Falei com o presidente da Câmara Municipal, que achou ótima ideia a criação da associação, mas alertando que teríamos de subsistir pelos nossos próprios meios. Mas arranjaram-nos um local para montar o abrigo, o que foi uma grande ajuda”, explicou. Estavam assim criadas as bases para a ALAAR.

A primeira associação do Alto Minho

Zulmira dizia com orgulho que a ALAAR tinha sido a primeira associação no Alto Minho. “Convidei pessoas para fazerem parte, que acederam porque era preciso haver elementos para criar a associação, e tratei de tudo o resto”. Essas pessoas já não fazem hoje parte da ALAAR, que ganhou novos elementos de garra e sempre na fila da frente para resgatar e cuidar. São os preciosos voluntários, de coração gigante, que disponibilizam o seu tempo para cuidar e dar amor e carinho a estes animais, que ajudam a que o projeto continue a crescer e que continuarão o legado da sua fundadora.

Sobre os conselhos que Zulmira daria a que pretendia adotar, foi muito clara: “Os animais precisam é de ser acarinhados, bem tratados, e terem as vacinas em dia. O que eles precisam é de muito amor e companhia”.

“Eles aqui são muito bem tratados, mas se puderem ir para uma família têm mais conforto. Temos muitos velhinhos e isto é muito frio no inverno”, explicou então a protetora, sublinhando que, naqueles 20 anos de existência, muitos encontraram esse conforto, pois a ALAAR tinha já entregue para adoção aproximadamente 1.600 cães e gatos abandonados.

Zulmira lutou durante 12 anos contra um angiossarcoma e os animais ajudaram-na muito em todo o processo. “Estou doente, com um cancro de pele raro, que é reincidente, e desde 2015 que faço quimioterapia. São sete anos de tratamentos e já fiz sete cirurgias no IPO do Porto. A ALAAR ajuda-me muito porque estou envolvida em projetos e tenho o foco nos animais. Isso tem-me ajudado a superar estes momentos menos bons”, confidenciou à PiT em janeiro de 2023.

Era por isso que Zulmira, que se afirmava como uma mulher de fé, considerava que a associação que fundou tinha um toque divino. “Costumo dizer que a ALAAR é uma associação abençoada por Deus e bonita por natureza, como diz a canção”.

Percorra a galeria de fotos, muitas delas pela lente da fotógrafa Michele Hasselti, para conhecer melhor Maria Zulmira Marinho – a querida Miró –, a associação que fundou e alguns dos animais que ali residem. E se puder, ajude a ALAAR e adote um dos seus animais – que melhor homenagem lhe pode ser feita?

ver galeria

ÚLTIMOS ARTIGOS DA PiT