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Mundial de Eusébio começou com polémica: a taça foi roubada e encontrada por um cão

Enquanto as autoridades reviravam Inglaterra em 1966, o mix de Border Collie Pickles encontrava a taça num passeio com o dono.
O cão morreu no ano seguinte.

O Mundial de 1966, em Inglaterra, entrou para a história antes mesmo de começar. Em março, cerca de quatro meses antes do seu início, a Taça Jules Rimet, o nome dado ao troféu para premiar a seleção vencedora, foi colocada em exposição no Central Hall Westminster, um centro de eventos em Londres. Dois dias depois, desapareceu.

Já lá vão mais de cinco décadas desde o ocorrido, mas como exatamente aconteceu continua um mistério. Sabe-se que na mesma altura, um evento religioso estava a acontecer no local e a distração dos quatro guardas foi suficiente para o sucesso do roubo.

O que não faltam, porém, são reviravoltas na história. Segundo o historiador Martin Atherton, citado pelo “The Washington Post”, poucos dias após o acontecimento, Joe Mears, presidente da Federação Inglesa de Futebol (FA, sigla em inglês), recebeu uma encomenda. Nela, estava uma parte do troféu e uma carta, assinada por “Jackson”, a pedir uma recompensa de 15 mil euros. Se o presidente contactasse a polícia ou os jornalistas, Jackson derreteria a Taça.

Apesar da ameaça, o presidente contactou as autoridades. Juntos, agendaram um encontro com Jackson, com uma mala de dinheiro falso e um polícia à paisana, que sob o nome de McPhee e a fingir ser o secretário de Joe, partiu para o encontro com o suposto criminoso. Quando lá chegou, Jackson disse que não tinha a Taça e que a dupla precisaria dirigir por cerca de 15 minutos até o sítio onde esta estava. No entanto, durante a viagem, o “ladrão” apercebeu-se de uma carrinha a seguí-los e saltou para fora do carro, sendo preso no local.

Na esquadra, o seu nome verdadeiro foi descoberto: Edward Betchley. Contudo, o criminoso declarou-se inocente e jurou não ter roubado o troféu, afirmando que havia recebido cerca de 500 euros de um homem chamado Pole para ser um intermediário. Mais uma vez sem pistas, as autoridades reviraram o país a procura de um suspeito.

Com medo de que o trofeu não fosse encontrado, a FA começou a confecionar um novo em segredo. Uma semana após o roubo, a 27 de março de 1966, quando as esperanças já estavam perdidas, um novo herói (de quatro patas) entrou em ação. David Corbett e o seu cão Pickles, um mix de Border Collie de quatro anos, saíram para um passeio noturno. Na altura não existia telemóveis e o tutor precisava fazer uma chamada ao seu irmão que estava prestes a ser pai.

Após concluir a conversar e chamar por Pickles, que estava solto nos arredores, David percebeu que o cão não veio ao seu encontro. “Fui ter com ele, reparei que estava a cheirar um embrulho de jornal”, contou ao “MaisFutebol”. “Espreitei para ver o que era e saltou-me à vista as inscrições de Uruguai, Brasil, Alemanha… Oh meus Deus, é a Taça do Mundo!”

David e Pickles.

De uma vida normal a herói mundial

Além do roubo da Taça, o Mundial de 1966 contou com acontecimentos inéditos, entre os quais se destacam a primeira vitória de Inglaterra e o terceiro lugar de Portugal. E claro, tornou Pickles o cão mais famoso do desporto. O patudo participou de programas de televisão, foi convidado para ir ao Brasil, ao Chile e à Alemanha, e até para “encenar” num filme de comédia. A pressão foi tanta que o cão entrou de baixa, e durante seis meses esteve de quarentena.

No ano seguinte, em 1967, Pickles morreu de forma trágica. “Andava a passear com o meu filho mais velho, que tinha na altura cinco ou seis anos. Começou a correr atrás de um gato e fugiu-lhe. Procurei-o durante mais de vinte minutos, até que o encontrei morto. O gato tinha subido a uma árvore, a coleira ficou presa num ramo e ele sufocou”, recordou o tutor.

Apesar da morte precoce, Pickles entrou para a história e despediu-se do mundo como um verdadeiro herói. “Enterrei-o na parte de trás do quintal da casa onde ainda vivo. Às vezes as pessoas ligam-me a perguntar se ele ainda é vivo. Como é possível? Depois disso tive outros cães, mas nenhum substituiu o Pickles. Era especial”, concluiu.

Edward Betchley foi condenado a sentenças simultâneas de dois anos por exigir dinheiro com ameaças com intenção de roubar. Três anos depois, morreu vítima de uma enfisema pulmonar. O verdadeiro autor do roubo, Sidney Cugullere, só foi descoberto em 2018 graças à Tom Pettifor, um jornalista de investigação criminal.

Percorra a galeria para relembrar Pickles, o cão herói.

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