Animais

Novo canil da Póvoa de Lanhoso está em risco. Apoios do ICNF poderão perder-se

PSD suspendeu construção do novo espaço e associação CAPA apela à população que se manifeste. Abrigo atual “não tem condições”.

Um pouco por todo o país, as muitas associações da causa animal que lutam diariamente para proteger os patudos de ninguém veem-se constantemente a braços com dificuldades para conseguirem levar a sua missão a bom porto. A maioria não dispõe de apoios públicos, contando com a boa vontade de quem acredita nos seus projetos para poder pagar as muitas despesas, entre faturas veterinárias, alimentação, tratamentos e manutenção dos abrigos. Por isso, quando surge um espaço que pode mudar para muito melhor as condições em que os animais vivem, esse é um momento de grande alegria para todos os voluntários. Foi o que aconteceu ao CAPA – Clube de Adopção e Protecção de Animais da Póvoa de Lanhoso, no distrito de Braga. Mas agora tudo parece ter caído por terra.

“No ano passado, um simpático casal residente na Póvoa de Lanhoso cedeu gentilmente um terreno, equivalente a sete campos de futebol, à Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, para a construção de um novo espaço de recolha de animais errantes”, explica à PiT uma voluntária. Foi uma grande alegria, dado que as atuais instalações do CAPA não têm quaisquer condições dignas para os animais.

E se pudesse haver dúvidas quanto ao local, pelo facto de poder incomodar a vizinhança, essa questão nem se coloca, consideram as protetoras e a Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso. Isto porque o novo terreno fica a menos de 500 metros do atual e tem a localização ideal. “De um lado há um terreno que não tem permissão para realizar trabalhos de construção para habitação, do outro lado tem o rio. Por isso, a construção de um novo canil não iria perturbar ninguém a nível de barulho e seriam criadas novas condições de salubridade e higiene pública”, refere a mesma voluntária.

Após a doação deste terreno para a construção do novo canil/gatil municipal da Póvoa de Lanhoso, onde o CAPA também teria os seus animais, o município candidatou-se aos apoios e incentivos financeiros para programas de bem-estar animal atribuídos pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e conseguiu luz verde financeira para o projeto. Alegria total. No entanto, esse mesmo projeto está agora em risco, podendo o apoio financeiro do ICNF vir a perder-se.

Póvoa de Lanhoso
Espaço atual está muito degradado.

PSD quer realização de assembleia extraordinária

O que acontece é que o PSD votou contra, na Assembleia Municipal de 25 de junho, por considerar que tem de se realizar uma assembleia extraordinária para que todos os munícipes se manifestem. Num esclarecimento público, o PSD da Póvoa de Lanhoso “exige ao executivo da Câmara Municipal que faça o que deveria ter feito há mais de um ano: ouvir a população de Mirão e Moinhos Novos quanto à proposta de localização do novo canil/gatil”. E reforça: “O PSD da Póvoa de Lanhoso não está contra a construção de um novo canil/gatil (Centro de Recolha de Animais) no concelho da Póvoa de Lanhoso”.

Em comunicado divulgado em vídeo, Luís Carvalho, presidente da Comissão Política do PSD da Póvoa de Lanhoso, diz que “o PSD é a favor da construção de um novo canil e gatil municipal na Póvoa de Lanhoso” e acusa a câmara e o PS de estarem “a levar a cabo uma campanha de desinformação da opinião pública, aproveitando-se de uma causa que nos sensibiliza a todos: a causa dos direitos dos animais”.

“O PSD pediu que este assunto fosse debatido numa Assembleia Municipal extraordinária, realizada com a maior prioridade possível, porque entendemos que deviam ter sido ouvidas as instituições, nomeadamente a junta de freguesia da Póvoa de Lanhoso, a junta de freguesia de Galegos, bem como a população da zona envolvente à localização proposta para a construção deste novo canil e gatil municipal: Moinhos Novos e Mirão. Somos defensores dos direitos dos animais, mas entendemos que os direitos das pessoas não poderão ser esquecidos”, salienta Luís Carvalho.

PS diz estar a tentar encontrar uma solução

Também o presidente da câmara (PS), Frederico Castro, já se pronunciou sobre o tema. E com um entendimento diferente. Num vídeo divulgado nas redes sociais, salienta que “o executivo municipal definiu desde o início destes mandato que um dos objetivos – que fazem parte inclusive do nosso compromisso eleitoral – seria trazer à luz do dia um  novo canil e um novo gatil” e que “apesar deste bloqueio provocado pela atual maioria na Assembleia Municipal, a câmara está já a trabalhar para encontrar uma solução que permita resolver um problema que tem décadas e que evite a devolução do financiamento de mais de 200 mil euros conseguido pela autarquia”.

Póvoa de Lanhoso
Animais sonham com mais liberdade para correrem.

“Temos trabalhado nesse sentido. Temos assumido compromissos com a comunidade nesse sentido. Conseguimos que um casal de povoenses doasse uma parcela de terreno num local muito próximo onde está localizado o atual canil da Póvoa de Lanhoso [onde funciona o abrigo do CAPA]. Conseguimos aprovar uma candidatura no ICNF que vai – ou que iria – financiar uma parte do canil que pretendíamos edificar e levámos uma declaração de interesse público à câmara e à Assembleia Municipal para que aquele espaço pudesse ser usado para edificarmos o novo futuro canil/gatil da Póvoa de Lanhoso”, elenca Frederico Castro.

O presidente da câmara prossegue: “Fomos surpreendidos na Assembleia Municipal do mês de junho com uma força de bloqueio, uma oposição a este projeto, com argumentos que ninguém consegue compreender. É fundamental que consigamos concretizar este projeto até ao final de 2024, sob pena de termos de devolver os fundos que o ICNF cedeu aquando da aprovação desta candidatura do município da Póvoa de Lanhoso”.

Novo espaço está a apenas “umas centenas de metros” do atual

“Conseguimos um espaço que teve custo zero para o município, com a benevolência deste casal de povoenses, que revelou uma sensibilidade muito grande para as questões do mundo animal e cedeu gratuitamente um espaço onde pudéssemos edificar esta infraestrutura e onde já existem as infraestruturas necessárias para que este equipamento possa ver a luz do dia. E estamos neste momento com um problema que não devia existir e de termos de continuar com as instalações que não têm as condições necessárias e que herdámos no início deste mandato”, refere ainda Frederico Castro, reiterando que a “deslocalização é de umas centenas de metros em relação ao local onde está o atual canil”.

Na câmara convidam a envidar-se esforços para que este projeto e as verbas que lhe estão destinadas não caiam por terra. E o CAPA apela a toda a população para se também se manifeste nesse sentido e não deixe morrer este sonho. “Havia já um projeto aprovado. Agora, quando estavam prestes a iniciar-se as obras desse mesmo canil, três deputados do PSD votaram contra a construção desse espaço. Neste momento, a construção está suspensa. Os animais, as principais vítimas, vão continuar a (sobre)viver em condições péssimas. Nós somos a voz destes seres indefesos. Queremos que esta vergonha e este surrealismo sejam mostrados a todos os portugueses”, apela à PiT a mesma voluntária.

Póvoa de Lanhoso
Amor não lhes falta. Só precisam de um espaço melhor.

“Não temos quaisquer condições”. Nem para os animais nem para os voluntários

“Sem condições, é assim que estamos. Não há uma única casa de banho. Não há um balneário. Sem condições para aqueles que vêm dar o seu tempo para ajudar as centenas de cães que aqui estão. Sem uma casa de banho para os voluntários. Boxes pequenas, para serem partilhadas por quantos cães lá couberem. Não temos espaço: nem para assegurar guarida aos cães, nem para os estimular e cansar durante o dia”, lamenta a associação. E mais: “Passam o dia nas boxes porque não há espaço para estarem fora delas e correrem livremente. E depois de breves liberdades, voltam a estes espaços pequenos, cheios, desumanos. Até não dar mais. E está a ser complicado conseguir dar mais. Estamos em barracos. Não podemos continuar assim. Precisamos das novas instalações que, prometidas, estavam prontas a avançar. Temos de alterar a decisão que foi tomada. Precisamos de voz”, apelam os protetores.

A associação, criada a 7 de setembro de 2001, alberga centenas de animais que são muito acarinhados e bem cuidados enquanto esperam para serem adotados. No entanto, as instalações onde vivem estão longe das devidas condições e é imperativo que o projeto do novo espaço siga em frente, para que voluntários e patudos possam trabalhar e viver num local digno. Poderá conhecer o abrigo no próximo dia 13 de julho, num evento aberto ao público. É ali que muitos animais, como a Chanel, a Paty e o Rufus, continuam há anos à espera da oportunidade de virem a ter uma família, como aconteceu na semana passada com a doce Tuca. Percorra a galeria e veja as atuais condições do abrigo do CAPA.

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