Animais

“O cão morre?” — O spoiler alert emocional tem um site para os mais susceptíveis

Para muitas pessoas, o facto de um animal morrer num filme é motivo para já não o quererem ver. E há estudos que o provam.
Há quem agradeça aos chamados desmancha-prazeres.

Muitas pessoas — muitas mesmo — ficam perturbadas se algum animal morre durante um filme, especialmente se for um cão. “O cão morre?” é uma pergunta que todas essas pessoas fazem, sendo a única parte do filme em que não se importam de saber de antemão o que vai acontecer. Nestes casos, agradecem o spoiler alert.

E desengane-se quem pensa que este é um não tema. É e bem sério. Diz o “The Wildest” que uma médica destemida – e que é cinturão negro no karaté – descobriu, depois de ser mãe, que não conseguia ver o filme “À procura de Nemo”, uma aventura da Pixar que começa com a mãe e os irmãos de Nemo — todos eles peixes-palhaço — a serem devorados por uma barracuda, só sobrevivendo ele.

Mas por que razão há quem fique tão emocionalmente afetado com a morte de um cão ou outro animal num filme?

Em 2018 já este fenómeno era referido pelo “WyDaily”, a propósito dos filmes nomeados para os Óscares de Hollywood. Das nove longas-metragens nomeadas para o Óscar de Melhor Filme, três cães e um gato morriam; havia três cenas em que alguém dava um pum, vomitava ou cuspia; duas cenas em que havia pessoas queimadas vivas; e duas cenas em que se observava a mutilação de um olho ou dedo.

Adivinhem o que foi mais pesquisado? Isso mesmo. Cenas de animais a morrer perturbam fortemente muitas pessoas — talvez mais do que a maioria imagina.

Num artigo de 2017, intitulado “Porque é que estamos mais dispostos a ver um filme se soubermos que o cão não morre?”, a “Mel Magazine” dizia que a 20th Century Fox tinha tido de assegurar a potenciais espectadores do filme “A montanha entre nós” que o cão não ia morrer. “Não houve grande preocupação em saber se as personagens interpretadas por Idris Elba e Kate Winslet sobreviviam à provação na neve, porque desde que o cão sobrevivesse estava tudo bem”, referia a peça.

A “Mel Magazine” refere que em 2013 a Northeastern University, nos EUA, tinha tentado perceber esta tendência e procurado uma explicação para as reações de pânico de alguns espectadores. A equipa de investigadores analisou a reação de 240 habitantes locais, a quem convidaram a ler – a seleção era aleatória – um de quatro artigos fictícios sobre o espancamento de uma criança de um ano, de um adulto de 30 anos, de um cão bebé e de um cão com seis anos. As histórias eram todas iguais, só mudando a vítima. Depois de lerem as histórias, os participantes no estudo classificaram os seus sentimentos de empatia para com a vítima.

Os resultados foram surpreendentes, pois a vítima que recebeu menos empatia foi o adulto de 30 anos. Um dos autores do estudo, que era professor de sociologia e criminologia, encontrou uma explicação: “os seres humanos adultos são vistos como pessoas capazes de se protegerem a elas mesmas, o que reduz o nível de compaixão para com elas”.

Does the dog die?

Na já longa história do cinema, muitos animais morrem nos filmes, pelo que muitas pessoas ficam preocupadas quando sabem que há uma nova película em cena que tem animais. Até podem querer ver o filme, mas primeiro querem saber se o animal morre.

Esta não é uma tendência que se aplique a meia dúzia de pessoas. Longe disso. Por isso mesmo foi criado um website chamado “Does the dog die”, que é um verdadeiro sucesso de consultas. Apresenta-se como uma plataforma online de “colaboração coletiva sobre spoilers emocionais em filmes, séries de TV, livros e mais” (como vídeojogos, podcasts, etc.) e conta com o contributo de todos os que se registem, para que alertem sobre a morte de animais na ficção.

Nesta plataforma são catalogadas mais de 90 categorias, como “é destruído o brinquedo de uma criança” e “alguém tem um ataque cardíaco”, mas as perguntas sobre o reino animal estão em destaque, logo no topo da página. E há de tudo um pouco nas pesquisas, como “há aranhas”, “há um animal morto”, “há lutas de cães”, “morre uma cobra”, “morre um cão” — um gato, um cavalo, etc.

Assim, consultando este website, pode ficar a saber se há ou não cenas violentas no filme que pesquisou, bem como se há animais que são mortos, ou até se há palhaços – tudo coisas que tendem a inquietar muitas pessoas. Por vezes, saber se um cão morre é descortinar parte do final da história, mas esse é o preço que a maioria dos animal lovers está disposta a pagar.

Mas porque é que a morte de um animal é tão perturbadora se é tudo ficção? O cientista comportamental Clive Wynne deu a resposta ao “The Ringer”: “Se estivermos a ver ficção, assumimos como garantida a morte de pessoas, ao passo que a morte de um animal quebra, de alguma forma, aquela leveza ficcional”.

Se é um dos espectadores que se aflige quando um cão ou outro animal é morto num filme, já sabe o que fazer: consulte o website antes de ver.

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