Foi em 2005, na Coreia do Sul, que se clonou o primeiro cão. Chama-se Snuppy (diminutivo de Seoul National University Puppy) e é um Galgo Afegão nascido da gestação de uma Labrador. Mais de dez anos depois, em 2017, um polícia reformado de Long Island, em Nova Iorque, mandou fazer uma “cópia” da sua cadela na Viagen Pets and Equine (VPE), a única empresa norte-americana a fazer clonagem comercial de cães e gatos.
A sua Princesa, assim batizada em homenagem às heroínas dos filmes de animação da Disney, foi uma das centenas de animais de estimação clonados desde então. Tinha sido resgatada da rua em 2006. “O pelo estava todo emaranhado, não se conseguia sequer escovar, e a dentição péssima, mas era absolutamente adorável e ficou muito agradecida por eu a ter trazido comigo”, recordou. “Foi a melhor coisa que fiz na minha vida”, assumiu John Mendola, de 52 anos.
A ideia de clonar Princesa surgiu quando soube que a cadela tinha uma doença oncológica terminal. A VPE recolheu de imediato material genético. Desde esse momento, Mendola começou por encetar esforços para juntar dinheiro: vendeu o seu Lexus. Comprou “mercearias mais baratas”, não foi “a restaurantes com tanta frequência” e cortou “nas viagens”, enumerou. Pagou cerca de 45 mil euros. Um ano depois, em 2018, nasceram duas clones da Princesa. Mendola chamou-as de Ariel e Jasmine. “As manchas, os pelos, tudo é mais ou menos igual, até os gestos. Sabem como os cachorros, às vezes, se levantam e sacodem o corpo inteiro? Ambas fazem isso ao mesmo tempo, como a Princesa fazia”, contou o polícia reformado à revista “The New Economy”.
A clonagem de animais de estimação é um tema controverso e uma prática ao alcance de poucos bolsos. A empresa cobra 50 mil dólares (quase 46 mil euros) por cães, 30 mil dólares (27,5 mil euros) por gato e 85 mil dólares (78 mil euros) por cavalo. Além disso, estudos científicos apontam para que animais clonados sejam mais propensos a doenças. Como um relatório da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, que em 2018 avançou que a taxa média de sucesso é de 20 por cento. Ou seja, são necessárias várias “barrigas de aluguer” para permitir várias tentativas.

Um processo “doloroso e angustiante”
Blake Russell, presidente da VPE, garante que a preocupação da empresa é e será sempre “a saúde e o bem-estar de todos os cães e gatos”. Sublinha, além disso, que “um animal de estimação clonado é, simplesmente, um gémeo genético idêntico, separado por anos, décadas e talvez séculos”.
Penny Hawkins, especialista em bem-estar animal da Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals do Reino Unido, frisa que, independentemente das intenções, os processos de recuperação de óvulos para doação e de preparação de uma barriga de aluguer podem ser “dolorosos e angustiantes”.
John Mendola não está arrependido, mesmo depois de se ter sentido obrigado a esconder dos amigos, que o criticaram, que ia clonar a sua cadela. “A Princesa era o meu pequeno anjo. Ela tinha qualquer coisa de especial”, justifica. As clones, garante, têm “as mesmas expressões, os mesmos brinquedos favoritos e dão os mesmos suspiros”. “Eu podia ter amortizado o pagamento da minha casa com esse dinheiro, mas agora tenho dois filhotes”, acrescenta.
Comportamento não pode ser clonado
Mesmo que Mendola acredite que Ariel e Jasmine foram buscar comportamentos à “irmã”, a Viagen Pets and Equine assegura que estes não podem ser reproduzidos. “Há muito mais num animal do que o seu ADN e animais clonados terão inevitavelmente experiências de vida diferentes, resultando em animais com personalidades diferentes”, frisa a empresa.
Penny Hawkins deixa ainda um alerta: “a clonagem aumenta a crise de superpopulação de animais abandonados”. “Recomendamos que qualquer pessoa que esteja à procura de um novo animal de estimação para adote um dos milhares em centros de resgate”, pede. A especialista vai mais longe, afirmando que a clonagem de animais é “uma moda cruel para ganhar dinheiro” e lembrando os “milhões de cães e gatos maravilhosos que definham em abrigos ou têm mortes terríveis depois de serem abandonados”.









