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O sofrimento dos Galgos não começa no abandono. Acompanha-os durante toda a vida

O Dia Internacional do Galgo foi assinalado no dia 1 de fevereiro. Dia em que termina a época da caça em Espanha e começa o pesadelo destes cães.

Lolita foi encontrada em fevereiro de 2021 perto de Toledo por Pablo Peñalva. As patas dianteiras estavam tão destroçadas que não havia tempo a perder. Lolita tinha que chegar o mais rápido possível ao refúgio SOS Galgos para ser tratada. 

“Disseram-me que era um caso grave, por isso aproximei-me para a ver e deparei-me com a terrível situação em que a Lolita se encontrava”, recorda Pablo Peñalva. Lolita foi recebida no refúgio SOS Galgos, uma instituição espanhola que há mais de 20 anos resgata Galgos vítimas de maus tratos, pela responsável Anna Clements e pelo médico veterinário e cofundador Albert Sordé, e foi considerada um “caso especial”. “Nem todos chegam tão assustados como ela”, conta Anna Clements. 

Além do medo, Lolita tinha várias feridas, essencialmente na pele. “Pensamos que, muito provavelmente, são feridas de arrastamento, sabendo que alguns caçadores os treinam atando-os a veículos motorizados”, afirma Albert Sordé. 

A história de Lolita é a história de milhares de galgos e de outros cães de caça em Espanha. Com o fim da época de caça, que este ano ocorreu a 1 de fevereiro, estes animais são descartados. “A realidade é que os cães de caça são instrumentos descartáveis. Vemo-los abandonados, já os vimos atirados para poços, já os vimos enforcados. Existem múltiplas formas de se livrarem deles. A vida de um galgo de caça é das mais miseráveis que possamos imaginar”, lamenta Pablo Peñalva. 

Esta história teve lugar em 2021 mas não teria sido diferente após setembro de 2023, quando Espanha aprovou uma nova lei de bem estar animal. A mesma lei que proíbe os tutores de amarrar os cães à porta de estabelecimentos comerciais ou de os deixar sozinhos em casa mais do que 24 horas, esqueceu-se por completo dos cães de caça e de trabalho. A inclusão destes animais na nova lei poderia provocar o descontentamento dos caçadores e da população rural e levá-los a votar em partidos de direita. Pedro Sánchez optou por ceder e fechar os olhos ao sofrimento destes animais. 

A verdade, a triste verdade, é que, todos os anos, milhares de cães de caça (os números variam entre 50 mil a 100 mil), maioritariamente Galgos e Podengos, são abandonados ou mortos muitas vezes de formas cruéis. 

“Muitos destes cães sofrem crueldade extrema ao longo de toda a vida, e os métodos utilizados para eliminar aqueles que deixam de ser desejados são particularmente desumanos. Em 2023, apesar dos avanços em matéria de bem-estar animal, o Parlamento espanhol decidiu excluir os cães de caça de uma nova lei de bem-estar animal — uma das mais progressistas da Europa. Ao classificar estes animais como ‘ferramentas’ em vez de seres merecedores de proteção, o governo acabou por legitimar os maus tratos”, escreve a publicação European Interest.

Tina Solera, fundadora e presidente da associação Galgos del Sol, conta que o “resgate de galgos é uma missão exigente, imprevisível e, muitas vezes, perigosa. Um galgo abandonado que tenha vivido nas ruas pode ter de ser observado e atraído com comida durante semanas ou até meses antes de permitir a aproximação de um ser humano”.

A Galgos del Sol, que tem mais de 250 animais ao seu cuidado, já resgatou “galgos que foram atirados para poços, deixados feridos em campos, abandonados em contentores do lixo, a fugir aterrorizados no meio do trânsito, que deram à luz à beira da estrada ou que foram deixados para morrer em campos de criação abandonados”.

A sociedade espanhola está cada vez mais desperta para a situação destes animais e isso é visível nas manifestações que ocorreram no início do mês de fevereiro. A 1 de fevereiro, dia em que se assinala o Dia Internacional do Galgo, a plataforma NAC (No A la Caza) e a associação britânica Free Spanish Hounds reuniram centenas de pessoas em 45 cidades espanholas, 35 cidades europeias e nove norte-americanas.

“Todos os anos, em fevereiro, dezenas de milhares de cães são tratados como descartáveis. A nossa mensagem é simples: estes cães não são ‘ferramentas’, são seres vivos que merecem proteção legal. Ao mobilizarmo-nos a nível internacional, estamos a apelar aos visitantes de Espanha para que se manifestem contra estas práticas cruéis e criem pressão diplomática sobre a administração espanhola”, afirmou Teresa Rodriguez, organizadora dos protestos internacionais da NAC.

“A consciencialização está a crescer entre os cidadãos espanhóis, mas muitos políticos continuam a colocar a tradição e os interesses económicos acima do bem-estar animal. Com o apoio internacional, incluindo os protestos pacíficos no Reino Unido e em toda a Europa, continuaremos a pressionar até existir uma proteção real e aplicável para estes cães”, acrescentou Rodriguez.

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