Animais

O Yorkshire de um quilo e meio que vive sobre rodas. E não fica para trás

Lucky ficou paraplégico após sofrer um acidente em casa e teve que adaptar-se a uma nova vida. Hoje, é feliz e "ama viver".
Adora passear e o estilo não falta.

Os acidentes não acontecem só aos outros. Estamos todos propensos a eles e quando acontecem, procuramos lidar com a situação da melhor forma, para promovermos uma recuperação rápida. Foi assim com Lucky e os seus tutores que, de um dia para outro, viram a sua vida mudar.

Yadira Passos, de 44 anos, ainda morava no Brasil quando tudo aconteceu. Uma de suas colegas de trabalho era tutora de um casal de Yorkshires e quando a fêmea engravidou, a médica dentista adotou Montanha, um dos filhotes. “Eu já tinha dois outros cães na época, e era conhecida por ser o ‘hotel’ dos cães dos meus amigos, porque eles sempre deixavam os patudos comigo quando precisavam de se ausentar”, começa a contar à PiT. O amor que tinha pelos animais, desde cedo, também era uma mais valia.

Mais tarde, houve uma nova gravidez e Lucky foi uma das crias. Desta vez, foi a vez de outra colega de Yadira adotar um companheiro. Por outro lado, o patudo estava sempre a conviver com o irmão Montanha e, por vezes, passava alguns dias com Yadira quando sua família viajava. E assim foi o seu primeiro ano de vida. Até que, poucos dias depois de fazer anos, sofreu um acidente. “Ele caiu da escada onde vivia e fraturou a coluna, com secção total da medula, ou seja, não voltou a andar”, relembra a médica dentista.

Como resultado, Lucky teve que passar pela sua primeira cirurgia e colocar implantes na coluna para “estabilizar a lesão e evitar que sentisse dor”. Na mesma altura, a sua então família estava prestes a mudar-se para fora do Brasil e “levá-lo não era uma opção”. Yadira, que esteve presente na vida do cão, resolveu adotá-lo.

A médica dentista, por outro lado, também estava prestes a deixar o Brasil com a família e os três cães: Montanha, Cloe, uma Border Collie, e o rafeiro Stumble. Adicionar mais um cão não seria problema e pouco tempo depois, Lucky já estava pronto para a viagem.

Em janeiro de 2019, chegaram a Portugal. Com o tempo, Yadira começou a pesquisar alternativas para o patudo conseguir andar sozinho. Na altura, Lucky só conseguia arrastar-se no chão e, durante os passeios nas ruas, era sempre carregado no colo para não se magoar.

A médica dentista não encontrava muitas informações disponíveis sobre cães paraplégicos, mas estava determinada a ajudar o “filho” mais novo.  Após uma “intensa pesquisa” na Internet, descobriu que existia cadeira de rodas para cães. Sozinha decidiu construir uma para Lucky com tubos PVC. “Não ficou ótima, mas serviu pra eu perceber o quão importante era, para ele, poder estar no chão e sentir os cheiros, passear… Ele ficava mesmo feliz na cadeirinha”, conta.

As dúvidas e a rede de apoio

Acrescentar mais um membro a família, seja humano ou de quatro patas, requer cuidados e planeamentos especiais. Quando Lucky integrou, de vez, a vida de Yadira Passos, com ele também vieram algumas dúvidas e inseguranças. A médica dentista já estava acostumada com o patudo e cuidar de cães não era novidade. No entanto, um cão paraplégico era um desafio.

“O meu marido no início ficou reticente em assumí-lo. Afinal, quanto trabalho daria um cão paraplégico? Eu também não sabia, mas precisava ter a certeza de que ele ficaria bem. Então, abracei a causa sem saber o que me aguardava”, confessa Yadira. Além da dificuldade em andar, Lucky precisa de ajuda para esvaziar a bexiga e para fazer cocó. No começo, a médica admite que não era fácil. No entanto, hoje em dia, os dois estão em “total sintonia” e Lucky consegue “avisar quando precisa de ajuda”.

Além das intensas pesquisas online, a tutora resolveu tirar um curso de tosquia para “ter autonomia”  para cuidar de Lucky. Na altura, o patudo tinha alguns “traumas e medos” na hora de tomar banho e ficava agressivo com estranhos. Certo dia, durante o curso, Yadira fez uma descoberta ao folhear uma revista especializada em animais e estimação. Numa das páginas, ficou a conhecer uma empresa responsável por fazer cadeiras de rodas para cães.

Daí, surgiu a primeira cadeira de rodas feita especialmente para Lucky. E a alegria não faltou. “A adaptação dele foi imediata. Foi colocá-lo nela e ele sair andando”, partilha a tutora orgulhosa.

Ele não escondeu a felicidade.

Em 2020, Lucky passou por uma segunda cirurgia após os implantes que tinha terem faturado. Após consultas com vários médicos veterinários portugueses, Yadira foi aconselhada a regressar ao Brasil para a nova cirurgia ser realizada pelo mesmo veterinário responsável pela primeira. Os implantes foram então retirados e com a lesão já calcificada, não foi preciso colocar novos.

Hoje em dia, Lucky tem uma segunda cadeira de rodas, ainda mais ideal para os seus 1,5 quilos. “Optei por um modelo que considerei melhor para os movimentos dele, com maior apoio para o corpo porque ele é muito frágil”, explica Yadira. No entanto, a tutora frisa a importância dos tutores saberem que nenhum animal paraplégico pode ficar um dia inteiro na cadeirinha. “Ela é indicada somente para passeios, no máximo uma hora. O resto do dia ele arrasta-se no chão de casa, que é liso”, acrescenta.

Para partilhar as aventuras do patudo, Yadira criou uma página no Instagram. A conta, porém, acabou por ter um propósito extra. Através dela, a médica dentista conheceu diversos tutores de animais com vários tipos de deficiências e assim, criaram uma rede de apoio.

Entre as mensagens mais gratificantes que recebe, estão a de tutores de animais que ficaram paraplégicos e receberam propostas de eutanásia. No entanto, ao conhecerem a história de Lucky, perceberam que é possível ultrapassar o desafio.

Atualmente, um dos objetivos da página é “mostrar às pessoas que não é o fim do mundo”, frisando que há formas de lidar com a situação. Yadira diz ainda que através dos posts, tenta mostrar a realidade de uma forma “leve e descontraída”, realçando a felicidade de Lucky e da família. “Com o passar do tempo, eu pude perceber que a vida dele, apesar das limitações óbvias, é ótima. Ele é muito feliz, ama viver, ama passear. Sempre digo que a gente não precisa ser perfeito pra ser feliz. Ser feliz já basta”, conclui.

Percorra a galeria para conhecer as aventuras de Lucky com a família.

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