Animais

Quica — a cuidadora que protege os Bufanitos de Alfeizerão com todas as armas que tem

Há quatro anos a viver nesta vila do concelho de Alcobaça, já mudou a vida de muitos gatos e é uma inspiração na causa animal.
Amores incondicionais.

Chama-se Clara, mas é por Quica que os amigos a tratam. É assim que esta figura inspiradora da causa animal está habituada a ouvir chamarem por si e foi também esse o nome que adotou nas redes sociais. Com o seu exemplo de resiliência, abnegação e coragem tem conseguido salvar muitos dos animais que encontra no seu caminho. Agora, a braços com um projeto que poderá mudar a vida de muitos mais, para melhor, prossegue a sua luta para que todos eles, um a um, tenham direito à dignidade que merecem.

Com 59 anos, Quica de Bell diz que o seu amor pelos animais já veio de nascença. “Desde pequena que queria salvar todos os animais. Até as ratazanas de rua eu defendia quando vivia em Lisboa e apareciam os homens que pegavam fogo aos buracos onde elas viviam. Eu teria sete, oito anos, e ficava muito zangada com eles”, conta à PiT esta protetora da causa animal.

Depois de Lisboa, onde passou os primeiros anos da sua infância, Quica passou por Almeirim e Azambuja até se fixar, há quatro anos, em Alfeizerão – uma vila do concelho de Alcobaça, no distrito de Leiria. É lá que cuida dos gatos de uma colónia por detrás da rua onde mora e aos quais chama “Os Bufanitos”.

Quica de Bell foi educadora infantil durante 25 anos. Aos 47, esgotada do desgaste desta profissão, pediu reforma antecipada. Continua a dedicar-se de corpo e alma aos animais e faz também trabalhos no mundo holístico, com o reiki em destaque. Tem muitas lutas pela frente, na causa animal, mas não desiste. “Alfeizerão é uma terra muito dura. Por todos os locais por onde passei, sempre fui voluntária e encontrei sempre pessoas disponíveis para ajudar. Aqui não é assim. Nunca vi uma terra tão difícil como Alfeizerão”, lamenta.

Os porquinhos da Índia salvos de experiências na escola

A lembrança das terras por onde passou transporta-a de novo ao passado. Recorda-se bem de, em pequena, entrar nas lojas de animais e querer levar todos para casa. “O periquito está doente”, dizia aos pais, com os olhos a pedirem que o levassem. E os pais acediam. O pai era um grande amante de animais e a mãe sempre ajudou a cuidar de todos. “Eles sempre compreenderam este meu amor pelos animais. Quando vivia nos Olivais chegámos a ter lá em casa, em sã convivência, quatro cães, sete gatos e também os porquinhos da Índia que eu roubava dos laboratórios da escola, pois estavam lá para se fazerem experiências com eles”, conta.

Foi sempre assim pela vida fora. Neste momento vive com uma cadela resgatada, a Star, e com três gatos – a Gatinha, com 15 anos, e os irmãos Pedro e Paulo, com seis anos, resgatados de um galinheiro aos três meses.

A Gatinha foi descoberta por acaso. E foi a sua sorte. Quica andava a passear as suas cadelas e ouviu barulho no lixo. Foi ver o que era e lá estava ela: recém-nascida, ainda com o cordão umbilical pendurado. “Não pensei que sobrevivesse. Andei três meses a dormir mal para lhe dar de mamar noite e dia. As cadelas também ajudavam: davam-lhe calor e estimulavam-na para fazer as necessidades ao lamberem-na. E cá está ainda comigo, com 15 anos”.

Cães acorrentados e gatos “para morrer”

Assim que chegou a Alfeizerão, Quica começou logo a descobrir animais com necessidades. Começou pelos cães à corrente e que nunca conheceram outra vida – “as pessoas aqui consideram isso normal”. Logo de seguida, apercebeu-se que o destino dos gatos, por ali, não é melhor. “Os gatos aqui são invisíveis e são para morrer. Já fui insultada algumas vezes por os alimentar. Dizem-me que se são meus que os leve para casa. Que se não são, a sua sorte será a morte. O respeito pelos animais aqui não existe”, explica. “Isso é tudo para morrer, não tem nada que lhes dar de comer”, atiram-lhe.

Quica
A fintarem diariamente a morte.

Felizmente, Quica não está sozinha. “Não estou completamente abandonada, porque tenho alguns vizinhos que começaram também a ficar mais sensibilizados ao verem que eu cuidava dos gatos da colónia aqui da zona e começaram a ajudar. São três ou quatro pessoas, numa rua inteira, que começaram a vê-los também como seres vivos que têm sede no verão e frio no inverno”. Já os gatos começaram a ver onde Quica deixava a água e comida e deixaram de ir aos caixotes. E é assim que, diariamente, vai tentando mudar vidas e mentalidades.

“Isto é uma luta de um por um. Cada um que se salva é uma vitória. Desta colónia que cuido já consegui quatro adoções”, diz, com visível alegria. Sobre quantas colónias existem na vila, Quica não tem dúvidas: “Alfeizerão é toda uma colónia. Há gatos por todo o lado”. A colónia dos Bufanitos é aquela que fica por detrás do seu prédio, mas há muitas mais. E recentemente faleceu um cuidador de uma outra colónia, ali perto, o que lhe partiu o coração. Os gatos, ao contrário do que muitos pensam, são animais que se apegam. E um gato que gostava muito do cuidador falecido nunca se recompôs da perda. Quica chamou-lhe Zeca.

Zeca, o gato que ninguém viu

Foi numa publicação muito emotiva, intitulada “O gato que ninguém viu”, que esta protetora contou a história de Zeca. Com a perda do protetor falecido, muitos gatos foram para a colónia dos Bufanitos, o que causou algum alvoroço entre eles e os que já lá residiam. “Isto perturbou muito a colónia, com muitas brigas e zaragatas. Alguns acabaram por se tornar muito submissos para poderem enturmar-se”, conta. Entre esses novos residentes estava Zeca, que lhe pareceu muito apático. Pediu a uma veterinária para o avaliar, mas não se lhe encontrou doença aparente. “Tenho para mim que ele entrou em depressão por o seu cuidador ter morrido. Nunca chegou a sentir-se integrado na nova colónia. Um dia vi-o a ir rumo à antiga colónia. Estava na varada e desci de imediato, mas já não o vi mais. Até hoje – e já lá vão dois meses. Por lá terá arranjado um buraquinho para ficar e morrer”, conta Quica com tristeza na voz.

A luta é mesmo diária. No ano passado, a protetora perdeu 15 gatos da sua colónia devido a herbicidas. E muitos mais terão morrido em toda a vila. Foi nessa altura que decidiu propor à junta de freguesia a criação de um centro de acolhimento. “Se os animais não estão em segurança na rua, então que haja um sítio para os recolher”, explica. “Os herbicidas matam. Há todo um ecossistema que é destruído. As placas a avisar só ajudam os animais que passeiam com dono. Os outros não sabem ler. Vão caminhar por ali e lamber as patas e acabar por morrer. É uma morte lenta, que chega aos poucos”.

O projeto de Quica nas mãos da junta

Decidida a avançar com o projeto, ao qual deu o nome de Animais errantes de Alfeizerão “Os Bufanitos”, apresentou-o ao presidente da junta de freguesia em março deste ano – estando agora à espera de uma resposta positiva do outro lado.

O seu projeto tem tudo pensado. “A ideia é que as pessoas da vila vão recolhendo cães – e sobretudo gatos – errantes, de modo a passarem todos pelo centro de recolha para serem avaliados e esterilizados. Os mais assilvestrados são devolvidos às suas colónias e no centro de acolhimento ficam os adotáveis. No centro ficarão também os gatos que testem positivo à FIV e FELV, num departamento só para eles”, explica.

“As pessoas que colaboram comigo ficaram felizes com a ideia e já começaram a arranjar mantas. Tive também a doação de 20 caixas para fazermos casinhas. E há uma médica veterinária que quer participar como voluntária”, diz a protetora, feliz com os progressos deste projeto. Mas falta o principal: que salte do papel para o terreno. E para isso precisa da ajuda da junta de freguesia. Quica gasta cerca de 150 euros por mês a alimentar a sua colónia, além do dinheiro para as desparasitações e para levar os animais doentes à clínica. Por isso, não pode fazer o resto sozinha, estando assim agora à espera da boa vontade da junta. Não quer desanimar, mas o tempo está a passar e não tem tido respostas. Ainda assim, mantém a esperança – até porque todas as câmaras dispõem de verbas para distribuir para a causa animal.

Quica
Bebés à espera de dias melhores.

A sua experiência com o programa CED (capturar, esterilizar, devolver) não foi a melhor. Há três anos, contactou a veterinária municipal da Câmara de Alcobaça para sinalizar os gatos da sua colónia e pedir ajuda para os esterilizar. Uma equipa dedicada ao CED deslocou-se ao local, levando uma fêmea e dois machos para serem submetidos às intervenções cirúrgicas numa clínica parceira. No entanto, as coisas não correram bem – “dois deles morreram de forma horrenda”.

“Levaram os três gatos ao final da manhã e devolveram-nos ao início da noite, ainda anestesiados. Disse-lhes que não os poderia soltar assim na rua e que não tinha local onde fazerem o recobro. Responderam que a parte deles estava feita e foram embora. Uma vizinha viu-me a chorar junto às três transportadoras e, ao perceber o que estava a acontecer, disponibilizou um barracão”, conta. Foi ali que ficaram durante a noite, com as portas das transportadoras abertas. No dia seguinte, logo de manhã, quando foi vê-los, um já tinha fugido. Foi o que teve mais sorte – “anda por aí gordo e belo”. Já a fêmea aparentava estar “muito mal” e o macho estava com dificuldades respiratórias.

Foi de imediato com eles à clínica onde tinham sido esterilizados e o pior aconteceu. Quando percebeu que estavam a ligar para a câmara para saber quem se responsabilizaria por eles, Quica frisou que era uma urgência e que precisavam de ser tratados o quanto antes – que do resto se trataria depois. Mas os telefonemas continuaram, sem qualquer assistência aos animais, e ambos morreram ao seu colo. Ainda hoje a imagem lhe dói.

“Eu não quero saber de números e estatísticas. De quantos animais já foram esterilizados ou não. Eu falo de vidas. Foi isso que disse à veterinária municipal ao reportar o sucedido. Nunca mais vieram cá. Consegui um veterinário na Foz do Arelho que faz preços mais razoáveis, mas ainda são altos para mim. Já lá levei quatro machos. Não consegui mais, não consigo pagar tudo do meu bolso”, lamenta.

À espera que o próximo inverno não seja na rua

Quica está agora num compasso de espera, com o coração acelerado, mas ainda com esperança de que os seus protegidos não tenham de passar mais um inverno na rua. “É muito difícil tratar de gatos na rua. Constipam-se muito no inverno e têm de ser tratados. E se um dia falho a medicação, por não os encontrar, o efeito já não é o mesmo”.

“Eu e mais duas pessoas da minha rua estamos completamente disponíveis para colaborar neste projeto, assim haja dinheiro. Só peço que na junta agarrem a oportunidade de fazer alguma coisa. Aproveitem que as pessoas estão com vontade de fazer algo para dar um bom destino a estes animais”, apela.

Enquanto o projeto não ganha corpo, Quica vai continuando, dia e noite, a proteger o melhor que pode estes animais de ninguém. Que, para muitos, estão ali para morrer – mas não enquanto esta protetora ali viver.

Percorra a galeria para conhecer alguns dos Bufanitos e a sua cuidadora – que não desiste de lhes tentar dar um futuro melhor.

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