Animais

Shot e Tequila morreram envenenados. Não houve justiça e cães continuam a ser vítimas

Investigadores concluem que cão está entre as espécies que mais morrem por envenenamento em Portugal e Espanha.
Os iscos são os métodos mais utilizados para o envenenamento.

Shot e Tequila foram encontrados mortos há um mês. O Labrador, de cinco anos, e a Braco Alemã, de apenas um ano, moravam numa quinta em Monção (Minho) com o tutor Joaquim Covas e os seus familiares. “Eu vi morrer a Tequila no pátio da casa e o Shot fomos encontrar num campo perto”, começa a contar à PiT o engenheiro civil.

Os cães estavam acostumados a ficar em casa quando não havia ninguém e a acompanhar Joaquim e o seu filho às plantações de vinho durante os trabalhos que faziam. “Foram criados desde pequeninos por mim, ambos fruto de oferta de amigos”, recorda Joaquim. “Foram criados com muito amor e carinho e por isso eram animais felizes e totalmente dedicados a mim e aos familiares da quinta”. 

No dia 14 de agosto, tudo mudou. Após ter assistido a morte Tequila e encontrar Shot sem vida nas proximidades, o tutor já imaginava o que tinha acontecido. Horas depois, obteve a confirmação da veterinária. Os cães foram vítimas de estricnina, o veneno mais utilizado em Portugal, apesar da sua comercialização estar proibida.

A substância, originalmente utilizada para matar ratos, era legalizada em Portugal e em diversos países do mundo. No entanto, os efeitos do seu uso e o impacto na fauna (foi considerada tóxica para 60% dos animais que a consumiram), fizeram com que a estricnina fosse proibida no País. 

Após a morte dos companheiros de quatro patas, Joaquim partilhou o acontecimento no Facebook. “Vou até às últimas consequências para descobrir os culpados”, escrevia o tutor. No entanto, conta à PiT que até hoje não encontrou os responsáveis. “Mas fizemos participação da ocorrência às autoridades competentes acompanhado de relatório veterinário”, salienta.

Shot e Tequila.

Apesar do ato que tirou a vida de Shot e Tequila ser considerado criminoso a nível português e europeu, não é único. Pelo contrário. Os cães estão entre as espécies que mais morrem por envenenamento, revelou um estudo publicado este mês, que conclui que o impacto de mortes de animais envenenados   é “altamente subestimado” em Portugal e Espanha.

Publicado na revista científica Biological Conservation, a pesquisa foi a pioneira em avaliar o número de espécies afetadas pelo uso ilegal de venenos na Península Ibérica. Como resultado, foi concluído que pelo menos 47 espécies de vertebrados, entre os quais estão aves, mamíferos e répteis, estão sujeitas ao envenenamento ilegal na região.

Para tal, os pesquisadores colocaram 590 iscos que simulavam alvos envenenados em 25 locais de estudo na Península Ibérica.Entre eles, estavam bocados de carnes, entranhas de animais e cadáveres inteiros de animais (sendo este o mais utilizado, por norma, nos envenenamentos de animais na região).

O estudo foi feito em colaboração com o Parque Nacional de Monfragüe, em Espanha, assim como investigadores de várias universidades do país. Em Portugal,  foram realizados pela Conservação da Natureza e do Património Rural (Palombar) em áreas da Rede Natura 2000 e da Rede Nacional de Áreas Protegidas, nomeadamente no Parque Natural do Douro Internacional e Zonas Especiais de Conservação e Zonas de Proteção Especiais Douro Internacional e Vale do Águeda e Rios Sabor e Maçãs.

Cerca de 94 por cento dos iscos foram consumidos

Além do cão,  que ocupou o oitavo lugar na lista, as espécies que mais consumiram os iscos foram a raposa, o corvo, o grifo, a fuinha, a marta e várias espécies de roedores como o javali. Apesar de o consumo ter sido mais detectado nos pássaros do que nos mamíferos, a raposa-vermelha foi a espécie que mais vezes foi encontrada a comê-los.

Para além dos animais citados, na lista estão os répteis, como lagartos e cobras, e grandes predadores como as águias, os lobos e ursos. Das 47 espécies suscetíveis ao uso ilegal de venenos na Península Ibérica, 25% estão ameaçadas de extinção a nível nacional ou internacional.

Sendo o estudo pioneiro neste tema, foi possível “desvendar a verdadeira dimensão” do problema, sendo agora possível “melhorar as ações de inspeção de iscos no território e animais envenenados no meio natural e combater de forma mais eficaz esta grave ameaça para a biodiversidade”.

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