Animais

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Sim, os animais são família, mas não são humanos

A médica veterinária Teresa Rousseau alerta que tratar os animais como membros da família significa respeitar a sua essência e necessidades.

Sabia que a humanização dos animais é prejudicial e pode gerar ansiedade, medo e/ou frustração? Isto acontece porque os animais têm necessidades biológicas diferentes das nossas e ao projetamos a nossa rotina, hábitos, sentimentos e intenções nos cães ou nos gatos, estamos a criar necessidades que não existem e a distorcer a compreensão do comportamento animal.

Contudo, admito que a nossa (boa) vontade de os tratar bem possa ser a causa desta confusão, pelo que é fundamental esclarecer que humanizar não é o mesmo que amar.

Cuidar dos animais é responder às suas necessidades instintivas próprias. É compreender que cão ou o gato não entendem relações humanas pelo que não devemos projetar neles os padrões pelos quais nos regemos.

Enquanto tutores, a nossa preocupação e demonstração de amor deve incluir os cuidados saudáveis e adequados a cada espécie e promoção de conhecimento e respeito pelas suas necessidades físicas e emocionais e instintos. Isto é possível com enriquecimento ambiental adequado, alimentação apropriada, socialização correta (com treino, passeios e exercícios), limites consistentes, promoção de segurança e acompanhamento veterinário.

Contudo, as diferenças existentes não existem apenas para o ser humano, os cães e gatos são espécies distintas que devem ser respeitadas de modo a prevenirmos problemas que surgem com cada vez mais frequência, como por exemplo:

No caso dos cães:

  1. Ansiedade de separação

Muitos cães passam a depender fisicamente e emocionalmente do tutor e não desenvolvem autonomia, por isso não conseguem ficar sozinhos, choram ou ladram quando o tutor se ausenta/afasta ou destroem tudo à sua volta.

  1. Falta de estímulo mental

Os cães precisam de ser cães. Precisam de farejar, explorar o ambiente que os rodeia, gastar energia e interagir com outras pessoas e animais. A falta destes estímulos pode dar origem a hiperatividade, compulsões, irritabilidade ou depressão comportamental.

  1. Obesidade e doenças

Muitos cães preferem a nossa comida por ser mais palatável e a oferta excessiva de petiscos, com excesso de gordura, hidratos de carbono e açúcar, uma vez que o metabolismo deles processa os alimentos de forma diferente, gera problemas como obesidade, doenças metabólicas como diabetes, sobrecarga articular e problemas cardíacos.

  1. Dificuldade de socialização

Os cães precisam de sociabilizar. Ao impedir a interação com outros cães estamos a contrariar os seus instintos e a promover a agressividade defensiva (manifestação do medo e insegurança que sentem).

No caso dos gatos:

  1. Stress crónico

Menos sociáveis que os cães, os gatos sofrem ainda mais com interpretações humanas equivocadas. Para os gatos o mais importante é a salvaguarda e controlo do seu território, a previsibilidade e a existência de espaços só seus. O excesso de interação ou barulho pode desenvolver ansiedade e promover maior isolamento ou agressividade.

  1. Problemas urinários

As alterações urinárias são uma mudança fisiológica à qual os tutores devem estar atentos. São um sinal que o gato está mais vulnerável e exposto a maiores níveis de stress, logo mais suscetível de desenvolver infeções como cistite ou obstrução urinária. Por vezes, o sinal pode ser apenas o deixarem de usar a caixa de areia. Os gatos são muito sensíveis a mudanças forçadas na rotina ou ambientes inadequados.

  1. Frustração de instintos naturais

Os gatos precisam de estímulos adequados para responder aos seus instintos naturais de predadores. Assim sendo, precisam de estímulos espaciais e sensoriais que lhes permitam explorar, perseguir e caçar, arranhar, escalar e observar a partir de lugares altos. Quando privados destes estímulos ou excessivamente dependentes do tutor tendem a desenvolver ansiedade, stress, apatia e compulsões.

  1. Interpretação errada do comportamento

É comum ouvirmos que o gato é “vingativo”, “mal-humorado” ou “distante”. O que as pessoas não sabem é que estes comportamentos são, normalmente, manifestações de medo, dor, stress ou necessidade de controlo territorial. A interpretação errada das emoções felinas, confundindo-as com emoções humanas pode atrasar cuidados importantes.

Não quero com esta informação causar mau estar ou criticar o comportamento dos tutores. Neste dia tão especial, pretendo apenas alertar para que tratar os animais como membros da família significa respeitar a sua essência e necessidades, através da promoção de um equilíbrio saudável entre o afeto oferecido e o necessário, o respeito pelos comportamentos naturais e um maior conhecimento e interpretação dos sinais que os cães e os gatos nos dão.

E sim, é possível e desejável promover o bem-estar do animal sem humanização excessiva.

Este artigo é da autoria da médica veterinária e consultora Pet Remedy, Teresa Rousseau, e assinala o Dia Internacional da Família, que se celebra esta sexta-feira, 15 de maio. 

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