Sabia que a humanização dos animais é prejudicial e pode gerar ansiedade, medo e/ou frustração? Isto acontece porque os animais têm necessidades biológicas diferentes das nossas e ao projetamos a nossa rotina, hábitos, sentimentos e intenções nos cães ou nos gatos, estamos a criar necessidades que não existem e a distorcer a compreensão do comportamento animal.
Contudo, admito que a nossa (boa) vontade de os tratar bem possa ser a causa desta confusão, pelo que é fundamental esclarecer que humanizar não é o mesmo que amar.
Cuidar dos animais é responder às suas necessidades instintivas próprias. É compreender que cão ou o gato não entendem relações humanas pelo que não devemos projetar neles os padrões pelos quais nos regemos.
Enquanto tutores, a nossa preocupação e demonstração de amor deve incluir os cuidados saudáveis e adequados a cada espécie e promoção de conhecimento e respeito pelas suas necessidades físicas e emocionais e instintos. Isto é possível com enriquecimento ambiental adequado, alimentação apropriada, socialização correta (com treino, passeios e exercícios), limites consistentes, promoção de segurança e acompanhamento veterinário.
Contudo, as diferenças existentes não existem apenas para o ser humano, os cães e gatos são espécies distintas que devem ser respeitadas de modo a prevenirmos problemas que surgem com cada vez mais frequência, como por exemplo:
No caso dos cães:
- Ansiedade de separação
Muitos cães passam a depender fisicamente e emocionalmente do tutor e não desenvolvem autonomia, por isso não conseguem ficar sozinhos, choram ou ladram quando o tutor se ausenta/afasta ou destroem tudo à sua volta.
- Falta de estímulo mental
Os cães precisam de ser cães. Precisam de farejar, explorar o ambiente que os rodeia, gastar energia e interagir com outras pessoas e animais. A falta destes estímulos pode dar origem a hiperatividade, compulsões, irritabilidade ou depressão comportamental.
- Obesidade e doenças
Muitos cães preferem a nossa comida por ser mais palatável e a oferta excessiva de petiscos, com excesso de gordura, hidratos de carbono e açúcar, uma vez que o metabolismo deles processa os alimentos de forma diferente, gera problemas como obesidade, doenças metabólicas como diabetes, sobrecarga articular e problemas cardíacos.
- Dificuldade de socialização
Os cães precisam de sociabilizar. Ao impedir a interação com outros cães estamos a contrariar os seus instintos e a promover a agressividade defensiva (manifestação do medo e insegurança que sentem).
No caso dos gatos:
- Stress crónico
Menos sociáveis que os cães, os gatos sofrem ainda mais com interpretações humanas equivocadas. Para os gatos o mais importante é a salvaguarda e controlo do seu território, a previsibilidade e a existência de espaços só seus. O excesso de interação ou barulho pode desenvolver ansiedade e promover maior isolamento ou agressividade.
- Problemas urinários
As alterações urinárias são uma mudança fisiológica à qual os tutores devem estar atentos. São um sinal que o gato está mais vulnerável e exposto a maiores níveis de stress, logo mais suscetível de desenvolver infeções como cistite ou obstrução urinária. Por vezes, o sinal pode ser apenas o deixarem de usar a caixa de areia. Os gatos são muito sensíveis a mudanças forçadas na rotina ou ambientes inadequados.
- Frustração de instintos naturais
Os gatos precisam de estímulos adequados para responder aos seus instintos naturais de predadores. Assim sendo, precisam de estímulos espaciais e sensoriais que lhes permitam explorar, perseguir e caçar, arranhar, escalar e observar a partir de lugares altos. Quando privados destes estímulos ou excessivamente dependentes do tutor tendem a desenvolver ansiedade, stress, apatia e compulsões.
- Interpretação errada do comportamento
É comum ouvirmos que o gato é “vingativo”, “mal-humorado” ou “distante”. O que as pessoas não sabem é que estes comportamentos são, normalmente, manifestações de medo, dor, stress ou necessidade de controlo territorial. A interpretação errada das emoções felinas, confundindo-as com emoções humanas pode atrasar cuidados importantes.
Não quero com esta informação causar mau estar ou criticar o comportamento dos tutores. Neste dia tão especial, pretendo apenas alertar para que tratar os animais como membros da família significa respeitar a sua essência e necessidades, através da promoção de um equilíbrio saudável entre o afeto oferecido e o necessário, o respeito pelos comportamentos naturais e um maior conhecimento e interpretação dos sinais que os cães e os gatos nos dão.
E sim, é possível e desejável promover o bem-estar do animal sem humanização excessiva.
Este artigo é da autoria da médica veterinária e consultora Pet Remedy, Teresa Rousseau, e assinala o Dia Internacional da Família, que se celebra esta sexta-feira, 15 de maio.








