Animais

Um emprego de sonho pago a peso de ouro: 100 mil euros por ano a passear cães

Ryan Stewart vive em Nova Iorque e passeia cães a tempo inteiro. Trabalha seis horas por dia e ganha, em média, 60€ por hora.
Ryan passeia cães há duas décadas.

Os valores são impressionantes. E sejamos mais precisos: Ryan Stewart chega a auferir cerca de 120 mil euros por ano a fazer o que mais gosta. Contas redondas, são 10 mil euros por mês. E por hora chega a ganhar à volta de 60 euros, seis horas por dia (útil — ao sábado trabalha só duas), seis dias por semana (ao domingo descansa) — a passear três a cinco cães de uma só vez, em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América.

Há 20 anos no ramo, Ryan já não se considera apenas uma pessoa que gosta de cães — vê-se, antes, como parte da matilha que diariamente conduz pelas ruas de Long Island, em Queens. O empresário começou a passear patudos em 2002, numa altura em que precisava de algum dinheiro extra, enquanto investia numa carreira de ator. Mas a Ryan for Dogs, a empresa que hoje gere sozinho, rapidamente tomou conta dos seus dias a tempo inteiro.

Começou em 2002 e celebra agora 20 anos de passeios.

Vicissitudes do ofício

Aos 40 anos de idade, Ryan sente-se orgulhoso do caminho que escolheu: “Sem um diploma universitário, ganho seis zeros por ano a fazer o que gosto”, revela à CNBC Make It. Mas não se pense que, apesar de recompensador a vários títulos, este não seja um emprego exigente como muitos outros. A média de seis horas de trabalho por dia, significativamente reduzida em comparação com uma jornada de trabalho habitual, não deixa de ser especialmente intensa. Cada segundo exige o máximo de atenção, o esforço físico é constante — e não são só os cães que desgastam Ryan: “A parte mais difícil de passear cães é lidar com os donos”, confessa.

“Um bom ‘dog walker’ é alguém focado e atento, porque queres prevenir que o cão se magoe. Tens de prestar atenção ao trânsito. Tens de evitar que os cães briguem uns com os outros. Não é um daqueles empregos em que podes pôr uns AirPods e ouvir música enquanto trabalhas”, reforça Ryan. Até porque a responsabilidade sobre qualquer eventualidade que aconteça a algum dos cães recai sobre quem os passeia.

Ainda assim, nem todos aqueles que têm como profissão passear cães auferem os mesmos valores que Ryan. Sobretudo depois dos primeiros meses de pandemia, que acabaram com muitos negócios desta espécie. Em média, um ‘dog walker’, em Nova Iorque, ganha pouco mais de 35 mil euros por ano (de acordo com as estimativas da ZipRecruiter), o que, tendo em conta o elevado custo de vida numa das mais caras cidades dos EUA, não é um valor (cerca de três mil euros por mês) tão elevado quanto parece em comparação com a média salarial em Portugal.

No entanto, e em sentido contrário aos primeiros efeitos da pandemia, a implementação generalizada do trabalho remoto acabou por resultar em muito mais oferta de trabalho para estes profissionais, segundo testemunha Ryan. Paradoxalmente, mesmo estando em casa mais tempo, os nova-iorquinos têm recorrido mais vezes a este tipo de serviços — talvez pela possibilidade de os cães passearem mais vezes por dia e, ainda assim, passarem mais tempo com os donos.

Trabalhar por gosto também cansa, mas compensa.

A diferença de Ryan para os demais é — como em tudo, aliás — a reputação que construiu ao longo das últimas duas décadas. Isso permite-o praticar preços acima da concorrência, designadamente 25 euros por cão em passeios de grupo. E permite-o ainda ser cada vez mais selectivo com os cães — e, também, os donos — que aceita. Isto traduz-se na taxa de aceitação de serviços face à procura que recebe: dos pedidos recebidos nas suas plataformas, apenas 10 por cento deles são aceites.

“Os tutores estão progressivamente mais exigentes e paranóicos”, revela Ryan. “Há cada vez mais câmaras e sinalizadores. Isso é um desafio porque sentes que tens pessoas a olhar por cima do teu ombro a toda a hora. Torna a coisa mais stressante”, acrescenta. E a verdade é que, por vezes, esse controlo ultrapassa a barreira do razoável, como em casos em que os donos, para saberem se está tudo bem com os seus cães, pedem a Ryan para lhes enviar constantes mensagens — e a atenção, assim, é contraproducentemente desviada dos próprios cães para o telemóvel.

Para Ryan, esta excessiva preocupação encontra fundamento num fenómeno que se intensificou precisamente no tempo pós-pandemia: “Eu acho que a indústria dos animais de estimação é um negócio em crescimento porque nós já não pertencemos a grupos pertencíamos. Já não pertencemos aos grupos de leitura ou às ligas de bowling ou aos círculos de crochê… As pessoas ficam mais em casa, e onde é que focam os seus afectos e as suas necessidades de carinho físico? Nos seus gatos e cães”, conclui.

Carregue na galeria e veja como é um dia de trabalho deste ‘dog walker’ em Nova Iorque.

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