Família

Afinal, Maria e Snoopy já não vão para a nova casa no início do ano

A antiga cantoneira ia viver para Santarém, mas a mulher que a ia receber voltou atrás no compromisso.
As ruas da Reboleira voltam a ser uma opção para Maria.

2023 tinha tudo para ser um ano fantástico para Maria Guerra. Pela primeira vez em dez anos, a mulher de 60 anos preparava-se para ter uma casa própria. Para ela e para o seu cão Snoopy. Porém, ao contrário do que lhe fora prometido, vai ter de continuar a viver nas ruas da Reboleira, que são a sua cama há muito tempo.

“Estou muito chateada. Estava tão contente. Achava que ia finalmente ter um teto para mim e para o meu Snoopy”. A antiga cantoneira estava de malas feitas e pronta para mudar-se para Santarém. Depois do artigo da PiT, que contava a história da mulher que se recusava a abandonar o cão, preferindo ficar na rua, várias pessoas chegaram-se à frente e ofereceram-lhe casas.

Houve uma senhora que ofereceu a sua casa, que tinha diversos animais e seria ideal para Snoopy. As duas começaram a falar, e já estava decidido que Maria iria deixar Lisboa, onde sempre viveu, em direção a um novo ciclo: “Ainda quero muito ir para a casa dela. Quero dar uma melhor vida ao meu Snoopy”, confessou na noite de véspera de Natal.

No entanto, a seguir à Consoada, vieram as más notícias. “Ela mandou-me agora uma mensagem a dizer que eu já não podia ir para lá. Disse-me que o seu senhorio não deixava”, conta Maria à PiT.

E acrescenta: “Agora, não sei para onde vou. Vou dormir por aí. Na rua. Com o meu Snoopy”.

Maria costumava ficar em casa da amiga Maria do Céu. Todos os dias, saía de manhã quando a idosa de 90 anos ia para a associação, e passava o dia com o seu cão a vaguear pela freguesia da Amadora. À noite, voltava, jantava, tomava banho e dormia. Era bom, mas Maria sabia que seria apenas temporário.

Isso mesmo confirmou-se na sexta-feira, dia 23 de dezembro. Quando Maria do Céu se preparava para ir para casa do filho para passar o Natal, as duas tiveram uma discussão que acabou da pior forma: “Ela expulsou-me de casa. Depois pediu-me desculpa, mas não tem tem atendido o telemóvel desde então. Tenho lá tudo, e a minha morada oficial é a dela”.

Sem teto definitivo, ou mesmo temporário, Maria e o cão que adotou há 11 anos veem-se na obrigação de arranjar um canto na rua para dormir. Mas talvez a vida tenha outra reviravolta.

Um início diferente do esperado por Maria e Snoopy

“Ligou-me agora um senhor da Câmara Municipal. Pediu-me alguns dados e disse: ‘Vou ver o que posso fazer'”. Para Maria, isto não significa apenas que poderá ter uma casa para si e para Snoopy; pode signifcar que terá a sua situação finalmente regularizada.

Com uma deficiência no joelho esquerdo, que não tem cartilagem, Maria tem mobilidade reduzida e, a acrescentar à sua idade avançada, fica impossibilitada de trabalhar. Pelo menos, aos olhos dos empregadores. “Quando ouvi dizer que havia vagas no talho do Pingo Doce aqui da Reboleira, fui lá perguntar se podia ficar com o trabalho e responderam-me: ‘Minha senhora, já tem 60 anos. Desculpe, mas já está muito velha para trabalhar'”, descreve à PiT.

Há dez anos que está habituada a ver a conta a zeros, após os seus 189€ de Rendimento Social de Inserção (RSI) irem diretamente para a sua alimentação e a de Snoopy. Pagar uma casa nunca sequer esteve na imaginação de Maria, sempre lhe pareceu algo inconcretizável. Mas talvez isso venha a mudar: “O senhor [da Câmara] perguntou-me: ‘Tem para onde ir?’. Eu respondi que ia ficar na rua com o meu cão, e ele disse: ‘Espere pelo meu telefonema, que eu vou tentar ajudá-la”.

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