Família

André Cabrita tem 43 animais a seu cargo. E não se deixa abater pelos desgostos

Lidar com a morte dos animais que resgata é algo que lhe pesa. Há um grande desgaste emocional. Mas é preciso seguir em frente.
Carinho e gratidão.

A PiT tem vindo a contar as histórias de mulheres e homens inspiradores por este Portugal fora e que, com o seu exemplo de resiliência, abnegação e coragem vão conseguindo ajudar os muitos animais que encontram no caminho – doentes, maltratados e ao abandono.

Desta vez, a inspiração vem do Alentejo, onde André Cabrita se desdobra para ajudar os animais de ninguém – muitos dos quais, sem ele, morreriam em sofrimento num qualquer canto, à vista de todos mas sem um olhar de compaixão.

André Cabrita tem 34 anos e vive em Estremoz, no distrito de Évora. É lá que diariamente luta para mudar mentalidades no que diz respeito à forma como os animais são tratados. Divide os seus dias entre o emprego, numa fábrica de produtos alimentares, e os 43 animais que tem a seu cargo. Não é fácil. Dá muito trabalho, muita despesa, muitos desgostos. E exige tempo. Tirar umas férias é difícil e uma simples saída com amigos obriga a uma gestão exímia das horas do dia. Mas André não trocava por nada a vida que tem junto dos seus quatro patas.

Sempre ali viveu. E é lá que faz o que pode para ajudar os que não têm voz – um chamamento que sentiu logo em pequeno. “Como vivo e cresci num meio mais rural, sempre houve muito contacto com todo o tipo de animais desde criança. Cresci nos Arcos, uma aldeia muito próxima de Estremoz, onde a maioria das pessoas tem animais. Por isso, lidar com eles sempre foi, para mim, uma coisa muito normal”, conta à PiT.

E isso “tem coisas boas e coisas más”, explica. “Havia sempre animais abandonados pela aldeia – e alguns com donos, mas que eram muito negligenciados. Então, muitas vezes, eu acabava por querer ficar com eles, Mas nem sempre era possível e por isso tentava arranjar donos ou alguém que tivesse possibilidade de os recolher”.

A gratidão eterna de um animal resgatado

Para André, todos os animais são especiais, “mas os que são resgatados abandonados na rua, ou de situações de maus tratos, trazem com eles uma gratidão eterna a quem os salva. Num animal abandonado, o amor pelos donos é o mesmo, mas a gratidão é muito maior”.

Às vezes são recolhidos com muitas mazelas físicas, visíveis aos olhos de qualquer pessoa, mas todos eles têm mazelas psicológicas que ninguém vê e que muitas vezes são irreversíveis, sublinha o cuidador. Outras vezes, essas mazelas psicológicas “significam recuperações muito mais lentas do que as feridas e a magreza, por isso é inevitável que todos eles tenham uma ligação forte comigo”.

André Cabrita
Vem aí petisco.

E que animais mais marcaram este protetor animal? Escolher apenas um ou dois é complicado. “Se tivesse que falar nos casos que me marcaram mais, teria de falar naqueles que dão mais ‘trabalho’. São aqueles que chegam quase a morrer, mas que com muito trabalho, tempo, esforço e medicação conseguem sobreviver”. E isso é arrebatador. “Vamos vendo a pouco e pouco a evolução e recuperação de animais que estavam prestes a morrer e que ganham uma oportunidade de renascer. É incrível”.

Foi o caso do Lost. “O Lost foi um cão que estava a morrer no meio da rua, sem ninguém saber como foi lá parar. Tinha muito pouco pelo, devido à leishmaniose. As quatro patas estavam em ferida e até tive de comprar meias de bebé para ele conseguir dar os seus passeios”, conta André.

Mas as patas não eram o único problema. “Os olhos choravam sangue e as orelhas estavam todas a apodrecer. Foi uma das recuperações mais lentas que tive e houve muitas coisas que não foi possível reverter. Nessa altura, ele teria uns cinco ou seis anos. Viveu comigo mais cinco anos e durante esse tempo teve todos os cuidados e era medicado diariamente. O que nunca teve foi uma família”, diz André, desolado. “Eu faço o possível para que não lhes falte nada, mas é impossível dar o mesmo conforto que uma família”.

Outro caso que o marcou bastante foi o do Bimi, que apareceu esquelético na rua – e também quase sem pelo, devido à leishmaniose. Agora está recuperado e lindo, mas família ainda não a tem. E não deve ter, suspeita André. “Ninguém quer cães com leishmaniose”.

Dias seguidos a caminho do veterinário

Todas estas situações exigem muitos cuidados e também verbas. “É muito complicado manter dezenas de animais. Costumo dizer que, para quem tem um ou dois animais, é normal eles às vezes ficarem doentes. Mas, para quem tem muitos, essa probabilidade aumenta drasticamente e muitas vezes são dias seguidos a caminho de veterinários com diferentes animais”. Isto além dos cuidados diários, como a alimentação e limpeza dos espaços.

Com tantas vidas que André ajuda a recuperar, os laços vão-se estreitando cada vez mais. Alguns desses animais nunca chegam a ter uma família só deles, mas têm o amor deste cuidador, um espaço onde são acolhidos e onde vivem com dignidade. .

E como é lidar com a perda? Difícil. Extremamente difícil. “Devo confessar que ainda não sei lidar muito bem com a morte, sobretudo quando são animais acabados de resgatar e não os conseguimos salvar. Fazemos tudo ao nosso alcance, abdicamos de muito do nosso tempo, da nossa energia e de muito dinheiro para os salvar, mas mesmo assim não conseguimos”.

“Parece que fica um sentimento de falhanço por não termos conseguido chegar a tempo. Tentamos sempre todos os tratamentos. Quando resulta é das melhores sensações que se pode ter, porque é a recompensa de nunca desistir. Mas quando eles não sobrevivem, há um enorme desgaste emocional”, salienta.

André Cabrita
Quem passa na sua rua, vê muitos curiosos à janela.

André fala no plural, porque sem os amigos não conseguiria ajudar da forma que ajuda. “Alguns acolhem animais quando eu já não tenho espaço, muitos contribuem para ajudar a pagar as despesas, outros ajudam com o seu tempo quando há campanhas de recolha de alimentos nos supermercados”, aponta.

E o que diz André a quem deseja adotar um animal? Para ele, é importante frisar que “os animais sentem o mesmo que nós, humanos. A diferença é que eles não sabem falar”. “Por isso, digo às pessoas para fazerem aquilo que eu próprio faço, que é tentar meter-me no lugar daquele animal. Assim parece que fica mais fácil entender as necessidades deles e perceber onde podemos melhorar na maneira de os tratar”.

Animais sem “utilidade” são descartados

Sobre onde se vê dentro de uma década, não há certezas a não ser esta: continuará ligado aos animais. “Não sei o que o futuro me reserva e daqui a 10 anos é muito tempo, mas gostaria muito que a causa animal tivesse evoluído, sobretudo nos meios mais rurais, onde os animais são vistos como objetos descartáveis”.

“O caçador tem um cão e se ele não prestar para caçar é automaticamente abandonado. Se o cão não prestar para guardar a casa é abandonado. E o gato muitas vezes nem sequer é alimentado para ter fome e ir caçar ratos. Se não houver uma utilidade, os animais são descartados”, lamenta.

E isso dói-lhe. Dói-lhe que a companhia e a lealdade deles muitas vezes não sejam suficientes. “Era essa a evolução que gostava de encontrar daqui por 10 anos”.

“Sempre achei, e continuo a achar, que todos – mas mesmo todos – os animais são adotáveis, mas a realidade é que a grande maioria da sociedade não acha isso. A grande maioria dos animais que resgato são adultos e sem raça definida e ainda há a ideia errada de que um animal já adulto não se adapta a uma família. Então preferem adotar animais bebés, o que faz com que quem resgata fique rapidamente lotado de animais – e sem adoções à vista, porque os critérios de quem quer adotar são bastante específicos”.

No entanto, quem recolhe da rua só vê um animal em sofrimento, sublinha. “E por isso acaba muitas vezes por ficar com esse animal o resto da vida”.

“Se os tiro da rua, são da minha responsabilidade”

André vive sozinho e trabalha oito horas diárias na fábrica. Por isso, para ele, cuidar dos animais não é um sacrifício, apesar do tempo e do dinheiro que isso lhe exige. “Cuidar dos animais abandonados e dar para adoção é o meu ‘hobbie’, digamos assim. É tudo feito no meu tempo livre”.

Mas isso também significa “tirar tempo aos amigos, à família e a nós próprios”. O que, para André, é uma escolha inevitável. “A partir do momento em que os retiro da rua, passam a ser da minha responsabilidade. Mas só consigo fazer o que faço graças a amigos que seguem o meu trabalho e sabem o que faço e que ajudam. Tudo o que faço é de forma voluntária, mas todos estes animais envolvem despesas que eu sozinho não conseguiria suportar. Sobretudo nas castrações, que são das primeiras cirurgias a fazer”.

Neste momento, André tem a seu cargo 32 cães e 11 gatos. Sabe que muitos deles nunca serão adotados, especialmente os mais velhos, doentes e menos sociáveis. Mas estará ao lado deles até ao último momento. Só assim lhe faz sentido. E todo o esforço compensa. “Eles são fantásticos. Se as pessoas soubessem como eles são fantásticos, não vinham com a ideia das raças e dos animais bebés”.

Percorra a galeria para ficar a conhecer melhor André Cabrita e os animais que estão à sua responsabilidade. Todos eles com a secreta esperança de um dia terem um lar.

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