Família

António foi deixado com um recado para o matar. Hoje, só quer quem o faça feliz

Tem cerca de 14 anos, e já passou por muito. Vive feliz e calmo, e procura uma família que lhe dê paz até ao último suspiro.
A sua vida mudou completamente no ano passado.

Carlos Filipe leva a vida a fotografar animais cuja vida pouco lhes sorriu. Alguns são “dinossauros”, como o fotógrafo e o seu grande amigo João Ferreira, um protetor de animais algarvio, chamam aos séniores, custam mais do que outros. António foi um deles.

“Quando estava a editar as fotografias dele, as palavras começaram a surgir-me na cabeça”, confessou à PiT. Já é costume Carlos usar as redes sociais para expressar o que pensa que “os animais estão a tentar dizer”. Enquanto olhava para os retratos que fez do cão com cerca de 14 anos só lhe ocorrria: “Aguenta mais um pouco, António. Sei que estás cansado, mas aguenta só mais um pouco. Sei que o mundo te desiludiu e te tirou o chão. Sei que tudo mudou sem estares à espera, mas não desistas”, começou por escrever, numa publicação.

Ainda não fez um ano desde que o chão referido por Carlos foi arrancado dos pés de António. Em julho de 2022, o Canil Municipal de Tavira foi surpreendido com um cão amarrado ao portão principal. Junto à corda laranja que trazia agarrada ao pescoço, levava um bilhete: “Por favor, abate este cão. Já não tenho dinheiro”.

O bilhete que foi deixado com António.

“Como é natural, os voluntários não o abateram, pois não havia razão nenhuma para o fazer”, disse João Ferreira à PiT. O bom senso dos funcionários do canil foi a salvação de António. Já o amor e carinho que recebe todos os dias, pode agradecer ao protetor que vive e trabalha no abrigo ARA – Animal Rescue Algarve.

“Temos uma parceria com o canil, em que, de vez em quando, ficamos com animais deles. Numa das visitas que fiz lá, vi-o e apaixonei-me logo por ele”. João falou com os voluntários e ofereceu-se para somar António à quase dezena de animais que tem em regime de Família de Acolhimento Temporário (FAT).

Acabou por levá-lo para o abrigo e deu-lhe a conhecer o significado de família, pois, pelo que lhe parece, António nunca teve uma: “Achamos que era um cão de caça ou de jardim. Nos primeiros tempos, deitava-se sempre no chão, mesmo que tivesse a cama ao lado, pois estava habituado à pedra fria. Agora, é que já ninguém lhe tira a caminha”.

Há outros hábitos da rotina de António que se mantêm desde o último sítio a que chamou casa: “Levanta-se todas as manhãs e manifesta logo interesse em ir à rua. Não consegue fazer dentro de casa, de forma nenhuma. Não por ter sido ensinado a isso, mas porque provavelmente sempre esteve habituado a estar lá fora”.

Ainda que o seu passado não tenha resultado a seu favor, António é um cão feliz. “Fica alegre quando vai passear, adora ir à praia e vive bem na sua”. É um cão que passa maior parte do dia a dormir, e que não precisa da valorização de outros animais para viver descontraído.

“Para ele, estar com dez cães ou só com um não tem diferença. Achamos que ele possa ter vivido com outros animais, porque ele ignora-os totalmente”. Só Táxi, outro dos “dinossauros” de João, é que merece o seu apreço, escolhendo muitas vezes a sua companhia para se deitar. Mas para apenas isso.

“Precisamos de alguém que não seja egoísta e que não queira um animal para a vida toda”

Quando adotamos um animal, pensamos sempre nos bons momentos que viveremos com eles e em como queremos que acompanhem as diferentes fases da nossa vida. João Ferreira quer deixar claro que António não é um desses animais. E procura alguém que saiba isso e que o aceite dessa forma.

“Precisamos de alguém que se preocupe unicamente com o bem-estar e a qualidade de vida do António. Que lhe queira dar amor e carinho nestes últimos anos”, implora à PiT. Já não resta muito tempo ao cão cujo “coração está partido” e a “alma começa a ficar cansada”, como descreve Carlos Filipe, e agora só precisa de uma família que o preserve até ao último momento.

António precisa de quem lhe dê amor no tempo que lhe resta.

António tem insuficiência hepática, tendo o fígado já muito deteriorado. Desta forma, tem que tomar medicação uma vez em cada dois dias, sendo que a sua alimentação é a típica de qualquer cão sénior: ração e patés. Fora isso, e do facto de não conseguir engordar mais do que o seu estado atual, apenas toma suplementos para as articulações, pois a idade já começa a pesar.

Desde a partilha do texto comovente do fotógrafo, que não só retratou António, como leu na perfeição o seu sentir, que o cão já tem tido diversas candidaturas de possíveis adotantes. No entanto, João Ferreira ainda está à procura da família perfeita para o acolher.

Se a história de António não o comoveu, talvez as fotografias de Carlos Filipe o façam. Carregue na galeria para ver a beleza do cão por trás de toda a mágoa que leva às costas.

ver galeria

ÚLTIMOS ARTIGOS DA PiT