Família

Beatriz salvou a vida de um pássaro bebé em Almada — foi alvo de várias denúncias

A auxiliar de veterinária partilhou a história do gaio no TikTok e foi atacada. Entregou-o às autoridades e já não teve notícias.
O gaio terá poucas semanas de vida.

Pelas oito da manhã de sexta-feira, 31 de maio, Beatriz foi surpreendida. A auxiliar de veterinária estava a terminar o turno noturno no trabalho em Sobreda, Almada, com o último passeio de um cão que estava em hotel no hospital veterinário onde trabalha, quando o canídeo começou a ficar inquieto e saltou em direção a um pássaro gaio que estava quase imóvel no chão. Por sorte, Beatriz agiu rapidamente e evitou uma tragédia.

O resgate de aves já é uma constante na vida da amante de animais, de 27 anos. Mas mal sabia ela que este em específico iria ter uma atenção que não estava à espera. Naquela dia, tinha trabalhado da meia-noite às oito da manhã e depois de salvar a pequena cria, andou à procura do seu possível ninho com uma colega. Como não o encontrou, levou-a para casa. 

Quando chegou, fez o primeiro vídeo no TikTok a mostrar a reação do namorado ao ver o pequeno gaio. Depois, foi descansar e quando acordou, estava inundada de mensagens de pessoas a aconselhá-la a ligar para as autoridades — neste caso, a Guarda Nacional Republicana (GNR) e o Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA).

“Liguei para a GNR e eles disseram que não era com eles, que tinha mesmo de ligar para o SEPNA”, recorda à PiT Beatriz Costa. “Isso foi foi na sexta-feira, eram seis e pouco da tarde, e eles disseram-me que estavam fechados ao fim de semana”, acrescenta. Beatriz foi então confrontada com duas opções: ou deixava-o numa gaiola sob os cuidados da GNR ou ficava com ele durante o fim de semana e entregava-o na segunda-feira. 

Como trabalha na área veterinária e tem as capacidades necessárias para tratar de qualquer animal, a GNR terá permitido que Beatriz ficasse a cuidar da ave durante os dias seguintes, e foi isso que fez. Nesta altura, a jovem confessa que chegou a pensar na possibilidade de a manter consigo e questionou as autoridades sobre a hipótese. A resposta foi clara: poderia mantê-lo desde que assinasse um documento que a consideraria o fiel depositário do gaio. 

Nos dois dias que se seguiram, cuidou do pássaro como se fosse um filho. O primeiro passo foi ir até uma loja de animais exóticos comprar-lhe as nutrientes de que precisava. Sendo os gaios uma espécie carnívora, foi aconselhada a adquirir minhocas e uma papa de inseticidas para oferecer. A ave, porém, não comia sozinha e precisou sempre do apoio da auxiliar de veterinária. 

Durante todo o tempo, o pássaro ficou livre e, apesar de conseguir voar, recusava-se a ir para longe. Houve uma altura em que Beatriz chegou a levá-lo até ao local onde o encontrou e mesmo assim, parecia que ele não queria ir embora. No fim de semana, o pequenote, que terá cerca de poucas semanas de vida, chegou até a fazer amizade com Cookie, uma cadela que por vezes passa as noites na casa de Beatriz a receber cuidados. 

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Entregou o pássaro, mas as denúncias continuaram

O que é bom dura pouco e apesar de ter criado um vínculo especial com o gaio, Beatriz decidiu entregá-lo ao SEPNA. Na passada segunda-feira, 3 de junho, saiu do trabalho e foi até ao centro mais próximo de onde vive, em Monsanto. Mas acabou por apanhar trânsito e quando lá chegou, o espaço já estava fechado. Mais uma vez, voltou para casa com a ave. 

No dia seguinte, antes de sair de casa para entregar de vez o gaio, terá sido surpreendida por mensagens de um funcionário do SEPNA e de um do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

“Diziam que havia imensas pessoas a enviar-lhes o meu vídeo do TikTok, a fazerem denúncias e a pedirem para eles intervirem”, diz à PiT. “Antes de fazerem efetivamente a denúncia, tentaram entrar em contacto comigo através da minha página do Instagram para eu poder entregar a ave para não avançarem com o processo”. 

Nesta altura, Beatriz soube que poderia pagar até 20 mil euros de multa por ter em sua posse uma ave selvagem e, portanto, ilegal. Mais uma vez, a auxiliar de veterinária voltou para a estrada com o gaio e levou-o ao Centro de Interpretação de Monsanto. Nesta altura, conta-nos que assinou um papel a confirmar a sua entrega e foi informada que iria receber atualizações da ave.

Para ter a certeza de que enviariam fotografias do mesmo pássaro e com medo de que algo de mal acontecesse, Beatriz conta que colocou uma “anilha vermelha” numa das pernas da ave para conseguir identificá-la mais tarde. 

“Eu sabia que comigo ela estava a ser bem tratada. Estava com a minha consciência tranquila que estava a tratar bem do animal”, frisa. “Eu não o tinha preso, ele andava solto e estava a ter todos os cuidados necessários. Entretanto, entreguei-o, eles meteram-no numa caixinha de cartão com fita cola e disseram que ficava na recepção e que depois alguém o iria buscar”. Até data, não recebeu qualquer notícia sobre o companheiro. 

Dizer adeus à ave não foi fácil, mas assim que a entregou às autoridades, a veterinária partilhou um último vídeo no TikTok a alertar os utilizadores sobre o desfecho da história e voltou a rotina normal. Porém, as denúncias continuaram e, poucos dias depois, quando chegou ao trabalho, tinha uma viatura da GNR à sua espera. 

“Fui recebida às nove da manhã com três polícias do SEPNA que me vieram perguntar se havia alguma ave lá no hospital”, partilha à PiT. “Perguntei que tipo de ave é que eles estavam a referir e só falaram ‘uma ave selvagem’. Eu disse que não tinha nenhum pássaro ali e perguntei o porquê e eles disseram que receberam denúncias que havia uma pessoa a trabalhar com aves”. 

A enfermeira veterinária explicou aos polícias toda a situação que viveu nos últimos dias e mostrou-lhes o documento que comprovava a entrega do gaio. “Eles disseram que nem estavam a acreditar que estavam a perder tempo com um assunto destes, tendo em conta que eu já tinha entregue a ave, e que só tiveram mesmo de vir porque foram mesmo muitas as pessoas a denunciar”. 

“Acho que as pessoas devem fazer o bem e resgatar, mas não partilhar”

Não foi a primeira vez que auxiliar de veterinária salvou a vida de um pássaro que precisava de ajuda. Beatriz trabalha com animais há cerca de três anos e pelo seu caminho, já se cruzaram pombos, patos e outras aves a precisaram de apoio. 

“Sempre encontrei imensas aves. Já encontrei um pato bebé no meio da estrada e uma pomba branca no Parque da Paz, que é ao pé da minha casa. Ela foi atacada por um cão ou por um gato, e estava perdida. Fiquei com ela, tratei dela e também fiz vídeos na altura de todo o cuidado que estava a ter com ela e recebi imensas mensagens, mas nada com maldade, foi mesmo só as pessoas a agradecerem por eu ter salvado o animal”.

Depois de a ajudar a recuperar, a enfermeira devolveu a pomba ao seu habitat. Os anos passaram-se e outros animais passaram pelas mãos de Beatriz — chegou a salvar três periquitos e acabou por mantê-los em casa. Blue já morreu, mas Bubble e Brave continuam a viver consigo.

O primeiro foi encontrado durante um passeio com um cão e até hoje, tem uma deficiência numa das patas. Já a segunda, bateu contra o vidro do Fórum Almada quando a veterinária estava a almoçar e foi salva ali mesmo. “Ela já teve um tumor gigante na barriga, eu operei-a e ela sobreviveu, não sei como”, partilha. “Tenho-a há cinco anos, e o Bubble há três”. 

Pela primeira vez este ano, a veterinária foi alvo de denúncias por ter salvado um pássaro, mas mesmo assim, não pretende ignorar os animais que num futuro próximo possam precisar de si. Através da sua história, quer alertar as pessoas sobre os cuidados que devem ter quando salvam um pássaro selvagem. 

“Toda esta repercussão pode acontecer com qualquer um”, diz. “Acho que as pessoas devem fazer o bem e resgatar. Mas ou entregam logo às autoridades ou nem sequer partilhem nada com ninguém do que estão a fazer”, conclui. 

Por outro lado, Beatriz também recebeu várias mensagens de apoio de pessoas a agradecerem-lhe pela atitude. Muitas delas querem que a veterinária recupere o gaio, que acabou por criar uma relação especial com a salvadora. 

A seguir, carregue na galeria para conhecer o adorável gaio salvo por Beatriz. 

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